Vovó Legal vai em busca de suas raízes

Por Patricia de Campos*

Às vezes é necessário ir atrás de nosso passado para entender porque os nossos caminhos nos levaram para certa direção e quais os rumos que devemos tomar a partir de agora.

Chegando quase aos 60 anos, eu, a @vovolegal.sp cruzei o país, sem meu pequeno companheiro, para pisar na terra de meu avó, Humberto de Campos, no Maranhão, do qual trago com honra o sobrenome.

Prefeito me apresentando em meio aos festejos natalinos

Sou a última que carrega o sobrenome do lado paterno da família e fui recebida como se fosse a “personalidade do ano”, com direito a discurso em praça pública, ao lado do prefeito, em meio a festividades locais.

A cidade que anteriormente era chamada de Miritiba, hoje tem o nome do meu avô – Humberto de Campos. O município territorialmente é muito grande, com vários povoados, localizados em região rural a beira mar, além de várias ilhas. Uma realidade que jamais imaginávamos existir.

Salinas artesanais. A cidade já foi um das maiores produtoras de sal do Brasil.

Na área denominada rural, há povoados com cerca de 30 casas, quase todas de pau a pique, que vivem do sal e da venda da carne de caranguejo que tiram dos manguezais. A região já foi destaque na extração do sal, todo produzido na forma artesanal. Mulheres quebram os caranguejos separando as patas e carnes, com habilidade fantástica, mas de forma rude e precária. Um mundo à parte e que faz parte do nosso Brasil. Para chegar nesses locais é necessário enfrentar algumas horas em estradas de areia branca e fofa.

Os homens catam os caranguejos e as mulheres descarnam. Subsistência local.

O rio Periá banha a cidade, que tem como pontos principais a igreja e o porto, recém modernizado, onde é possível ver barcos ambulância e outras pequenas embarcações que são o único meio de transporte dos que moram nas diversas ilhas do município ou meio de trabalho para os pescadores de camarão. O rio é um estuário, com água salobra, um canal de ligação com o mar e a casa de peixes boi, que tem o tamanho de um fusca. Golfinhos nos seguiram durante vários minutos em um passeio que fiz de voadora (lancha) na área do desague do rio com o mar por onde se chega na praia de Santa Clara, de onde sai grande produção de sururu.

Ver onde meu avô nasceu e o respeito que os mais velhos ainda têm pela sua memória, cimentaram a importância da minha história

Nadar no rio, como meu avô fazia quando criança.
A lua no rio Periá.

O município é um paraíso ecológico, com lugares únicos, onde as revoadas de guarás no final da tarde e a lua refletida no rio me fizeram recarregar sonhos. Ver onde meu avô nasceu e o respeito que os mais velhos ainda têm pela sua memória, cimentaram a importância da minha história.

Buscar as raízes nos ajuda a entender quem somos e a nortear nosso futuro.


Quem foi Humberto de Campos?

 

Humberto de Campos (1886-1934) foi um escritor, jornalista e político brasileiro. Escreveu crônicas, contos, ensaios, poemas e crítica literária. Foi eleito para a cadeira nº 20 da Academia Brasileira de Letras.

Humberto de Campos Veras (1886-1934) nasceu em Muritiba (hoje Humberto de Campos), no Maranhão, no dia 25 de outubro de 1886. Filho de Joaquim Gomes de Farias Veras, pequeno comerciante, e de Ana de Campos Veras ficou órfão de pai com sete anos de idade e mudou-se com a família para São Luís, onde se empregou no comércio. Com 17 anos passa a residir no Pará, onde consegue um lugar de colaborador e redator na Folha do Norte e depois na Província do Pará.

 

Em 1910 publicou seu primeiro livro, uma coletânea de versos, intitulado “Poeira”. Em 1912 muda-se para o Rio de Janeiro. Emprega-se no jornal “O Imparcial”, onde trabalhavam como redatores importantes escritores, entre eles, Rui Barbosa, Vicente de Carvalho, José Veríssimo, entre outros. Começa a se destacar no meio literário.

 

Nessa época, com o pseudônimo de Conselheiro XX, assina diversos contos e crônicas, que foram publicadas em jornais das principais capitais brasileiras, hoje reunidos em vários volumes. Assinava também com os pseudônimos de Almirante, João Caetano, Giovani Morelli, Justino Ribas, Micromegas, entre outros. Em 1918 publica seu primeiro livro de prosa “Seara de Booz”, onde reúne pequenos artigos escritos sob o pseudônimo de Micromegas. No dia 30 de outubro de 1919 é eleito para a Academia Brasileira de Letras.

 

Em 1920, Humberto de Campos ingressa na política elegendo-se Deputado Federal, pelo estado do Maranhão, tendo seu mandato renovado sucessivas vezes, até que perdeu seu mandato quando o Congresso foi dissolvido durante a Revolução de 30. É então nomeado inspetor de ensino e Diretor interino da Fundação Casa de Rui Barbosa, pelo Governo Provisório, instalado no país.

 

Em 1928, Humberto foi diagnosticado com hipertrofia da hipófise. Em 1933, com a saúde já abalada publicou o livro que se torou o mais importante de sua obra, “Memórias”, onde reúne suas lembranças dos tempos da infância e juventude. A obra foi bem recebida pela crítica e pelo público, sendo reeditada diversas vezes.

Humberto de Campos escreveu poesias, contos, ensaios, crônicas e anedotas. Inovou na crônica, adicionando novos elementos. Tinha um estilo fácil, corrente, escrevia com naturalidade e de fácil compreensão. Ao adoecer, muda seu estilo, de mordaz e cômico, passa a ser piedoso e compreensivo e sai em defesa dos menos favorecidos.

 

Humberto de Campos faleceu no auge de sua popularidade. Boa parte de sua obra foi publicada nos anos seguintes a sua morte. Entre suas obras destacam-se: Poeira, poesia (2 séries 1910 e 1917), A Serpente de Bronze, contos (1921), Carvalhos e Roseiras, crítica (1923), Alcova e Salão, contos (1927), O Brasil Anedótico, anedotas (1927), Antologia da Academia Brasileira de Letras (1928), Memórias (1933), À Sombra das Tamareiras, contos (1934), Memórias Inacabadas (1935), Últimas Crônicas (1936), Diário Secreto (1954), entre outros.

 

Humberto de Campos faleceu no Rio de Janeiro, no dia 5 de dezembro de 1934.

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