Lançado neste domingo (26), na Casa de Macau, em São Paulo, o livro “Memórias de um Emigrante Lisboeta-Macaense” reúne lembranças pessoais de Carlos A. Santos, conhecido entre os amigos como Canicha, e diretor da RXT Travel. A obra vai além da autobiografia e procura preservar a memória da Macau portuguesa, retratando costumes, personagens e acontecimentos de uma comunidade que praticamente desapareceu com o passar das gerações.
REDAÇÃO DO DIÁRIO – Com entrevista concedida a Paulo Atzingen, editor do DT
Em entrevista ao DIÁRIO, durante o lançamento, Carlos contou que a vontade de escrever o livro nasceu de um sonho antigo. Desde criança, disse que tinha mais interesse em criar histórias do que propriamente aparecer como protagonista. “Sempre tive vontade de escrever. Quando surgiu a oportunidade, já com mais de 70 anos, achei que era a hora de realizar essa vontade”, afirmou.
O autor explica que o objetivo nunca foi produzir uma obra sobre a Macau contemporânea, hoje conhecida mundialmente pelos cassinos e pelo turismo, mas registrar a cidade onde viveu antes da transferência da administração portuguesa para a China.
“Eu quis escrever sobre a Macau do meu tempo, a Macau como colônia portuguesa, dos meus amigos e dos meus familiares. A intenção foi essa.”
Sem aspirações literárias ou históricas, mas de forma criativa, Carlos inicia a obra contextualizando a história de Macau, sua condição de colônia portuguesa, sua relação com a China, com a Inglaterra e o cenário político da época. Segundo ele, esse abordagem era necessária para que o público entendesse a realidade vivida pelos macaenses antes das transformações ocorridas no fim do século XX.
Questionado sobre essa escolha, Carlos destacou que a maior parte das pessoas conhece apenas a imagem atual da cidade.
“Hoje, quando se fala em Macau, as pessoas lembram da capital dos cassinos. Mas o livro fala da Macau portuguesa, daquela que existiu até a virada do século, bucólica, romântica, e até nostálgica,” conta à reportagem.

Identidade macaense
Outro aspecto valorizado na publicação é o resgate da identidade macaense. Ao longo das páginas, o autor apresenta familiares, amigos e personagens que fizeram parte da comunidade, registrando um universo que, segundo ele, corre o risco de desaparecer com o envelhecimento da geração que imigrou para o Brasil.
Carlos observa que os filhos dos macaenses já cresceram integrados à sociedade brasileira e que os netos, em muitos casos, praticamente não mantêm vínculos com a cultura de origem. O livro, portanto, surge também como um documento de preservação dessa memória coletiva.
A ideia da obra, revela o autor, começou a amadurecer há cerca de dois anos. Inicialmente, pensou em escrever um livro crítico sobre a administração da Casa de Macau, mas mudou completamente o projeto.

“Percebi que isso não levaria a nada. Resolvi falar da nossa história. Depois pensei que o leitor precisava entender primeiro o que era Macau. Acho que consigo explicar bem o que é Macau para quem nunca ouviu falar da cidade.”
O resultado é um livro que combina memórias pessoais, fatos históricos e relatos sobre a comunidade macaense, oferecendo ao leitor um retrato afetivo de uma época que dificilmente voltará a existir. Mais do que recordar a trajetória de seu autor, “Memórias de um Emigrante Lisboeta-Macaense” transforma experiências individuais em um registro histórico sobre a antiga Macau portuguesa e sua diáspora.



A diáspora macaense, na escrita de Carlos A. Santos:
“Um número considerável de conterrâneos preocupados com a futura transferência da soberania para China começou a emigrar para os quatro cantos do mundo. O grande movimento ocorreu entre 1967 a 1974. Há registros de que mais de 12 mil macaenses, residentes em Macau e Hong Kong, emigraram nesse período. Incluo aí o grupo expressivo de macaenses por convicção, descendentes de naturais de Xangai e residentes em Hong Kong. A grande maioria foi para os Estados Unidos, Canadá, Portugal e Austrália. No Brasil, creio, terem desembarcado menos de mil. Era a diáspora macaense cultivando a sua cultura mundo afora”.
O livro de Carlos A. Santos é dedicado aos migrantes ao redor do mundo que deixaram sua pátria original e buscaram e ainda buscam melhores dias em solo estrangeiro.
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