A acadêmica do Curso de Arquitetura e Urbanismo da UFRR, Giovanna Leal, produziu seu Trabalho de Conclusão de Curso voltado à elaboração de um projeto arquitetônico de uma Etnopousada para a Comunidade Indígena Raposa I, localizada no município de Normandia, na região da Raposa Serra do Sol, em Roraima.
A comunidade foi a primeira de Roraima a operar com o Etnoturismo em Terras Indígenas e agora vai receber um projeto arquitetônico completo para implementação. Em entrevista ao DIÁRIO, a acadêmica afirma que seu projeto respeitou a cosmologia, a ancestralidade e as tradições do povo Makuxi da comunidade Raposa I, que aguarda com expectativa a apresentação. Os próximos passos, segundo ela após a apresentação do trabalho serão voltados à busca de recursos para financiar o empreendimento e fortalecer a atividade turística na região. Confira a entrevista concedida ao jornalista Paulo Atzingen, editor do DIÁRIO DO TURISMO.
DIARIO – Seu projeto une arquitetura contemporânea e conhecimentos tradicionais Makuxi. Como encontrar esse equilíbrio sem comprometer a identidade cultural da comunidade?
Foram necessários alguns meses de pesquisa em material bibliográfico que apresentasse as características mais fortes dessa arquitetura popular makuxi. Num primeiro momento, a gente que é de fora sempre costuma idealizar as comunidades como sendo ambientes esteriotipados, e embora existam sim comunidades que preservem integralmente esses saberes arquitetônicos, a comunidade da Raposa I já possui diversos elementos da contemporaneidade incorporados nas habitações, e isso eu notei tanto na visita quanto em materiais científicos mais recentes produzidos pelos pesquisadores da universidade. Partindo disso, eu optei pela aproximação maior com a materialidade local e o significado atribuído aos espaços, priorizando a construção de ambientes em que podem ser perpetuadas as práticas tradicionais da comunidade, como a dança parixara e as oficinas de trançados/artesanato em barro, dessa forma, trazendo a cultura pro _habitar.

DIÁRIO – O que a pesquisa de campo na Comunidade Raposa I revelou que nenhum livro ou documento poderia mostrar?
A vivência na comunidade foi extremamente importante para a minha pesquisa, tanto pela aproximação com a cultura (que é linda e carregada de significados) quanto pela observação dos partidos arquitetônicos de lá. A verdade é que, por mais que seja escrito, muito das culturas tradicionais precisa ser vivido e sentido, é uma sensação tão maravilhosa que traz o pensamento de “caramba isso aqui é uma experiência única, ela merece ser valorizada”.
DIÁRIO -. Seu trabalho associa arquitetura, natureza e ancestralidade. O que a arquitetura brasileira pode aprender com a forma de construir do povo Makuxi?
Grande parte dos saberes indígenas é indiretamente inserido no nosso jeito de construir arquitetura, e essa característica é não só dos povos indígenas, mas derivada também de outros povos tradicionais, como os caiçara e os quilombolas. Pra mim, a principal riqueza dessas produções arquitetônicas é saber construir no contexto em que (a comunidade) está inserida, as casas e os espaços são pensados de forma a responder diretamente as condicionantes climáticas, então por exemplo, como as chuvas são muito fortes e duram por vários meses, os telhados de palha são construídos com maiores inclinações pra que a água não se acumule e consequentemente evita infiltrações na maloca.

DIÁRIO -. Como uma etnopousada pode fortalecer o turismo de base comunitária e gerar desenvolvimento econômico sem descaracterizar a cultura indígena?
A principal proposta é inserir esse empreendimento de forma respeitosa com o povo makuxi, deixando-os encarregados da administração sem interferência externa de grandes redes de hotelaria, e por isso o nome “etnopousada”. A proposta é que todo o complexo seja extremamente acolhedor, como uma grande maloca, e que o hóspede seja abraçado por essas tradições e saberes. Além da geração de renda proporcionada pelo próprio empreendimento, a implementação do complexo é uma maneira de tornar acessível à todos uma riqueza cultural que foi, por muito tempo, marginalizada e subestimada.


DIÁRIO – Você acredita que seu projeto pode servir de modelo para outras comunidades indígenas que desejam investir no turismo de forma sustentável?
Claro! Eu não acredito em uma arquitetura única modular que possa ser replicada irresponsavelmente em todas as comunidades. Cada um dos povos possui diferentes jeitos de construir e de enxergar o propósito dos espaços, por isso é importante analisar todos esses fatores ao construir em territórios carregados de significados ancestrais.
DIÁRIO -. Depois desta pesquisa, qual foi o maior ensinamento que o povo Makuxi deixou para você como futura arquiteta e urbanista?
Essa aproximação entre Arquitetos X Saberes Tradicionais também enriquece muito o jeito como passamos a projetar. Desde a valorização dos materiais naturais até a definição de espaços para modos de vida específicos, o conhecimento que mais me fez refletir foi que tudo é efêmero. As vezes na graduação a gente se encanta por grandes e majestosos edifícios (milenares, às vezes) e renega a beleza da arquitetura indigena por ser “simples” e transitória, quando na realidade a produção indígena é tão cheia de significados e tentativas-acertos baseadas nas suas múltiplas reproduções, que é impossível não passar a valorizar a preservação dessas técnicas ancestrais e consequentemente enxergar a beleza naquilo que é temporário.
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