O que define o preço do vinho?

A pergunta de Cláudio Nepobusceno – O que define o preço do vinho? – para a série Pergunte ao Werner é mais complexa, o que obviamente faz jus à resposta, longa, mas clara.  Nepobusceno pergunta: Schumacher, o que falta para os preços dos vinhos de boa qualidade e nacionais serem acessíveis para o brasileiro – e se tornar uma bebida mais popular? O senhor acredita que o gosto do brasileiro por vinho (de verdade) ainda está em evolução?

Abaixo, a resposta de Werner Schumacher:

Caro Cláudio, dizem que o empresário Raul Randon quando questionado pelo preço de seus vinhos respondeu: “meus vinhos não são caros, é você que ganha pouco”. Brincadeiras a parte, segue a minha opinião sobre essa importante questão.

Para ser um vinho popular é preciso realmente ter um bom custo-benefício, mais ainda se este vinho for para o consumo diário. Nesse sentido, aqui na região produtora, é possível encontrar bons vinhos na faixa de 18 a 25 reais, não sei no resto do país, pois devemos considerar o alto custo da logística nesse país continental.

Menos mal que a vitivinicultura está se espalhando em boa parte do nosso território.

Vinhos de muito boa qualidade normalmente são consumidos em ocasiões especiais, infelizmente para as classes menos favorecidas são proibitivos, mesmo um vinho de R$ 25,00 será pra ocasiões especiais.

Na década de 80, comentava-se que um bom vinho custaria US$ 10,00 em um bom restaurante de São Paulo, Buenos Aires e onde mais quer que seja. Dei-me ao trabalho de calcular a inflação da moeda americana e esse valor pulou para US$ 30,00, aproximadamente R$ 165,00, nada popular.

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Saindo da indústria é possível justificar esse valor técnica e financeiramente. Há pouco li um artigo espanhol que fixa esse valor em Eu 50,00.

Um exemplo que gosto de dar é do vinho chileno Don Melchor.
Conheci esse vinho no ano de seu lançamento e fiquei fã, hoje não sei mais o que é, pois ficou mais que proibitivo. Veja os preços abaixo para o Don Melchor Cabernet Sauvignon 2017:
R$ 1.335,18· US$ 256,00 na wine.com.br
R$ 739,80· US$ 142,00 na AdegaMais
R$ 999,99· US$ 192,00 no Pão de Açúcar
Mudando a Vindima
R$ 899,01· US$ 172,00 Magazine Luiza ou 4 x R$ 249,73 – com juros Don Melchor Cabernet Sauvignon 2011
R$ 899,99· US$ 172,00 na Submarino ou em 12 x R$ 74,99 – sem juros Don Melchor 2018 100pts

Quando esse vinho foi lançado, no varejo da Concha y Toro, custava US$ 15,00, não era um vinho popular, mas acessível. Segui comprando esse vinho até chegar aos US$ 30,00. A última vez que bebi esse vinho foi por um capricho de amigo de Toledo-PR que abriu uma garrafa comprada por US$ 70,00 no Paraguai. O que justifica esse vinho ser vendido a US$ 256,00? Só pode ser um bom trabalho de marketing que levou inclusive a marca ter uma vinícola própria, separada, mas propriedade da gigante Concha y Toro. O que chama a atenção é a disparidade de preços, inclusive um vinho de 10 anos custar bem menos que um de 4 anos e o mesmo preço de outro de 3 anos, mas com 100 pontos.

Quando esse vinho foi lançado, no varejo da Concha y Toro, custava US$ 15,00, não era um vinho popular, mas acessível (Crédito: divulgação)

Voltando ao tema da pergunta, uma alternativa seria os vinhos vendidos em Bag-in-box, há bons produtos e, embora caros ainda para o meu gosto ou bolso, estão conquistando mercado.

Também, os vinhos em lata estão a conquistar muitos consumidores jovens, a preços nada populares, talvez pelo modismo está indo muito bem e o interesse pela novidade pode ajudar o vinho a cair no gosto popular.

Há ainda a questão cultural, o vinho é uma bebida que requer certo conhecimento, não é preciso ser um expert, mas um pouco de noção se deve ter. Costumo dizer que é como as artes, não depende de renda e nem de preço, não segue a lei da Oferta e da Procura.

Baixe o preço da cerveja, aumentará o consumo, no caso do vinho não e o mesmo vale para o aumento da renda.

Por fim entra em questão o CUSTO BRASIL, este sim um eterno problema, que vem matando a indústria brasileira em praticamente todos os setores, mas isso depende da vontade política.

Tudo aqui utilizado na produção do vinho é 100% mais caro que na Europa e 60% no Mercosul. Falo, por exemplo, de barrica, equipamentos, rolha, garrafas, etc. e etc.

Viticultura de montanha ou heroica 

Grande parte do vinho brasileiro é produzido na Serra Gaúcha que se caracteriza como uma viticultura de montanha ou heroica, como é chamada na Europa, ou seja, aquela de difícil mecanização, fortes de clives com mais de 30% de inclinação, em altitudes acima de 500 metros acima do nível do mar, que requerem de 8 a 10 horas mais de trabalho que em planície ou planalto.

Por outro lado, para se produzir vinhos mais em conta é preciso forte mecanização e consequentemente a mecanização da colheita, que requer boas extensões de terra. Fala-se em vinhedos com mais de 40 ha, no mínimo, para ser viável economicamente em comparação aquela manual.

No futuro, será possível uma mesma máquina colher na fronteira oeste do RS, depois ir para o sudeste e centro do país, para terminar no Vale do São Francisco. Isso representará 4 ou mais colheitas com o mesmo equipamento, que poderá ser locado.

Por outro lado, para se produzir vinhos mais em conta é preciso forte mecanização e consequentemente a mecanização da colheita (Crédito: Getty Images)

Muitas alternativas cabem aos produtores praticá-las, mas uma boa dose depende da vontade política.

Como podes ver Cláudio, trata-se de um tema complexo, que envolve preço, renda, produção, gosto, moda e psicologia, além da vontade política de resolver essas questões que travam a indústria nacional.


Werner Schumacher, é o alemão brasileiro que na década de 80 e 90 do século passado trouxe os insumos da Europa para o início da vinicultura no Rio Grande do Sul, e portanto, no Brasil.

Sem meias palavras, Werner durante o último ano escreveu sobre inúmeros assuntos do universo do vinho. Defendeu a viticultura heroica de montanha, ficou do lado dos pequenos produtores de uva e vinho do Rio Grande do Sul, enalteceu a importância do enólogo em uma propriedade que produz vinho, criticou os marqueteiros que tentam desmistificar o mundo do vinho com seus produtos padronizados e sem caráter.


As perguntas a WERNER SCHUMACHER podem ser enviadas para o Whatsapp do DT: (11) – 99361-4862 – ou no próprio Comentários do Leitor (logo abaixo)


 

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