Segurança foi Quesito Negligenciado no Carnaval 2017

Já está mais que na hora de que a segurança em eventos seja a protagonista e não algo renegado, que fique em segundo plano ou sequer apareça

por Andrea Nakane*

Uma das maiores festas populares do mundo, o Carnaval brasileiro, em 2017, foi marcado por incidentes e acidentes que comprometeram toda a imagem nacional e internacional de fantasia e alegria típicas dessa celebração.

A maior vitrine do espetáculo carnavalesco centrada no Sambódromo do Rio de Janeiro vivenciou, nas duas noites dos desfiles das escolas de samba do grupo de elite, situações gravíssimas que culminaram em dezenas de feridos, alguns em estado grave, decorrentes de alegorias descontroladas, motorista sem a menor experiência na condução dos mesmos e estruturas mau projetadas, que despencaram, além de uma liderança insensível pós-fatalidades.

A grandeza do evento traz inúmeras variáveis de segurança que precisam ser controladas para não abalar todo o planejamento realizado de forma profissional.

Porém há alguns quesitos que clamam por providências: a crise econômica – sem dúvida alguma – atingiu a gestão das escolas de samba, que já há algum tempo estão tendo que otimizar escassos recursos, o que as orientou de forma muito mais intensa reutilizar materiais e estruturas, que não são eternos, diga-se de passagem. O ego exacerbado dos gestores da criatividade em impactar suas apresentações com carros cada vez maiores, repletos de efeitos especiais e com muitos componentes em exibição neles, estão seguindo determinações de cálculos de capacidade de carga, ou na base da gambiarra ou jeitinho brasileiro estão burlando tudo e todos?

Outra questão que precisa de uma reflexão atenciosa: Será mesmo que nessas circunstâncias trágicas, o show tem que continuar?

Um dos mais nobres sentimentos humanos, considerados para muitos como a palavra da década, é a empatia.

Será que é possível continuar pulando, dançando, cantando e extravasando a alegria de Momo tendo ao seu lado vítimas sendo socorridas?

Será que é possível continuar pulando, dançando, cantando e extravasando a alegria de Momo tendo ao seu lado vítimas sendo socorridas?

O regulamento da Liga Independente das Escolas de Samba do RJ (LIESA-RJ) não permite a interrupção do desfile nessas situações. O que vimos então foram socorristas com severas dificuldades no atendimento aos feridos e até mesmo as ambulâncias tendo barreiras humanas para acessar os locais do acidente.

Isso é Surreal!  É uma prova da banalização do valor da vida humana. A solidariedade cedeu lugar a insensatez da luxúria.

Em época de relações líquidas, como diria Bauman, temos também a Compaixão Líquida, que se esvai priorizando o consumo e sua teia, típico da Sociedade do Espetáculo, segundo Debourd.

Sem dúvida alguma a precariedade, o amadorismo e a insensibilidade dos gestores não podem tornar-se os destaques da festa.

Já está mais que na hora de que a segurança em eventos seja a protagonista e não algo renegado, que fique em segundo plano ou sequer apareça.

O momento é de oferecer toda solidariedade as vítimas e apurar com rigor os acontecimentos dramáticos, mapear as vulnerabilidades, fomentar novas atitudes e implantar realmente uma nova cultura preventiva, e não reativa, na qual a Segurança realmente seja hour-concours e integrante insubstituível do Carnaval nos quatro cantos do país, já que vimos ocorrências diversas do Oiapoque ao Chuí, como multidões desamparadas com ausência de disciplina, comércio ilegal de alimentos e bebidas, trios impactados pelo choque com as redes elétricas, depredações de patrimônios públicos e privados… isso sem falar na ausência de educação, mas isso é para outro post…

Segurança em Eventos. Não dá para Ficar Sem!

Isso não é uma pergunta é uma afirmação de quem labuta na área há mais de 25 anos e que já presenciou e coordenou inúmeros projetos, demonstrando que é possível sim, basta ser responsável e querer! Não há enredo e nem quesito mais importante que a vida das pessoas… e isso não deveria ser uma fantasia!

 

Andréa Nakane é  professora da UMESP, Relações Públicas e autora do livro Segurança em Eventos. Não dá para Ficar Sem!

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