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Caminho do Peabiru: João Barcellos analisa história, trilhas e turismo

O Caminho do Peabiru (originalmente Piabiyu) reúne história indígena, conexões entre territórios sul-americanos e possibilidades de turismo cultural e de natureza. Nesta entrevista ao DIÁRIO DO TURISMO, o pesquisador e conferencista João Barcellos apresenta sua interpretação sobre a antiga rede de caminhos, discute seu significado espiritual e aponta lugares que permitem ao viajante conhecer aspectos dessa trajetória.

Ao longo da entrevista, concedida ao jornalista Paulo Atzingen, editor do DIÁRIO, Barcellos também aborda a preservação dos sítios históricos, a participação das comunidades e o papel do poder público na valorização do patrimônio relacionado ao Peabiru.

Caminho do Peabiru: uma rede entre o Atlântico e os Andes

DIÁRIO: Quando falamos no Caminho do Peabiru, estamos diante de uma única trilha ou de uma grande rede de caminhos? E, para o viajante de hoje, onde seria possível encontrar os trechos mais representativos dessa rota?

JOÃO BARCELLOS: A famosa Rota Piabiyu (ou Peabiru) é, na verdade, uma linha logística a unir os oceanos Atlântico e Pacífico. Assim, tanto a pessoa que vai visitar os sítios do Império Ynca (Peru), atravessando a Cordilheira dos Andes, como aquela que redescobre a Pindorama (hoje, Brasil), descendo da região peruana ao Rio Yguassú ou subindo pelo La Plata na direção dos Campos de Piratininga (hoje, São Paulo), estão a visitar aquela linha interoceânica traçada pelos Yncas e depois “guardada” pelos Guaranys diante da queda do império andino.

DIÁRIO: O Peabiru teria ligado o litoral brasileiro à região dos Andes, atravessando milhares de quilômetros. Quanto desse percurso original ainda pode ser identificado ou percorrido atualmente?

JOÃO BARCELLOS: Essa rota piabiyuana deveria ligar o Império Ynca ao sul e ao norte da Pindorama, pois encontramos, em nossas pesquisas, as ligações tribais desde o Eixo 1 (Yguassú) ao Eixo 5 (Caucaia, no Ryo Siará), tendo pelo meio o Eixo 2 (as Yby Sorocs / Cerro de Ybyraçoiaba + Araratiguaba), o Eixo 3 (Butantan / entre os certões y mattos e o litoral) e o Eixo 4 (as Caucaia dos Guarus, em São Paulo, e a Caucaia dos Guaranys, em Cotia, respectivamente). Incluo, como ilustração paralela, a linha que une as Biturunas (Santa Catarina, São Paulo e Minas Gerais). Percebe-se, portanto, que existia na rota uma linha direta a ligar ramificações logísticas de sul a norte, dos certõens às linhas d’água atlânticas da Pindorama.

Nesse quadro, que comecei a elaborar quando estudei a Guanabara, em 1988, e no qual fiz depois a ligação tribal piabiyuana, tendo o Butantan (Campos de Piratininga) como eixo maior de ligação, conversei algumas vezes com o mestre Aziz Ab’Sáber, o jornalista W. Paioli e outro mestre, Astolfo Araújo, que nos acompanhou em uma entrada no Cerro Ybyraçoiaba.

Foi nesse ambiente de pesquisas libertas de amarras acadêmicas, mas sem esquecer ótimos estudos que encontrei em outros diálogos, que percorri a linha principal da rota que originou e facilitou o assentamento da colonização ibero-católica na Pindorama e na Cordilheira dos Andes.

Sem entender a Rota Piabiyu, não se entende, por exemplo, o empreendedorismo de Affonso Sardinha (o Velho), que adquiriu outorga na Capitania vicentina para explorar ferro nas Yby Sorocs e dar início, em pleno século XVI, à indústria metalúrgica. Ou seja, o Cerro Ybyraçoiaba (ou Araçoiaba) tornou-se, entre os Andes e a Pindorama, o marco zero do que é hoje a sociedade industrial brasileira, via Real Fábrica de Ferro de São João do (rio) Ypanema…

Espiritualidade e respeito às tradições indígenas

DIÁRIO: Para quem gosta de caminhadas, trilhas e peregrinações, o que diferencia o Caminho do Peabiru de rotas famosas como o Caminho de Santiago de Compostela? Ele também pode ser entendido como um caminho espiritual?

JOÃO BARCELLOS: Sim, pode. Mas, entenda-se, nada tem a ver com a usurpação identitária feita pelos jesuítas, que quiseram transformar a divindade tribal andina “Zumé” no “santo Tomé” católico… Eles tentaram e conseguiram minar a identidade social e mística guarany, tupy, ynca etc., mas isso é outra história.

A propósito, leia-se o livreto “Sumé”, do historiador F. A. Varnhagen, editado em Madrid no ano de 1855, com segunda edição póstuma em 2026 pelo Centro de Memória de Ipanema / Flona Ipanema. E não esqueçamos que a Rota Sant’Iago é unicamente místico-cristã, uma peregrinação!

DIÁRIO: A tradição guarani relaciona o Peabiru à busca da chamada “Terra sem Mal”. Como explicar esse significado para o viajante contemporâneo sem transformar uma tradição indígena tão importante apenas em atração turística?

JOÃO BARCELLOS: Essa questão é sociocultural, e o turismo deve seguir a história como ela é. O código da gente moranduçara, como lembra Varnhagen, é “um manifesto ancestral de oralidade de tribo para tribo acerca da divindade que do mar viria para ensinar os povos a se desenvolverem”, como me ensinou, em entrevista, o mestre Agostinho da Silva (Lisboa, 1975).

Logo, urge que turismólogos estudem essa questão e que os governos locais (autarquias) se mobilizem em favor dessa história que originou culturas e tecnologias… O que se deve fazer é dar ao turismo elementos precisos dessa história fabulosa de sociedades ancestrais das quais descendemos, direta ou indiretamente.

E ainda há um estudo, que iniciei informalmente com o mestre Ab’Sáber e o jornalista W. Paioli, acerca de um assunto delicado: subindo pelos Andes, verifica-se que os povos locais lograram uma cultura têxtil riquíssima; descendo pela Amazônia e adentrando a Pindorama, essa cultura não teve continuidade, a não ser na pintura corporal e na cerâmica. Que ruptura foi essa?

Caminho do Peabiru
Marcação do Caminho do Peabiru no Refúgio Biológico Tati Yupi, dentro do lado paraguaio da Usina de Itaipu. Foto: Roberto Dziura Jr./AEN

Por onde começar e o que conhecer no Peabiru

DIÁRIO: Se um turista lhe dissesse hoje: “Quero conhecer o Caminho do Peabiru”, por onde o senhor recomendaria começar? Já existem trechos estruturados, sinalizados ou acompanhados por guias que proporcionem uma experiência próxima do que teria sido essa antiga rota?

JOÃO BARCELLOS: Gente, a Rota Piabiyu e suas ramificações são hoje o leito do Rodoanel Metropolitano, em São Paulo. Entre o Sudeste e o Sul, foi o Caminho dos Paulistas e o leito das odisseias na Serra das Pitangas, na ligação ao Yguassú, durante a travessia dos ibéricos pelos certõens y mattos…

Eu indico uma visita à casa de Affonso Sardinha (o Velho), no Butantan, que foi o “portal do interior”, com continuidade no Cerro Ybyraçoiaba (Flona ICMBio, Iperó) e passagem por Araratiguama (Porto Feliz), pois grande parte da Rota Piabiyu é fluvial.

E não esqueçamos: o Piabiyu também foi leito para as linhas ferroviárias no Sudeste do Brasil. Ou seja, existe uma história piabiyuana em cada sítio desenvolvido na ação colonial.

DIÁRIO: Uma caminhada pelo Peabiru pode reunir natureza, arqueologia, cultura indígena, gastronomia e comunidades locais. Quais experiências o senhor considera mais interessantes para transformar o caminho em um verdadeiro roteiro de turismo cultural e de natureza?

JOÃO BARCELLOS: Apreciar o ambiente ecossocial e a natureza envolvente com “molho” de verdadeira história é oferecer à alma de cada pessoa, trilheira ou apenas curiosa, uma experiência única, seja nos Andes ou na Pindorama. Mas deve-se observar a história como base do “passeio”.

Preservação e perspectivas para o turismo na América do Sul

DIÁRIO: O Caminho de Santiago movimenta cidades, pousadas, restaurantes, guias e pequenos negócios ao longo de sua rota. O Peabiru poderia alcançar algo semelhante na América do Sul? O que falta para que isso aconteça de maneira organizada e sustentável?

JOÃO BARCELLOS: Já existem estruturas além e aquém do Yguassú bem idealizadas, e o Brasil deu recentemente bons passos de gestão governamental nesse sentido. Eu acredito que a Rota Piabiyu/Peabiru vai ganhar amplitude com mais estudos.

No meu caso, por meio do Instituto Prylom de Pesquisas Histórico-Científicas, do qual sou membro e ao qual doei parte das minhas pesquisas piabiyuanas em andamento, já preparo a quinta edição do livro “Piabiyu”.

DIÁRIO: Estamos falando de um caminho que, em diferentes ramificações, atravessaria territórios hoje pertencentes a vários países sul-americanos. O senhor acredita que o Peabiru poderia se tornar, no futuro, uma grande rota turística e de peregrinação internacional da América do Sul? E qual deveria ser o papel do Brasil nesse projeto?

JOÃO BARCELLOS: Veja, já é uma grande rota turística na parte de língua espanhola, mas a parte brasileira ainda não se entendeu como parte piabiyuana. Eis a questão.

Por exemplo: é necessário um grande esforço governamental em torno do Cerro Ybyraçoiaba/Araçoiaba, do Butantan, das casas rurais da Velha Acutia — Casa Grande e Senzala do sargento-mor Medella, no Morro Grande, e a Casa do Caiapiã —, de São Roque, Embu, Carapicuíba, Araçariguama etc., porque até os mandatários políticos desconhecem a história dos seus sítios históricos…!

E temos, a ser seguido, um bom exemplo de preservação de tesouro histórico piabiyuano em Peabiru (Paraná), em Araritaguama (Porto Feliz) e em Sant’Anna de Parnahyba (SP).

Entretanto, a Rota Piabiyu só faz sentido místico para descendentes da ancestralidade tribal. Fora desse âmbito, não é “peregrinação”, mas sim reconhecimento geossocial e histórico.

QUEM É JOÃO BARCELLOS?

Nascido em Portugal (Barcelos, 1954), é Escritor, Pesquisador de História e Conferencista, autor de “Ordem & Sociedade”, “Brasil 500 Anos”, “Piabiyu”, “Do Fabuloso Araçoiaba Ao Brasil Industrial”, “Fortaleza, 1342”, “Poesia Historiográfica”, “Sarau – coletânea de poesias ditas e a dizer” e “Cadernos d´Escritor” (oficina literária p/ jovens de todas as idades), entre outros livros. Cofundador do Instituto Prylom de Pesquisas Histórico-Científicas (Brasil), do Grupo de Debates Noética (Brasil) e do Centro de Estudos do Humanismo Crítico (Portugal).
Publicou o primeiro livro de poesias aos 14 anos (1968) e dedica-se ao jornalismo cultural e científico. No âmbito tecnológico publicou “Estamparia”, “Indústria Digital”, entre outros livros, e edita a revista de circulação latino-americana “Impressão & Cores” (desde 2007) e a nacional “jCorpus” (desde 1989), além de coordenar as coletâneas “Palavras Essenciais” e “Debates Paralelos” (ambas c/ 17 volumes), ”Pessoas & Humanidade” (3 volumes).

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