Restaurantes começam a reagir aos excessos de influenciadores. E talvez já estivesse na hora.
Em restaurantes e bares, sobretudo na Europa, cresce a reação contra influenciadores que confundem audiência com autoridade — e número de seguidores com passaporte para privilégios.
O problema não é produzir conteúdo. O problema começa quando o restaurante vira estúdio: ring lights, tripés, celulares, gravações intermináveis e clientes transformados involuntariamente em figurantes.
Piora quando chega a famosa proposta: “uma permuta em troca de divulgação”.
Traduzindo: comida, bebida e, às vezes, mesa para acompanhantes em troca de posts e stories.
Marketing de influência é legítimo quando existe acordo profissional, transparência e interesse das duas partes. O que não é legítimo é imaginar que milhares de seguidores criam automaticamente uma obrigação de oferecer almoço, jantar ou hospedagem gratuitamente.
E há uma confusão ainda mais preocupante: influência não é crítica especializada.
Uma fotografia bonita de um prato não transforma ninguém em crítico gastronômico. Assim como visitar hotéis e destinos gratuitamente não transforma automaticamente alguém em jornalista de turismo.
Jornalismo exige apuração, repertório, independência, ética e compromisso com o leitor. Crítica gastronômica exige conhecimento, experiência e capacidade de avaliar muito além da “instagramabilidade” de um prato.
Como observa o jornalista Hugueney Bisneto, existe um abismo entre o jornalismo responsável e a busca vazia por aplausos e vantagens imediatas nas redes sociais.
É importante dizer: há excelentes influenciadores e criadores de conteúdo, profissionais, preparados e respeitosos. Eles não são o problema.
O problema é a cultura do “você sabe quantos seguidores eu tenho?”
Restaurantes não devem refeições a ninguém por causa de seguidores. Hotéis não devem hospedagens. E empresas não deveriam confundir alcance digital com credibilidade editorial.
Se alguns estabelecimentos começam a colocar placas restringindo esse comportamento, talvez elas expressem mais do que irritação.
Expressam o cansaço de um setor que percebeu que visibilidade não pode valer mais do que educação, respeito e conteúdo.
No fim, seguidores podem ser comprados. Curtidas podem desaparecer. Algoritmos mudam.
Credibilidade, não.
CONSELHO EDITORIAL DO DIÁRIO DO TURISMO
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