Líder mundial, com reconhecimento recente da norma ISO 20400, que avalia corporações quanto à política, estratégia, governança e organização no abastecimento sustentável, a Accor mantém a dianteira como case de sucesso e modelo também na hotelaria nacional. A classificação consolida o pioneirismo da rede no setor.
por Cecília Fazzini, especial para o DIÁRIO
Em entrevista ao DIÁRIO DO TURISMO, Pedro Cardoso, Vice-Presidente da Astore, plataforma global de gestão de compras e cadeia de suprimentos do Grupo Accor na América Latina, revela como boas práticas, seleção criteriosa de fornecedores, estratégia, relacionamento mais próximo com toda a cadeia, cultura interna alinhada e tecnologia embarcada elevam o padrão do grupo na aquisição de itens diversos.
O conceito do setor de compras se edifica na política de ESG do grupo, com ganho de eficiência em processos, governança, redução de custos, transparência e operação cadenciada com o universo de cerca 1.000 fornecedores (metade deles só no Brasil), que atendem os 443 hotéis Accor em território latino-americano, dos quais 327 em solo nacional.
Pedro Cardoso, Vice-Presidente da Astore, plataforma global de gestão de compras e cadeia de suprimentos da Accor Américas, assinala que a busca por melhorias é uma constante, formando uma base com credibilidade, solidez e resultados. Nos últimos anos, a operação, de acordo com ele, gerou no País R$ 29 milhões em redução de custos (saving) e a previsão é de que estes valores alcancem, num período próximo, cifras ainda mais robustas.
O trabalho cuidadoso no setor de suprimentos se formata tanto na seleção criteriosa de fornecedores, quanto na cultura disseminada junto ao time interno. “Por conta do compromisso de aperfeiçoar as etapas, sondamos também o que o mercado está fazendo de melhor, mas logo nos deparamos com o fato de que o conjunto de procedimentos adotados internamente se encontra no topo. Ou seja, trata-se de referência em grau elevado, uma vez que supera práticas da concorrência”, constata o executivo, ao mesmo tempo em que salienta que contar com parâmetros favoráveis não gera acomodação e sim, requer mudança da mentalidade e não uma ação específica. Ele, que chegou à Accor há cinco anos, destaca que ter o trabalho referendado pela ISO 20400 em âmbito mundial é fruto da alta performance na tomada de decisões de compra, com base nos tradicionais critérios de sustentabilidade, contemplados na genética do grupo.

Cenário favorável
Ainda no exercício de 2026, o executivo confirma que o amplo programa de descarbonização seguirá como pauta presente e forte na ordem do dia da Accor, seguido pela proposta de plástico de uso único, implantada há 2 anos, mas que é monitorada e aprimorada continuamente, redução no consumo de água, programa para o qual foram desenvolvidos fornecedores de torneiras de baixa vazão, sem comprometer o conforto do hóspede, mas que sintetiza o conceito ecológico e consumo responsável e controle de desperdício de alimentos, no café da manhã, por exemplo.
E a entrada em vigor de novas tarifas impostas pelos Estados Unidos a fabricantes nacionais, que também exportam, não gera preocupação para o VP da Accor. Ele sentencia que os mercados interno e de algumas economias da região da AL são mais fechados e operam com reserva destinada ao abastecimento local, em condições diferenciadas e favoráveis de preço.
Pilares na seleção do fornecedor
Cardoso define que há o desafio incansável de compor a carteira de fornecedores Accor. Dela constam, observa, empresas com nível elevado de maturidade e boas práticas de sustentabilidade, mas também há um caminho a percorrer com parceiros menos evoluídos no conceito. “Aquele que a gente tem que pegar pela mão, ensinar, quase um letramento, dar consultoria seja de descarbonização, plástico de uso único, nortear a questão de conter a crueldade animal e temas que permeiam a agenda de abastecimento”, explica.
Do ponto de vista estratégico, as compras globais e local da Accor são embasadas em três pilares. O primeiro prevê o princípio ‘Contribuir’, que significa qualificar o fornecedor sob o critério da sustentabilidade, um primeiro filtro que não considera sequer o fator melhor preço, porque mensura principalmente o quanto a empresa é capaz de suprir as demandas dentro do que se encontra pré-estabelecido, um passo a passo para a seleção. O segundo pilar é o de ‘Assegurar’, que é o mesmo que manter o portfólio de fornecimento, que é numeroso, sob uma espécie de vigilância, já que o processo de concorrência não ocorre a todo o momento. “Na prática, a garantia se dá por meio de análises regulares, questionários, KPI (Key Performance Indicator) para balizar descarbonização, redução de consumo de água, uso de plástico – incluindo este viés no processo produtivo do próprio fornecedor, além relatórios de visitas, entre outras atividades rotineiras”, complementa o executivo. E para fechar o tripé, o pilar da ‘Liderança’, que exprime o pioneirismo da rede, acionado com treinamentos regulares do time, para difundir o que há por trás da aquisição de itens sustentáveis, entendimento do valor que esse aspecto tem, por não ser tão tangível. Ele cita nesse quesito a eliminação da garrafinha plástica de água mineral, realidade há 3 anos nos hotéis Accor, produto que apesar do preço muito baixo, o que fazia da substituição algo indefensável, migrou para a embalagem longa vida, cartonada de papel, com revestimento interno em alumínio, num extenso trabalho de provar a viabilidade da matéria-prima em solo brasileiro.
Desafios no front
No ajuste da extensa cadeia de suprimentos, o gargalo não se restringe apenas à uma espécie de liturgia a ser seguida pelos parceiros da Accor, porque envolve volume grande de trabalho e uma série de protocolos a serem cumpridos para se qualificar. Cardoso considera, ainda, que um fornecedor que atua num mercado emergente, mesmo desalinhado com os players que abastecem economias mais desenvolvidas, pode evoluir. Daí a necessidade de planos de ação e credenciais para se aproximar do patamar internacional Accor. “Mas é na rotina e no acompanhamento do processo do abastecimento que ocorre esse crivo e a avaliação mais cuidadosa”, acrescenta.
A norma ISO 20400, que distingui a Accor, leva em conta exatamente a capacidade da rede em estabelecer mecanismos de proteção, na tentativa de se resguardar de futuros contratempos na gestão de suprimento. No âmbito do grupo, esta espécie de blindagem ganha corpo com as Carta de Compras Responsáveis, Carta de Responsabilidade Social Corporativa e Ética da Accor

Sensibilizar o time
Quando o assunto é disseminar cultura e em especial para o tema sensível da sustentabilidade numa corporação, gente se torna o protagonista. A equipe interna de compras, de acordo com o executivo, é motivada com ações simultâneas, recebe treinamentos regulares e toma conhecimento de metas novas acerca da sustentabilidade que surgem com frequência. O time ainda conta com pessoas-chave que passam por reciclagem e se tornam especialistas em determinados assuntos, como em energia limpa, especialmente no Brasil. Nos mercados hispânicos, Chile, Peru e Colômbia, de acordo com Cardoso, que não possuem o mesmo conhecimento de energia de fonte renovável, então é preciso compartilhar a expertise. Para assegurar a governança completa e recorrente sobre o tema, cada região em que a Accor está presente, existe uma pessoa de contato de ESG, que cuida apenas do tema e multiplica o conceito a compradores, vendedores, colaboradores da área financeira e de outras funções dentro do grupo, que assumem com alguma autonomia pequenas auditorias e aferição de processos junto ao fornecedor.
Tecnologia une agilidade e transparência
Enquanto expertise e tradição cumprem o papel de manter o padrão de compras sustentáveis, o complemento da tecnologia impulsiona processos, a cargo da ferramenta de gestão de compras própria da Astore, que já completou uma década. O recurso soma em agilidade, transparência, controle de desperdício e administra custos, de forma fiel aos princípios de crescimento sustentável preconizados pela Accor. A diversidade de itens – que vai da fruta do café da manhã ao painel que captura e converte energia solar para o hotel – igualmente justifica o reforço oferecido pela plataforma, que ainda abriga informações de todos os serviços de hospitalidade, manutenção, a ampla gama do segmento de alimentos e bebidas, entre outros.
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