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Turismo e crise migratória se cruzam em Ceuta durante o verão europeu

Enquanto turistas atravessam diariamente o Estreito de Gibraltar para conhecer uma das cidades mais singulares da Espanha, Ceuta voltou aos holofotes internacionais por um motivo bem diferente.

REDAÇÃO DO DIÁRIO 

O território espanhol localizado no norte da África enfrenta uma das maiores crises migratórias de sua história, após mais de 50 mil pessoas entrarem na cidade em apenas 24 horas, levando ao reforço das forças militares e policiais e transformando a fronteira com Marrocos em um dos pontos mais sensíveis da Europa.

A crise ocorre justamente durante a alta temporada do verão europeu, período em que Ceuta costuma receber visitantes interessados em sua localização única, entre a Europa e a África, além de atrações históricas, praias e da convivência entre diferentes culturas e religiões.

Destino turístico convive com cenário de tensão

Nos últimos anos, Ceuta passou a investir na promoção do turismo como forma de diversificar sua economia. A cidade destaca atrações como as Muralhas Reais, as praias banhadas pelo Mediterrâneo, áreas para mergulho, gastronomia multicultural e a convivência entre comunidades cristã, muçulmana, judaica e hindu.

Outro atrativo que desperta curiosidade é a possibilidade de chegar da Europa ao continente africano em poucos minutos. O trajeto de helicóptero entre Algeciras e Ceuta leva cerca de sete minutos, enquanto balsas realizam diariamente a travessia pelo Estreito de Gibraltar.

Essa imagem de destino multicultural contrasta com a realidade da fronteira terrestre com Marrocos, considerada uma das mais estratégicas do continente por representar, ao lado de Melilla, a única fronteira terrestre entre a União Europeia e a África.

Ceuta registra entrada de quase 40 mil imigrantes e mobiliza Exército espanhol - Crédito: ABDEL MAJID BZIOUAT / AFP
Ceuta registra entrada de quase 40 mil imigrantes e mobiliza Exército espanhol – Crédito: ABDEL MAJID BZIOUAT / AFP

Mais de 50 mil pessoas cruzaram a fronteira

A dimensão da crise aumentou rapidamente ao longo desta sexta-feira (31). Segundo o Ministério do Interior da Espanha, mais de 50 mil migrantes entraram em Ceuta entre quinta (30) e sexta-feira (31).

O Departamento de Segurança Nacional chegou a divulgar um balanço de 49 mil travessias, informação posteriormente retirada do ar sem explicação. Já o presidente de Ceuta, Juan Jesús Vivas, afirmou que o número pode ter chegado a 60 mil pessoas. Até o momento, 34 mortes foram registradas durante as tentativas de travessia.

Ainda de acordo com a agência Reuters, milhares de pessoas continuaram chegando à cidade marroquina de Fnideq durante a madrugada. Mesmo com o reforço da segurança, grupos seguiram tentando contornar a cerca fronteiriça ou alcançar Ceuta pelo mar. Caminhões equipados com canhões de água foram utilizados pelas autoridades marroquinas para tentar impedir novas travessias.

Imagens registradas durante a crise mostraram centenas de migrantes entrando pelo quebra-mar de Tarajal, muitos utilizando boias infláveis e outros dispositivos de flutuação. Outros passaram a noite em praças e espaços públicos de Ceuta enquanto aguardavam uma definição sobre sua situação.

Governo reforça segurança e acelera retorno ao Marrocos

Diante da chegada em massa de migrantes, o governo espanhol enviou reforços da Polícia Nacional, da Guarda Civil e das Forças Armadas para controlar a situação na fronteira.

Segundo o Ministério do Interior, mais de 25 mil pessoas já haviam retornado ao Marrocos até esta sexta-feira. As autoridades espanholas afirmaram que o ritmo de retorno era de aproximadamente 150 pessoas por minuto, em uma operação coordenada entre os dois países.

O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, visitou Ceuta nesta sexta-feira para acompanhar a resposta das autoridades à crise.

Turismo e geopolítica dividem o mesmo espaço

Com cerca de 83,6 mil habitantes, Ceuta recebe anualmente milhares de visitantes espanhóis e estrangeiros interessados em conhecer um dos territórios mais peculiares da Espanha. Apesar de estar localizada no continente africano, a cidade integra o território espanhol e reúne influências europeias e africanas em sua arquitetura, gastronomia e tradições.

Ao mesmo tempo, sua posição geográfica faz do enclave um dos principais pontos de pressão migratória da Europa. A fronteira entre Ceuta e Marrocos é frequentemente utilizada por pessoas que tentam entrar na União Europeia por terra ou pelo mar.

Os números divulgados nesta sexta-feira colocam a atual crise entre as maiores já registradas na cidade. Para efeito de comparação, em maio de 2021 cerca de 10 mil pessoas conseguiram entrar em Ceuta durante um episódio semelhante. Entre janeiro e julho de 2025, haviam sido registradas 2.826 entradas irregulares por mar ou pela fronteira terrestre.

O contraste evidencia um dos maiores paradoxos de Ceuta. Enquanto promove sua diversidade cultural, seus atrativos históricos e a proximidade entre Europa e África para atrair turistas, a cidade permanece no centro de uma das mais complexas questões migratórias do continente europeu.

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