As catarinas

Por Osvaldo Alvarenga*
27 de julho de 2026

Observa essa foto. É do altar de uma igreja consagrada à Santa Catarina de Alexandria, no
monte Hom, na aldeia de Zasip, junto à célebre vila de Bled, na Eslovênia. A santa era uma
princesa-mártir egípcia que se negou à paixão do imperador romano em devoção a Cristo e à
própria castidade. A mando de Maximino (o imperador humilhado e rancoroso), ela foi
desafiada por filósofos pagãos e os converteu, condenada à tortura na roda dentada
(instrumento que ganhou o seu nome), escapou por milagre quando a roda partiu-se em
pedaços, foi então decapitada num só golpe de espada, e seu corpo, carregado por anjos até o
Monte Sinai, ficou sepultado onde se ergueu um mosteiro. O martírio da santa aconteceu no
início do século IV. A igreja aos pés dos Alpes eslovenos foi construída no século XV. O entalhe
em madeira com a santa, supostamente feito por algum artista anônimo da região, é do século
XVII, daí barroco. Muito antes do cristianismo chegar naquelas lonjuras, as gentes do lugar
faziam tributos às divindades da natureza no topo do Hom. Em cerimônias de agradecimento e
confraternização, buscavam proteção, saúde e amparo à lavoura e ao gado. O auge das
peregrinações acontecia no período que marcava o fim das colheitas e a recolha dos animais,
na viragem do outono para os dias mais frios e curtos do inverno; dias de sacrifícios,
recolhimento em casa e também de intimidade e prerrogativa feminina. A biografia que a santa
ganhou na igreja tornou possível a sincretização com a integração da fé cristã aos ritos pagãos
daqueles camponeses. Seu dia litúrgico, 25 de novembro, coincidia com o fim do ciclo agrícola
e sua mítica de erudição filosófica, devoção e resistência, com o sacrifício do inverno, o
trabalho caseiro, a intimidade e as conversas ante as rodas de fiar no longo período de
convívio doméstico.

Quando digo que fomos à Eslovênia, primeiro, vem a confusão – não, não é a Eslováquia –,
depois, o interesse – e onde é que fica? Quase ninguém conhece. E até bem pouco tempo,
nem eu conhecia. Descobri porque alguém foi e gostou muito, daí um casal de amigos passeou
por lá e também gostou, então, meus cunhados, que visitaram Liubliana recentemente,
voltaram bem impressionados. Íamos mesmo para Veneza, ali pertinho (são menos de três
horas entre as duas cidades), e resolvemos esticar a viagem: Piran, Portoroz, Liubliana,
Postojna e Bled. Como não alugamos carro, quase todo o percurso foi feito em transporte
público, passamos por dentro de muitas vilas e aldeias. Penso que tivemos uma boa ideia do
país.

A Eslovênia é surpreendente. Entre o mar e os alpes, é cortada por vales e montanhas,
encadeada em regiões quase isoladas até há 70 ou 50 anos. Por isso, a língua eslovena é
muito antiga, com características próprias que se perderam em outras línguas eslavas. Por isso
também, em país tão pequeno – menor que o Alentejo, com pouco mais de dois milhões de
habitantes – existam dezenas de dialetos. Pelo mesmo motivo a gastronomia é diversa: na
Ístria, península no Golfo de Trieste, lá em cima no Adriático, é quase italiana e, ao norte e
oeste, muito influenciada pela culinária germânica e húngara. Há também uma forte cultura da
vinha. Tem alto IDH: elevado nível de educação formal, mais de 70% da população fala inglês
com proficiência; uma das melhores distribuições de renda da União Europeia, com imensa
classe média; boa relação entre salários e custo de vida – na comparação entre países, está à
frente da Itália, de Portugal e também dos vizinhos Sérvia e Croácia. As cidades são limpas, os
mais jovens são cordiais (mais simpáticos são os muitos imigrantes asiáticos com quem
cruzamos) e, pelo que senti de longe, são cheirosos; o que diga-se: é coisa incomum na
Europa.

Nos anos 1980-90, entre a morte do ditador marechal Tito e o desmoronamento da União
Soviética, em recidiva do nacionalismo sérvio, o estopim da Primeira Guerra Mundial (conto
essa história no meu livro Cinco anos depois), irromperam na Iugoslávia várias guerras de
independência, com episódios de chacina, genocídio e barbárie. Um sem-número de mulheres
e adolescentes foram estupradas, milhares de pessoas martirizadas e mortas, milhões
deslocadas. Gente demais que perdeu tudo: casa, ruas, bairro, mercados, trabalho, rotinas,
vizinhos, amigos, filhos, pais e pátria. Multidão que teve de recomeçar a vida noutro lugar. São
traumas que não se apagam. Quem com mais de 50 anos não se lembra de ouvir terríveis
notícias de Belgrado, Zagreb, Dubrovnik, Sarajevo, Srebrenica ou de feitos repugnantes por
monstros como Slobodan Milošević, Radovan Karadžić e Ratko Mladić? Da dissolução da
Iugoslávia, tornaram-se independentes os estados da Eslovênia, Croácia, Bósnia e
Herzegovina, Sérvia, Montenegro, Macedônia do Norte e Kosovo; este ainda sem completo
reconhecimento internacional.

Por causa dessas desgraças ainda tão frescas na memória coletiva, das feridas ainda abertas,
não convém alugar um carro, por exemplo, com matrícula sérvia e viajar entre fronteiras pela
região. Esse foi o principal motivo pelo qual, há dois anos, também esticando uma viagem à
Veneza, conhecemos várias cidades croatas. Naquela ocasião, optamos por rodar o país
usando exclusivamente transporte público (curioso, não vi por aquelas bandas a placa com a
bandeira da União Europeia a indicar as bordas dos países). A experiência correu tão bem que,
desta vez, nem consideramos outra hipótese. E fizemos muito boa escolha: primeiro porque
gostamos de passar pelas pequenas cidades e pelas estradas vicinais que os ônibus são
obrigados a ir; nas autoestradas, seja por causa da velocidade ou pelo traçado, perde-se muito
da paisagem. Depois porque os carros foram praticamente banidos do centro de Piran e de
Liubliana. Achar estacionamento para deixar o carro parado teria sido uma chatice, deixá-lo
parado por dias sem uso, um desperdício de dinheiro, e rodar por autoestradas sem maior
conexão com o país, uma futilidade empobrecedora.

Piran é uma pequena cidade no noroeste da Ístria. Fica entre a Itália (pra cima, numa pontinha)
e a Croácia (pra baixo, em quase toda a península). Naquela viagem há dois anos, a primeira
cidade que conhecemos foi Rovinj, a 80 km mais abaixo. As duas são cidades muito parecidas:
medievais, históricas, venezianas por vários séculos, depois, com o fim das Guerras
Napoleônicas, permaneceram sob o domínio dos Habsburgos até o colapso do Império
Austro-Hungaro. No final da Primeira Guerra Mundial passaram para a administração italiana,
sob Mussolini, e, após a Segunda Guerra, ambas foram incorporadas à Iugoslávia socialista,
sob Tito. Agora estão em países distintos, mas integradas à União Europeia. Têm história e
demografia em comum. Ambas foram bastiões medievais, herdaram a mesma arquitetura,
gastronomia e modo de vida litorâneo. Ambas estão bem preservadas e têm forte apelo
turístico. Sempre foram rivais, hoje competem pelo turismo: Rovinj mais sofisticada, Piran mais
autêntica.

Conhecemos Portoroz de passagem. É caminho que o ônibus faz de Piran para Liubliana, mas
também de Trieste para Rovinj. Há dois anos pensamos que estivéssemos na Croácia, mas é
parte do município de Piran, o balneário chique da cidade. Nada a ver com Piran, é outro lugar.
Fica longe do centro histórico, uma hora a pé pelo litoral, contornando a colina. De ônibus,
morro acima e abaixo, gastamos mais de meia hora. Pegar a estrada congestionada é o preço
a pagar para quem circula de carro. E tem também transporte público que liga o centro a
Portoroz, com seus hotéis imponentes, lojas, restaurantes e uma grande marina. As calçadas
muito largas, seguidas de jardins bem cuidados, separam a avenida do mar. Seja em Portoroz,
Piran ou Rovinj, não vi praias de areia. Vi de cascalho, píers e paredões bem cuidados, mais ou
menos jeitosos, para o banho de sol e o mergulho nas águas mornas e quase sempre calmas
do Adriático no verão.

Liubliana não é grande, é um brinco. Em 1895, num domingo de Páscoa, a cidade foi sacudida
por um grande terremoto. Mais de 900 edifícios desabaram ou ficaram inutilizados. Como
Lisboa, a capital da Eslovênia foi reconstruída. Nessa época florescia a Art Nouveau, e os
arquitetos pensaram numa cidade moderna. Jože Plečnik é o maior nome dessa reconstrução.
Projetou pontes, prédios, parques, praças e o cemitério. É a partir da Ponte Tripla que a cidade
se estende nas margens do rio, nas ruas bem traçadas, largas, retas, limpas e cheias de
restaurantes, com seus prédios baixos e fachadas decoradas. Ali estão o paço municipal com o
palácio do governo, a cópia da Fonte de Robba, barroca, famosa (a original está no museu de
arte da cidade), as portas de bronze da catedral e, do outro lado, a imponente Biblioteca
Universitária. Por fim, no alto, o castelo, ainda mais bonito à noite, quando iluminado. Faltam
itens à lista. Importa saber que a cidade é bela e compacta, tudo muito próximo, a distância de
uns quantos passos.

Também não fomos a Postojna propriamente. Parece que é uma cidade grande, não sei,
cruzamos de ônibus algumas ruas e fiquei com essa impressão. Passamos pela cidade a
caminho da Gruta de Postojna. Não preciso descrever a gruta. Todos os blogs de viagem à
Eslovênia falam dessa atração conjugada ao Castelo de Predjama, que remonta o século XIII.
Foi justamente o que fizemos. Gostei de ambas, sobretudo para passeio em família.
Recomendo o bate-volta a partir de Liubliana. É uma viagem de uma hora.

A mesma sugestão vale para Bled; a hora e meia de Liubliana em transporte público. São cerca
de 60 km da capital, quase todo o percurso por estradas vicinais, entrando e saindo de aldeias,
atravessando campos de girassóis, macieiras e pasto. Porém, aqui, a própria vila é atração e
destino de férias. Rodeada pelos Alpes, tem um lago bastante grande, de origem glaciar, com
ilha e igreja do século XVII ao centro, com barcos tradicionais que vão e vêm, com
infraestrutura privada para banho e uma multidão de adolescentes em clima de festa que
frequenta o lugar. Tem um castelo do século XI, no topo de um monte, a 130 metros de altura,
que se chega por acesso bem cuidado e sombreado pela mata. Tem vista para o monte Triglav,
a mais de 2800 metros de altura, símbolo nacional do país. Tem muita história e lendas. Tem
muitos hoteis e restaurantes. Tem casario tipo alpino e palacetes. Tem ruas limpas e bem
cuidadas. E, verão ou inverno, tem várias trilhas que se podem fazer a partir do centro da vila.
Uma delas, passando pela aldeia de Zasip, dobrando o monte Hom, no Parque Nacional de
Triglav, vai até a Garganta de Vintgar, um desfiladeiro com 1600 metros de passadiços sobre as
quedas do rio Radovna, junto aos paredões de pedra. Foi justamente nessa trilha que
passamos pela igrejinha consagrada à Santa Catarina.

Volte agora à imagem da santa. Parece ou não uma iabá? Pensei em Iansã, melhor, em Oxum:
beldade curvilínea de tez marrom, com coroa e manto dourados e, aos pés da santa, a peça
em tons de azul, mais o azul escuro do fundo do entalhe, pensei logo em águas calmas,
associei ao grande lago de Bled. Fiquei com isso na cabeça. Falei com a Iêda, ou ela comigo, e
ambos tivemos a mesma impressão. Fui pesquisar. No batuque, tradição gaúcha de raiz
africana, é Obá que sincretiza Santa Catarina de Alexandria (na umbanda e no candomblé é
Joana D’Arc). Ela é a orixá das águas impetuosas, do encontro de rios que se batem, das
pororocas, das quedas revoltas. Como aquelas ali ao lado, no Vintgar. Representa a resiliência
e a força feminina. Pode ser também a orixá dos estudos, da sabedoria, que oferece lucidez e
compreensão, como a santa. E por causa dela, para os batuqueiros, tem seu dia em 25 de
novembro.

Dito assim, parece que eu sei alguma coisa a respeito das antigas divindades europeias, dos
santos católicos e dos orixás. Parece que percebo algo sobre a formação desses mitos, suas
naturezas e seus destinos. Não conheço nada disso. Minha cultura é de enciclopédia. Ainda
assim, por onde ando, impressionam-me as coincidências.

***
Uma nota final: o catolicismo está em queda no Brasil. Segundo o último Censo, caiu de 65
para 57%, entre 2010 e 2022. Cresceram os sem religião, de 8 para 9%, no mesmo período.
Os evangélicos surpreenderam, cresceram menos que o esperado, de 22 para 27%. Porém, a
maior surpresa aconteceu entre os seguidores da umbanda e do candomblé, de 0,3 para 1%.
Outras surpresas: quatro em cada dez pessoas desse grupo se declaram brancas, um quarto
tem formação superior e o Rio Grande do Sul, o Estado mais do branco do país depois de
Santa Catarina, tem a maior proporção de devotos das fés afro-brasileiras, 3%. Ah, e o Estado
mais branco do país guarda o nome da santa africana. São mesmo muitas coincidências, você
não acha?

*Osvaldo Alvarenga é escritor e mora em Lisboa

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