Abrir a gaveta da mesa de cabeceira e encontrar uma Bíblia é uma experiência conhecida por gerações de viajantes nos Estados Unidos. Presente em hotéis e motéis há mais de 100 anos, o exemplar distribuído pela Gideons International tornou-se um símbolo da hotelaria e da cultura das estradas americanas.
REDAÇÃO DO DIÁRIO – com informações da AP News
A tradição ganhou tanta força que ultrapassou as portas das hospedagens. A chamada Bíblia dos Gideões passou a ser mencionada em músicas, filmes e espetáculos da Broadway. Um dos exemplos mais famosos aparece em “Rocky Raccoon”, canção dos Beatles lançada em 1968.
Paul McCartney explicou que a referência surgiu porque essas Bíblias podiam ser encontradas em hotéis de diferentes partes dos Estados Unidos, algo que ele não estava acostumado a ver na Inglaterra.
Para Lori Anne Ferrell, autora do livro “The Bible and the People”, o exemplar tornou-se um objeto singular da cultura dos Estados Unidos. “A Bíblia dos Gideões é um objeto peculiar e surpreendentemente americano”, afirmou à Associated Press.
Uma ideia que começou em um hotel
A história remonta à Gideons International, organização formada por homens de negócios e profissionais evangélicos e fundada em 1899.
Em 1908, um de seus integrantes trabalhava em um projeto de expansão ferroviária quando desembarcou em Superior, cidade situada no oeste do estado de Montana. Ao se hospedar em um hotel, ele perguntou à proprietária se poderia deixar uma Bíblia na recepção.
A dona do estabelecimento apresentou uma sugestão mais ousada: em vez de manter apenas um exemplar disponível na entrada, por que não colocar uma Bíblia em cada quarto do hotel?
A proposta ajudou a iniciar uma tradição que atravessaria gerações. Segundo a Gideons International, mais de 2,5 bilhões de exemplares foram distribuídos em diferentes países desde então.
Bíblia acompanhou expansão das viagens rodoviárias
O início da distribuição ocorreu em um momento de transformação dos transportes. Também em 1908, a Ford começou a fabricar o Modelo T, veículo de menor custo que contribuiu para popularizar o automóvel entre os americanos.
Nas décadas seguintes, a ampliação das estradas e das viagens de carro favoreceu o crescimento dos motéis, estabelecimentos criados especialmente para receber motoristas durante os deslocamentos pelo país.
A Bíblia encontrada nos quartos passou, assim, a acompanhar a expansão do turismo rodoviário. Para Ferrell, o objeto ajuda a contar uma história sobre a mobilidade nos Estados Unidos, pois se espalhou justamente quando mais pessoas começaram a sair de casa e atravessar diferentes regiões.
“A Bíblia é distribuída em todos os lugares e representa o movimento de pessoas pelo país”, explicou a pesquisadora.
Dos quartos de hotel à Casa Branca
A distribuição não ficou limitada aos meios de hospedagem. Exemplares também foram entregues em hospitais, prisões, bases militares e até mesmo na Casa Branca.
Em 1971, durante uma cerimônia, a Gideons International apresentou sua Bíblia de número 100 milhões ao então presidente Richard Nixon.
De acordo com Timothy K. Beal, autor de “Roadside Religion: In Search of the Sacred, the Strange, and the Substance of Faith”, a presença desses livros reflete a importância histórica do biblicismo na sociedade americana, ou seja, a ideia de que a Bíblia estabelece uma ligação direta entre Deus e o leitor.
Tradição perdeu espaço, mas continua nos hotéis
A presença das Bíblias nos quartos diminuiu ao longo dos anos. Parte dessa mudança está relacionada à redução do número de hotéis que disponibilizam materiais religiosos aos hóspedes. A distribuição de exemplares em escolas públicas também enfrentou contestações.
Ainda assim, a tradição permanece em diferentes hotéis e motéis dos Estados Unidos. Mesmo diante de televisores, acesso à internet e outras comodidades incorporadas pela hotelaria moderna, a Bíblia dos Gideões continua ocupando silenciosamente as gavetas das mesas de cabeceira.
Mais do que um livro oferecido ao hóspede, o exemplar tornou-se um vestígio de uma época em que o automóvel começava a mudar a maneira como os americanos viajavam e os motéis surgiam como pontos de descanso ao longo das estradas.




