Com cerca de 2,5 milhões de copos comercializados por edição, evento catarinense investe em gestão de resíduos e mostra como grandes celebrações podem incorporar a sustentabilidade à sua operação
Por Reinaldo Canto*
Música, dança, gastronomia típica, cerveja e muita animação fazem da Oktoberfest de Blumenau uma das festas mais conhecidas do Brasil. Mas, por trás dos trajes típicos, dos brindes e dos pavilhões lotados, existe uma operação que merece atenção especial: a gestão dos resíduos gerados por milhares de pessoas durante os dias de celebração.

Na 41ª edição, realizada de 7 a 25 de outubro de 2026, a festa reforça uma experiência que vem sendo construída há várias edições: transformar a preocupação ambiental em parte da organização do evento. Um dos pilares desse trabalho é a parceria com a Veolia, empresa líder mundial em serviços ambientais, responsável por operações que permitem encaminhar os resíduos recolhidos para tratamento e valorização nos ecoparques da companhia.
A iniciativa coloca Blumenau em uma posição interessante no debate sobre sustentabilidade em grandes eventos. Afinal, se festas populares movimentam a economia, atraem turistas e celebram a cultura, também precisam enfrentar uma questão bastante concreta: o que fazer com todo o material descartado quando milhares de pessoas se reúnem no mesmo lugar?

Milhões de copos e um desafio ambiental
A dimensão do consumo ajuda a compreender a importância dessa operação. Segundo Guilherme Benno Genther, diretor-presidente da Blumenau Eventos, são comercializados cerca de 2,5 milhões de copos por edição da Oktoberfest.
O número impressiona e evidencia um dos principais desafios ambientais da festa. Mesmo quando os copos são reutilizáveis, sua circulação em grande escala exige organização, logística e cuidados para que o consumo de materiais não se transforme em um problema de descarte.
“A Oktoberfest é referência quando se fala de eventos sustentáveis”, afirma Guilherme. “Nós temos um projeto robusto socioambiental, principalmente na gestão de resíduos com a Veolia.”

A declaração reflete uma preocupação que, segundo o dirigente, não começou nesta edição. O trabalho ambiental vem sendo desenvolvido há várias edições, com aperfeiçoamentos na coleta, na destinação dos materiais e no acompanhamento de indicadores relacionados ao uso de recursos.
A experiência também mostra que a sustentabilidade de um grande evento não depende apenas de campanhas de conscientização dirigidas ao público. É necessário que exista uma estrutura capaz de recolher os resíduos, transportá-los e encaminhá-los para destinos adequados, com soluções compatíveis com as características de cada material.

Do pavilhão aos ecoparques
Na Oktoberfest, a operação da Veolia envolve a coleta dos resíduos produzidos durante a festa e seu encaminhamento para processos de reciclagem ou valorização energética, de acordo com as características dos materiais.
O resultado mais recente já consolidado ajuda a dimensionar o trabalho. Em 2025, durante os 19 dias do evento, foram recolhidas 123 toneladas de resíduos. Segundo o balanço divulgado pela organização, todo esse volume foi reaproveitado como combustível derivado de resíduos ou destinado à reciclagem, evitando o envio ao aterro sanitário.
No caso dos materiais que não encontram uma rota viável de reciclagem, parte pode ser preparada para a produção de combustível derivado de resíduos (CDR), utilizado pela indústria cimenteira como alternativa a combustíveis fósseis. Já os materiais recicláveis podem retornar à cadeia produtiva como matéria-prima.

Essa distinção é importante. Reciclar significa recuperar materiais para que sejam utilizados na fabricação de novos produtos. A valorização energética, por sua vez, aproveita o conteúdo energético de determinados resíduos. São caminhos diferentes, mas que podem contribuir para reduzir a disposição final e os impactos ambientais, desde que empregados de forma tecnicamente adequada.
O trabalho realizado na Oktoberfest demonstra que o destino dos resíduos precisa ser pensado antes mesmo de a festa começar. A coleta é apenas uma etapa de uma cadeia que depende de planejamento, infraestrutura, tecnologia e integração entre a organização do evento e os operadores ambientais.

Um exemplo que pode inspirar outros eventos
A experiência de Blumenau oferece uma referência para festivais de música, feiras, eventos esportivos e outras celebrações de grande porte. Em todos esses casos, a concentração de pessoas em um espaço e em um período determinados provoca um aumento significativo na geração de resíduos.
A diferença está na maneira como cada organização se prepara para enfrentar o problema. Quando a gestão ambiental é incorporada ao planejamento, torna-se possível estabelecer metas, dimensionar equipes e equipamentos, organizar a coleta e definir previamente o destino dos materiais.
Na Oktoberfest, a parceria com a Veolia também inclui ações relacionadas ao consumo de água. Estações de água ultrafiltrada oferecem hidratação gratuita ao público, ajudando a reduzir a necessidade de garrafas plásticas descartáveis. Nas edições de 2023 e 2025, foram distribuídos, ao todo, 84 mil litros de água ultrafiltrada, volume equivalente a aproximadamente 168 mil garrafas de 500 mililitros.

A operação inclui ainda o recolhimento do óleo de cozinha utilizado nos pontos de alimentação e o monitoramento do consumo de água e energia. São iniciativas que ampliam o olhar sobre os impactos ambientais da festa e ajudam a identificar oportunidades de melhoria.
O desafio, naturalmente, não se limita à estrutura do evento. A colaboração dos visitantes também faz diferença, seja na utilização adequada dos copos, na separação dos resíduos ou na redução do desperdício de alimentos e outros recursos.
Sustentabilidade além dos dias de festa
A Oktoberfest é, antes de tudo, uma celebração da cultura germânica, com atrações que incluem bandas típicas, grupos folclóricos, gastronomia, desfiles e encontros que movimentam Blumenau e toda a região.
Em 2026, a programação inclui apresentações de bandas brasileiras e internacionais, além dos tradicionais desfiles, que levam música, dança e trajes típicos às ruas da cidade. Entre as novidades estão as apresentações das bandas alemãs Dorfrocker e Die Kirchdorfer, que reforçam a conexão da festa com a tradição musical germânica.
Mas a dimensão cultural e turística do evento também amplia sua responsabilidade. Quanto maior o público, maior a necessidade de cuidar dos recursos utilizados e dos resíduos produzidos.

A experiência de Blumenau mostra que é possível integrar a gestão ambiental à operação de uma festa popular sem retirar dela aquilo que a torna especial: a convivência, a música, a alegria e a valorização da cultura.
O próximo passo é fazer com que esse tipo de prática se torne cada vez mais comum. Em um país que ainda enfrenta dificuldades para ampliar a reciclagem e melhorar a destinação de seus resíduos, iniciativas desse porte ajudam a demonstrar que planejamento e parcerias podem produzir resultados concretos.
No fim, uma festa sustentável não é aquela que deixa de gerar resíduos — algo praticamente impossível em um evento dessa dimensão. É aquela que reconhece seus impactos, organiza soluções para reduzi-los e assume a responsabilidade pelo destino dos materiais que coloca em circulação.
Se a Oktoberfest de Blumenau consegue reunir milhões de copos comercializados, toneladas de resíduos e milhares de visitantes em uma operação que prioriza o reaproveitamento, sua experiência merece ser acompanhada por outros organizadores. Porque celebrar também pode significar cuidar do lugar onde a festa acontece.
*O jornalista viajou a convite da Veolia




