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Dia do Mestre – a educação que abre caminhos – por Bayard Do Coutto Boiteux*

No Dia do Mestre, quero celebrar quem ensina e, ao mesmo tempo, olhar para a realidade da educação brasileira. Homenagens são importantes, mas precisam vir acompanhadas de compromisso. O professor não pode ser lembrado apenas numa data do calendário e esquecido quando faltam recursos, reconhecimento e condições dignas de trabalho. Ao longo de 48 anos dedicados à educação e ao turismo, aprendi que ensinar é abrir caminhos. Como professor universitário e pesquisador, vi o conhecimento ampliar horizontes, despertar vocações e ajudar pessoas a compreender melhor o mundo em que vivem. Uma aula pode provocar uma pergunta que acompanhará o estudante por muitos anos. Pode também lhe mostrar que o futuro não precisa ficar limitado pelas circunstâncias em que nasceu.

Ensinar não é apenas transmitir informações. É ajudar cada pessoa a desenvolver instrumentos para pensar, escolher e participar da sociedade. O professor não caminha no lugar do estudante nem decide por ele. Apresenta possibilidades, organiza o conhecimento e estimula a curiosidade. Seu trabalho é oferecer referências para que cada um construa o próprio percurso. Essa missão tem uma dimensão profundamente democrática. Uma sociedade precisa de pessoas capazes de ler, interpretar, comparar informações e questionar aquilo que lhes é apresentado como verdade absoluta. A democracia não se sustenta apenas nas instituições ou nas eleições. Depende também da formação de cidadãos que possam participar, compreender os debates públicos e exigir responsabilidade de quem governa. Por isso, defender a educação é defender a liberdade. Quando o acesso ao conhecimento é privilégio de poucos, a desigualdade se perpetua. Quando a escola oferece condições para que todos aprendam, amplia as possibilidades de escolha e participação. A educação não resolve sozinha todos os problemas do país, mas nenhum projeto consistente de transformação pode dispensá-la.

A escola recebe as marcas da sociedade. Muitos estudantes chegam à sala de aula enfrentando longos deslocamentos, dificuldades econômicas, insegurança e falta de acesso a serviços básicos. O professor conhece parte dessas histórias e procura acolhê-las, mas não pode ser responsabilizado por resolver sozinho problemas que exigem políticas públicas e participação de toda a comunidade. Educação é uma responsabilidade coletiva. Cabe ao poder público garantir escolas seguras, acessíveis e bem equipadas, além de profissionais em número suficiente. Cabe também assegurar carreira, remuneração justa, formação continuada e tempo para que os docentes preparem suas aulas. A dedicação do professor merece reconhecimento, mas não deve ser usada para naturalizar jornadas excessivas, falta de recursos ou adoecimento. Vocação não substitui política pública.

É necessário que os professores participem das decisões sobre a educação. Quem vive o cotidiano escolar conhece a distância que pode existir entre uma proposta elaborada no papel e sua aplicação numa sala cheia de estudantes, com realidades e necessidades diferentes. Reformas podem ser necessárias, mas precisam de diálogo, planejamento, recursos e continuidade. Anunciar mudanças não é o mesmo que transformar a escola. A valorização do magistério também passa pela formação. A sociedade muda, as perguntas se renovam e os recursos de ensino se transformam. O professor precisa de oportunidades reais para estudar, trocar experiências e rever suas práticas. Formação continuada não deve ser uma sequência de certificados, mas parte reconhecida do trabalho, ligada aos desafios concretos de cada escola.

A tecnologia amplia possibilidades, mas não substitui o educador. Plataformas digitais e ferramentas de inteligência artificial podem apoiar a pesquisa e diversificar estratégias. Ainda assim, é preciso ensinar a verificar fontes, identificar erros e distinguir informação de conhecimento. Ter acesso a muitas respostas não significa compreender o assunto. O professor ajuda o estudante a formular perguntas melhores e a avaliar aquilo que encontra. Também precisamos preservar o espaço das artes e das humanidades. Literatura, história, filosofia e cultura ajudam a compreender a experiência humana, a memória e os conflitos do presente. Uma educação reduzida apenas à preparação para o mercado perde parte essencial de sua função. Formar pessoas é mais do que treiná-las para desempenhar tarefas: é prepará-las para pensar, criar e conviver.

Na minha trajetória, a educação sempre esteve ligada à possibilidade de ampliar horizontes. Essa ideia também atravessa meu trabalho com o turismo. Conhecer uma cidade não é apenas passar por ela; é aprender a observar sua história, sua cultura, seus desafios e as pessoas que a constroem. O conhecimento muda o olhar. Ensina a reconhecer aquilo que antes parecia invisível e a compreender que a realidade pode ser transformada. A convivência em sala de aula faz parte desse aprendizado. O professor deve tratar os estudantes com respeito, e os estudantes precisam respeitar o professor, os colegas e o espaço de aprendizagem. Esse compromisso favorece a participação, o diálogo e o direito de todos a aprender. O respeito se constrói no cotidiano, com regras claras, escuta e responsabilidade compartilhada.

Nem sempre o professor consegue perceber imediatamente o alcance de uma aula. Um conhecimento pode amadurecer com o tempo, uma pergunta pode voltar anos depois, uma leitura pode influenciar uma escolha importante. Essa permanência silenciosa é uma das dimensões mais bonitas do ensino. A sociedade, porém, não deve esperar que o reconhecimento venha apenas na lembrança agradecida de antigos alunos. É preciso valorizar os docentes enquanto exercem sua profissão. Neste Dia do Mestre, celebro quem ensina em escolas, universidades, cursos técnicos, comunidades e espaços de formação. Celebro quem prepara aulas, acompanha estudantes, pesquisa e segue aprendendo. E lembro que essa celebração precisa se traduzir em decisões: investimento público, boas condições de trabalho, liberdade para ensinar e participação dos educadores nas políticas que afetam a educação.

O mestre abre caminhos, mas não escolhe o destino de ninguém. Seu trabalho é compartilhar conhecimento e oferecer ferramentas para que cada estudante possa fazer suas próprias escolhas. A homenagem mais verdadeira a quem ensina é garantir que toda pessoa tenha acesso a uma educação de qualidade — e que cada professor possa cumprir sua missão com dignidade, reconhecimento e esperança.

Bayard Do Coutto Boiteux é professor universitário ,pesquisador e acredita na Educação como instrumento de mudança e redução de desigualdades sociais .

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