Precisamos falar sobre discriminação e racismo no turismo brasileiro

Para exercer papel estratégico no desenvolvimento do Brasil, setor precisa investir em ações includentes e políticas sólidas para ampliar a diversidade

 POR ZAQUEU RODRIGUES*


De acordo com o IBGE, as pessoas negras representam 56,1% da população brasileira. Essa maioria numérica, porém, não se consuma no mercado de trabalho. Dados do Instituto Ethos sobre as 500 empresas de maior faturamento do Brasil mostram que 58% dos aprendizes e trainees são negros. Nos cargos de decisões o cenário muda. Apenas 6,3% de profissionais negros ocupam cargos de gerência e 4,7% cargos executivos. O estudo cristalizou o abismo que separa o mercado de trabalho e os profissionais negros.

O maior desafio das empresas é superar o discurso da diversidade e colocar em prática políticas consistentes, mostra o estudo Diversidade no Contexto das Empresas Brasileiras, feito pela consultoria 4CO com 15 das 20 maiores empresas do país. “A gente descobriu que a diversidade está muito no discurso. Na prática, ela não se materializa no sentido de promover espaço para que grupos minorizados tenham acesso à organização e aos caminhos que a carreira pode oferecer. São raríssimas as empresas que apresentam um programa sólido de diversidade”, afirma o diretor da consultoria e coordenador do estudo, Bruno Carramenha, que enfatiza: “O Brasil tem uma dívida histórica com a população negra e as organizações têm uma responsabilidade muito forte sobre essa reparação”.

No turismo, setor que representa 8,1% do PIB brasileiro, emprega 2,9 milhões de pessoas (CNC) e é apontado como estratégico devido ao potencial de rápida geração de emprego e de renda, não há estudos que dimensionem a realidade da sua diversidade racial. Diante da ausência de dados e o silêncio do setor sobre o tema, o hoteleiro Hubber Clemente realizou uma mini pesquisa em sua página na rede social corporativa Linkedin com um recorte direcionado ao setor hoteleiro: “Você conhece negros proprietários de hotel no Brasil?”, questionou. Ele conta que a pergunta resultou de uma inquietação que se avolumou ao longo da sua carreira profissional. “Em mais de duas décadas na hotelaria, eu sempre senti uma solidão racial muito grande. Raramente eu via um gerente geral, um diretor ou alguém no alto escalão que fosse negro”.

“Não podemos mais fechar os olhos para o racismo”, ressalta o hoteleiro Hubber Clemente

Das 143 respostas, apenas 4% afirmaram conhecer proprietário de hotel negro no Brasil. Para Clemente foi a confirmação de uma realidade que já sentia. “O resultado reflete o racismo estrutural do Brasil, e que, no turismo e na hotelaria, se torna maior e mais discrepante”. Ele aponta como primeiro passo para rever esse cenário colocar o racismo na agenda do setor para debater políticas de inclusão racial nas posições de liderança. “A diversidade racial em altos cargos é uma tendência que não está acontecendo na hotelaria. O perfil dos profissionais que ocupam as posições de tomadas de decisões é praticamente o mesmo: brancos, héteros e representam o que há de mais tradicional no mundo corporativo”.

Clemente avalia que o efeito imediato da falta de diversidade no turismo e na hotelaria é a desconexão com a realidade do país.  “Uma gestão sem diversidade não consegue se conectar às tendências que movem a sociedade”.  Para evidenciar esse cenário ele cita o movimento Vidas Negras Importam, desencadeado após o assassinato do cidadão negro George Floyd pela polícia norte-americana no dia 25 de maio passado. “Por mais que o Movimento tenha tomado a mídia e pautado debates nas empresas e na sociedade como um todo, os setores de turismo e hotelaria praticamente não falaram sobre o assunto. Não podemos mais fechar os olhos para o racismo. O debate precisa ser colocado na agenda das grandes redes e principais lideranças desses setores”, considera ele, que criou o canal no Youtube Negros & Pretos: Afro Hotelaria e Afro Turismo para refletir sobre os caminhos para ampliar a representatividade negra no turismo e na hotelaria.

Invisibilidade

A turismóloga e consultora de viagens Camila França evidencia que o racismo se manifesta no turismo de inúmeras maneiras e aponta que os profissionais negros são invisibilizados pelo setor. “A gente vê propagandas de viagens somente com pessoas brancas, como se as pessoas pretas não viajassem. Somos profissionais ou consumidores do turismo, mas não nos veem como tal, a não ser que estejamos em cargos ou em caixinhas pré-determinadas. Parece que a nossa capacidade só se limita aos serviços. Há uma grande quantidade de pessoas pretas trabalhando no turismo, mas sempre nas funções de servir. As pessoas estão acostumadas a nos ver nesses cargos, e, fora deles, esperam que a gente fale sobre turismo afrocentrado, sobre África, como se não fossemos qualificados para falar sobre todo tipo de assunto. Querem sempre nos limitar numa caixinha”.

“Assim como me incomoda estar num evento e contar quantas pessoas pretas tem, isso tem que ser um incômodo geral”, diz a Consultora de viagens e turismóloga Camila França

Camila conta que, na maioria dos eventos de turismo dos quais participa, a presença de pessoas negras se resume a ela e mais uma ou outra. “Por ser mulher já tem a barreira do machismo, e, por ser mulher preta, tem a outra barreira que é a do racismo. É dificultoso porque a gente não consegue pegar muitas referências. É difícil de identificar por conta dessa não visibilidade. Nós estamos no setor, mas em qual lugar?”, questiona ela. Para Camila, a mudança passa pelo reconhecimento das pessoas brancas de seus privilégios e de que o racismo existe. “Falar que somos todos humanos é uma narrativa que já não dá mais, pois ela ajuda as pessoas brancas a se manterem dentro de seus privilégios e a fazer a manutenção do racismo. Assim como me incomoda estar num evento e contar quantas pessoas pretas tem, isso tem que ser um incômodo geral”.

Diversidade de narrativas

A experiência do turista é construída pela narrativa que o apresenta ao destino. Um exemplo muito popular sobre os efeitos dessa percepção é o famoso bairro da Liberdade, na região central de São Paulo. Ele costuma ser apresentado (e conhecido) quase que exclusivamente pela narrativa oriental que atrai visitantes do mundo inteiro e movimenta o seu comércio de rua. A população oriental, no entanto, começou a se estabelecer no bairro apenas no século passado. Poucos sabem que no coração do bairro cujo nome é herança da população negra, resiste até hoje a pequena capela Nossa Senhora das Almas dos Aflitos, construída em 1779 ao lado do primeiro cemitério municipal de São Paulo. Tombada como patrimônio, essa relíquia arquitetônica conserva uma memória singular sobre a história do bairro e da população negra na cidade.

A compreensão, por exemplo, de que o bairro da Liberdade foi construído pela população negra e de que a praça que hoje é ocupada pela feirinha oriental já foi palco de enforcamentos públicos, é significativo para reconfigurar a perspectiva do viajante, fazê-lo entender onde está pisando e sobretudo como sente esse território visitado. Essa mudança de consciência na experiência turística está na essência do trabalho de Julia Madeira, fundadora da iniciativa de turismo étnico-cultural Auá Turismo. A palavra Auá, que nomeia a iniciativa fundada em 2019 na cidade de Piracicaba, no interior paulista, é herança Tupi-Guarani e significa “gente, homem, ser, índio, pessoa, humano”, ou, como bem define a própria Julia, “gente de todo tipo”. O propósito da iniciativa é apresentar experiências turísticas não convencionais que resgatam as memórias, valorizam os patrimônios culturais e recontam a história por meio do olhar e do protagonismo da população negra.

“Fundadora da iniciativa Auá Turismo, Julia Madeira (de calça branca) apresenta roteiros étnicos-culturais que resgatam e valorizam o legado da população negra”. Foto: Renata Prado

O principal roteiro da Auá Turismo é a Rota Afro Piracicabana, que mantém vivos os pontos históricos negros da cidade de Piracicaba. O percurso é baseado na pesquisa do historiador e especialista em Afroeducação, Noedi Monteiro, e do filósofo e membro do grupo Batuque de Umbigada de Piracicaba, Antônio de Paula Junior. A Auá também promove passeios pela cidade de São Paulo. Entre outros pontos desbravados na capital está o bairro da Liberdade. Além de fomentar a gastronomia, o comércio e a cultura de profissionais negros, Julia ressalta o poder educacional dos roteiros étnicos-culturais. “São uma oportunidade de levar o ensino da cultura e da história Afro brasileira para dentro das escolas”, analisa ele, que atende grupos abertos e, principalmente, grupos escolares.

Beatriz Souza, fundadora da Brafrika Viagem, agência de viagem afrocentrada que resgata o legado da população negra em destinos nacionais e internacionais

A falta de diversidade narrativa do turismo tradicional, somada ao desejo de abrir novos caminhos e contar novas histórias, também inspirou a paulistana Beatriz Souza a empreender no turismo em janeiro de 2019, quando fundou a Brafrika Viagem, agência de viagem Afrocentrada que resgata o legado da população negra em destinos nacionais e internacionais. “Eu queria conhecer o continente africano, mas não da maneira caricata, animalesca e reduzida como o turismo tradicional comercializa. Eu queria conhecer as cidades, os millennials… uma abordagem mais urbana e contemporânea. Ao perceber que não tinha isso, eu vi a oportunidade de negócio e abri a agência”, conta ela.

Em seus roteiros, a Brafrika Viagens combina pontos turísticos icônicos e histórias da população negra do destino. “Muita gente foi à Paris muitas vezes e não conhece a Paris que a gente propõe a conhecer. É um olhar voltado para a população negra do local em vez de só recontar as histórias que o turismo tradicional reconta”, explica ela, que observa que o turismo vem abrindo os olhos para a diversidade aos poucos. “Há muito para ser trabalhado e muitas oportunidades”.

Histórias ressignificadas

“O turismo tem um valor simbólico muito relevante para o país e é muito importante que as empresas e o trade turístico participem da reflexão sobre o racismo do Brasil, de como atender melhor a população negra e de como construir mais pluralidade dentro do setor”, constata Antonio Pita, Cofundador e COO da startup Diáspora.Black, plataforma de viagem que conecta viajantes e hóspedes a uma rede de serviços que valoriza a identidade cultural negra. “Das situações discriminatórias e da invisibilidade dos legados e marcos da população negra em roteiros tradicionais nasceu a Diáspora.Black”, diz ele. Hoje ela oferece outros serviços como roteiros de viagens, cursos, oficinas, tour virtual e conecta mais de 30 mil pessoas em mais de 15 países.

“O potencial da experiência turística de revisitar e ressignificar a história é um elemento essencial no debate do racismo dentro do turismo”, afirma Antonio Pita, Cofundador e COO da Plataforma de viagem Diáspora.Black

Pita conta que a Diáspora.Black também realiza consultoria para que as empresas possam se posicionar sobre o racismo. “Nenhuma empresa está imune às situações de discriminações dentro de seus espaços. A grande questão é como responder a essas situações. A Diáspora.Black realiza treinamentos e consultorias para que elas estejam preparadas para reconhecer uma situação de discriminação e saber reagir de forma responsável. É um trabalho de formação, de letramento racial”, diz ele, que pontua a importância de avançar sobre o assunto. “É um tema que gera uma ampla repercussão e tem um impacto de marca gigantesco na empresa”.

O potencial da experiência turística de revisitar e ressignificar a história é um elemento essencial no debate do racismo dentro do turismo, pontua ele, que considera essencial que o setor identifique e promova roteiros e guias que contam as histórias a partir de outras perspectivas. Ele cita como exemplo a cidade mineira de Ouro Preto. “O turista que chega hoje a Ouro Preto vai ouvir uma história que muitas vezes reproduz uma narrativa que amplifica as desigualdades, ao invés de reduzi-las. É importante construir outras narrativas que estabeleçam pontes e que permitam aos turistas ouvir as histórias da mineração de Ouro Preto e saber que as técnicas foram desenvolvidas pelos africanos escravizados no Brasil, que havia africanos que enriqueceram naquela região e que havia uma série de mobilizações antiescravagistas. É preciso contar essas histórias para desconstruir as visões pejorativas sobre a presença dos afrodescendentes aqui no Brasil no período Colonial, para reconhecer o nosso passado escravagista e sobretudo para ressignificar essa história”.

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