Conhecida por seu patrimônio imperial, Petrópolis, na Região Serrana do Rio de Janeiro, guarda histórias que vão muito além dos palácios e monumentos. Para a guia de turismo Raquel Neves, apresentar esse passado exige reconhecer também o protagonismo dos povos originários, dos africanos escravizados e de diferentes comunidades que participaram da formação da cidade.
Em entrevista ao DIÁRIO DO TURISMO, conduzida pelo editor-chefe Paulo Atzingen, Raquel fala sobre memória, diversidade, educação patrimonial e cidadania. A profissional também explica como utiliza as visitas guiadas para estimular uma compreensão mais ampla da história brasileira.
Um olhar sobre a história além da narrativa eurocêntrica
Ao explicar como seu trabalho contribui para ampliar a compreensão dos visitantes sobre Petrópolis e sua relação com a formação do Brasil, Raquel Neves destaca a importância de questionar versões tradicionais da história e reconhecer a participação dos diferentes povos na construção do país.
“No meu trabalho, desconstruo a narrativa do ‘descobrimento do Brasil’. Inicio resgatando a presença dos povos originários e a força dos africanos escravizados, para só então contextualizar a chegada dos europeus”, explica.
Segundo a guia, essa abordagem permite apresentar aspectos históricos que, muitas vezes, não receberam a mesma atenção nas narrativas tradicionais.
“Não podemos continuar contando a história de Petrópolis sob uma ótica estritamente eurocêntrica, invisibilizando quem esteve aqui e quem construiu essa terra”, afirma.
A mudança de perspectiva também provoca reações entre os visitantes, especialmente aqueles que conheciam apenas a versão mais difundida da história local.
“O resultado é transformador: os turistas terminam o tour surpresos e impactados por uma história contada sob um olhar transformador, algo que raramente viram nos livros escolares.”

Escravidão, imigração e as histórias invisibilizadas
A diversidade de personagens e acontecimentos que marcaram Petrópolis também ocupa um espaço importante no trabalho da guia. Segundo Raquel, apresentar diferentes perspectivas históricas exige pesquisa e atenção às contribuições culturais e sociais que nem sempre receberam destaque nos relatos oficiais.
“A pesquisa rigorosa é a principal aliada do Guia de Turismo. Meu trabalho é pautado no resgate e na valorização de histórias que frequentemente foram invisibilizadas na narrativa oficial”, destaca.
Para Raquel, a história da escravidão deve ser apresentada de maneira mais ampla, valorizando não apenas as dificuldades enfrentadas pelas pessoas escravizadas, mas também suas contribuições para a formação cultural e social de Petrópolis.
“Ao abordar o período da escravidão, busco uma perspectiva decolonial e ressignificada: vou além da dor para destacar os saberes ancestrais, a religiosidade, as tecnologias, a força de trabalho e o cotidiano das pessoas escravizadas, situando também a relação com os proprietários e a estrutura da época.”
A imigração é outro tema presente nos roteiros. Nesse caso, a profissional busca demonstrar como a chegada de diferentes grupos influenciou a formação cultural da cidade.
“Da mesma forma, contextualizo a imigração analisando não apenas a chegada dos povos europeus, mas o impacto sociocultural que esses diferentes fluxos migratórios trouxeram para a formação da identidade de Petrópolis e do Brasil.”
O patrimônio histórico como ferramenta de educação
Para Raquel, conhecer presencialmente os espaços históricos proporciona uma experiência diferente daquela oferecida apenas pelos livros. O contato com a arquitetura, os monumentos e as memórias da cidade pode despertar novas reflexões sobre identidade, pertencimento e preservação cultural.
“A educação e a cultura são agentes transformadores. Quando o visitante tem contato direto com o patrimônio, caminhando pelos espaços, observando a arquitetura e ouvindo as memórias do lugar, a história deixa de ser um conceito abstrato de livro e passa a ser uma experiência viva”, explica.
Essa aproximação, segundo a guia, contribui para que o visitante desenvolva uma relação mais consciente com os bens culturais e compreenda sua importância para a sociedade.
“Essa vivência prática desperta a empatia, estimula o pensamento crítico e fortalece o sentimento de pertencimento, ampliando de forma profunda a visão de mundo de cada pessoa.”
Raquel também ressalta que o conhecimento sobre o passado é fundamental para incentivar a preservação do patrimônio.
“As pessoas só valorizam o patrimônio histórico quando podem conhecer a nossa própria história”, completa.

Turismo, diversidade e construção da cidadania
As visitas guiadas também podem funcionar como espaços de diálogo e convivência. Na avaliação da profissional, iniciativas ligadas ao turismo pedagógico e comunitário contribuem para ampliar o acesso à cultura e incentivar o respeito às diferenças.
“A democratização do turismo é o ponto de partida para a construção da cidadania. Quando ampliamos o acesso à cultura e ao patrimônio por meio de abordagens como o Turismo Pedagógico e o Turismo de Base Comunitária, transformamos a visita guiada em um espaço vivo de diálogo e inclusão”, afirma.
Nesse processo, o guia de turismo assume uma função que vai além da apresentação dos atrativos. Ele também contribui para aproximar visitantes, moradores e diferentes realidades sociais.
“Nessas experiências, o guia atua como mediador, estimulando o pensamento crítico e humanizado.”
Para Raquel, o contato com as comunidades e o reconhecimento de suas histórias ajudam a fortalecer valores relacionados à convivência e à responsabilidade coletiva.
“Ao dar visibilidade às narrativas locais e promover o convívio direto com as comunidades, estimulamos o respeito às diferenças, a empatia e a conscientização sobre o direito à cidade e o dever de zelar pelo bem comum.”
Brasileiros e estrangeiros: diferentes maneiras de conhecer Petrópolis
O público atendido por Raquel é formado majoritariamente por brasileiros, que representam 80% dos visitantes, enquanto os turistas internacionais correspondem aos outros 20%. Essa diversidade permite observar diferentes expectativas e percepções sobre a história e o patrimônio da cidade.
“Conduzir um público predominantemente brasileiro (80%), mas com uma relevante presença internacional (20%), exige sensibilidade para ler diferentes expectativas”, explica.
Segundo a profissional, os visitantes estrangeiros demonstram interesse especial pela preservação do patrimônio e pelas características culturais que diferenciam Petrópolis de outros destinos.
“O estrangeiro traz um olhar curioso e valoriza imensamente a conservação do patrimônio e as especificidades da cultura local, surpreendendo-se com a profundidade da nossa história. A forma como o Brasil é visto lá fora é fundamental para que eles tenham uma percepção diferenciada.”
Já entre os brasileiros, Raquel identifica uma busca pelo reconhecimento das próprias origens e pela compreensão dos acontecimentos que ajudaram a construir a identidade nacional.
“O brasileiro, por sua vez, vive um momento especial de redescoberta: ele vem em busca de reconhecer sua própria identidade.”
Na avaliação da guia, essa diferença de percepção também influencia a maneira como cada público vivencia os roteiros históricos.
“Enquanto para o turista internacional o passeio é uma imersão cultural em um universo novo, para o brasileiro é um reencontro emocionante com a memória do seu próprio país.”
Como o passado de Petrópolis ajuda a compreender o Brasil atual
A relação entre os acontecimentos históricos e os desafios contemporâneos também aparece nas explicações oferecidas durante os passeios. Raquel procura demonstrar como determinadas estruturas sociais e políticas do passado continuam relacionadas às desigualdades e ao acesso aos direitos no presente.
“Relacionar o passado ao presente exige didática, sensibilidade e rigor histórico”, ressalta.
A profissional utiliza acontecimentos ligados ao período imperial e à abolição da escravidão para estimular reflexões sobre questões que permanecem presentes na sociedade brasileira.
“Busco conectar as permanências históricas aos desafios contemporâneos de forma leve e acessível: analiso como a estrutura social da época do Império e da abolição, por exemplo, ainda se reflete nas desigualdades, na ocupação do espaço urbano e no acesso aos direitos no Brasil atual.”
“Além disso, abordo a evolução das leis, a participação política histórica e a influência dos diferentes povos na construção da cidade, mantendo sempre a isenção partidária.”
Dessa maneira, Raquel busca mostrar que o passado não deve ser compreendido apenas como uma sequência de acontecimentos distantes da realidade dos visitantes.
“Dessa forma, o visitante compreende que a história de Petrópolis não é um fato isolado no tempo, mas um processo vivo que explica o nosso presente.”
Muito além das fotografias: o legado de uma visita a Petrópolis
Mais do que apresentar atrativos turísticos, Raquel espera que os visitantes deixem Petrópolis com uma compreensão mais profunda de sua história e da importância de preservar as diferentes memórias que formam o patrimônio brasileiro.
“Espero que o turista leve a compreensão de que a história de Petrópolis é muito mais diversa e profunda do que a narrativa oficial costuma contar”, afirma.
Para a profissional, reconhecer a diversidade dos povos que participaram da formação da cidade é parte essencial dessa experiência. Isso inclui compreender que a história local não começou com a presença europeia.
“Quero que percebam que este território já era povoado antes da chegada dos europeus e que, ao lado do legado imperial, existe a resistência viva e a força dos territórios quilombolas e de outros povos formadores.”
Raquel também destaca a importância da atuação de profissionais qualificados, capazes de transformar os passeios em oportunidades de aprendizado e reflexão.
“Além dessa consciência histórica e cidadã, espero que valorizem a importância de ser conduzido por Guias de Turismo profissionais e qualificados, profissionais que não apenas apresentam monumentos, mas conectam memórias, ressignificam narrativas e transformam a viagem em uma experiência inesquecível para a vida toda.”





