A categoria cresce, conquista espaço e cria novas ocasiões de consumo. Mas é possível retirar o álcool sem afastar o vinho da fermentação, da gastronomia e de sua identidade cultural?
Por Waleska Schumacher, Haia – Países Baixos
As tendências chegam, desaparecem, retornam e se apresentam com novas embalagens. Nos últimos anos, produtos com baixo ou nenhum teor alcoólico conquistaram maior visibilidade, acompanhados de uma narrativa recorrente: estamos diante de uma categoria em crescimento.
O crescimento existe. No entanto, quando uma categoria ainda é pequena ou começa a ser adaptada a novos mercados, crescer é algo esperado. A questão principal é saber se esse movimento conseguirá se manter.

Não pretendo desvalorizar essas bebidas, muito menos as escolhas de quem não pode ou não deseja consumir álcool. Minha inquietação está na forma como essa tendência chega ao mundo do vinho.
Aqui nos Países Baixos, observo o avanço das cervejas sem álcool. Elas preservam parte da sensação da bebida tradicional e oferecem uma alternativa para quem precisa dirigir ou prefere evitar o álcool. A associação entre Heineken 0.0 e a Fórmula 1 demonstra como as grandes marcas compreenderam esse movimento.
Mas a estratégia que funciona para a cerveja pode ser simplesmente transferida para o vinho?
O que retiramos quando retiramos o álcool?
O vinho não é apenas uma bebida que contém álcool. É agricultura, fermentação, território, clima, cultura e gastronomia. Uma garrafa pode carregar o trabalho de várias gerações, a identidade de uma região e a interpretação de uma safra.
Quando retiramos o álcool, não removemos somente uma substância que parte dos consumidores deseja evitar. O álcool participa da estrutura, do corpo, da textura, da percepção de doçura e da expressão aromática. Ele nasce da transformação dos açúcares da uva pelas leveduras e integra a própria construção sensorial do vinho.
As tecnologias de desalcoolização evoluíram. Destilação a vácuo, osmose reversa e sistemas de cones rotativos procuram remover o álcool de maneira menos agressiva e, em alguns casos, recuperar parte dos componentes aromáticos. Os resultados melhoraram, mas ainda podem ocorrer alterações de textura, persistência, acidez, doçura e corpo.
Também se tornou evidente para os enólogos que um vinho de baixa qualidade não se transforma em um bom produto depois de desalcoolizado. Para alcançar um resultado convincente, é necessário partir de um vinho base com estrutura, equilíbrio e qualidade.

A categoria zero ganha espaço
Na Wine Paris 2026, uma das mudanças que mais chamou a atenção de Rafael Romagna, gerente de Promoção Internacional do Wines of Brazil, foi a consolidação do segmento zero em um espaço próprio.
O Be No, dedicado às alternativas sem álcool, reuniu 64 expositores de 13 países e apresentou mais de 250 rótulos em uma área de degustação. A categoria já não aparece de forma dispersa. Ela começa a ocupar um lugar claramente identificado dentro de uma das principais feiras internacionais do setor.
Rodrigo Arpini Valerio, diretor de Marketing e Vendas da Cooperativa Vinícola Aurora, também visitou o espaço e degustou diferentes propostas. Segundo me contou, encontrou produtos interessantes e saiu ainda mais convencido de que o produto desenvolvido pela Aurora está no caminho certo.
Essa percepção ganha relevância quando conhecemos o processo de aprendizagem da vinícola.

O aprendizado da Vinícola Aurora
É importante distinguir as diferentes bebidas apresentadas ao consumidor dentro do universo zero.
Uma bebida de uva gaseificada não passa pela fermentação. O fermentado de uva desalcoolizado, por sua vez, foi inicialmente transformado em vinho e, posteriormente, submetido à retirada do álcool. São produtos diferentes em origem, processo e resultado sensorial.
Rodrigo explicou que os primeiros testes realizados pela equipe de enologia da Aurora não alcançaram o resultado esperado. A evolução aconteceu quando perceberam que precisavam partir de um vinho mais estruturado, proveniente da linha Reserva da própria vinícola.
A experiência confirma um princípio técnico importante: a desalcoolização não esconde as limitações do vinho base. Ao contrário, pode torná-las ainda mais evidentes.
Atualmente, a Aurora oferece tanto bebidas sem fermentação quanto fermentados de uva desalcoolizados. Para estes últimos, a vinícola utiliza vinhos submetidos a um processo de evaporação fracionada para a remoção do álcool.

Ponto Nero Zero e a ampliação das ocasiões de consumo
Outro exemplo dessa diversidade é o Ponto Nero Live Zero, elaborado com Moscato Branco. Em 2025, o produto recebeu medalha de ouro no Global Low and No Alcohol Wine Masters, promovido pela publicação britânica The Drinks Business.
A própria Ponto Nero o classifica como bebida gaseificada de uva, com 0,0% de álcool, e não como vinho submetido à desalcoolização. A distinção não diminui o reconhecimento conquistado, mas evidencia como produtos elaborados por processos diferentes convivem dentro da mesma categoria comercial.
Para Luísa Valduga, gerente de Exportação da Casa Valduga e da Ponto Nero nos mercados internacionais, mais do que uma tendência geracional, estamos diante de uma mudança de comportamento. As pessoas estão reduzindo o consumo cotidiano de álcool, mas, quando decidem beber, preferem produtos de maior qualidade. Essa expectativa também se estende às opções sem álcool.
“O consumidor não quer mais uma simples substituição. Ele procura uma bebida que entregue qualidade, sabor e sofisticação, preservando o ritual da celebração”, afirma.
Luísa observa, especialmente no Reino Unido e na Ásia, um interesse crescente por produtos que permitam alternar momentos com e sem álcool. Eles podem acompanhar um almoço de trabalho, ser intercalados entre taças durante um jantar ou atender quem precisa dirigir.
“O consumidor não está abrindo mão da experiência. Está ampliando suas possibilidades de consumo.”
Essa perspectiva ajuda a compreender a força comercial e social da categoria. Ao mesmo tempo, reforça a necessidade de sabermos o que realmente existe dentro de cada garrafa.

Celebração, inclusão e harmonização
Acredito que as bebidas espumantes sem álcool podem conquistar um espaço importante nas celebrações.
Uma mulher grávida, uma pessoa em tratamento de saúde, alguém que precisa dirigir ou simplesmente não deseja consumir álcool pode participar de um brinde sem ficar limitada à água ou ao refrigerante. Nesses casos, o produto proporciona pertencimento, e esse valor deve ser reconhecido.
Ainda assim, o vinho desalcoolizado não me convence plenamente como parceiro de uma refeição cuidadosamente preparada. Na harmonização, ainda não substitui a estrutura e a experiência sensorial construídas pela fermentação.
Talvez, por isso, o caminho que mais me interessa seja o da redução do teor alcoólico.
Durante anos, parte do mercado valorizou vinhos pesados, concentrados e elaborados com uvas excessivamente maduras. Muitos alcançaram níveis de álcool que comprometeram o equilíbrio e tornaram o consumo cansativo.
Não precisamos escolher apenas entre um vinho com 14,5% de álcool e um produto desalcoolizado. Existe um território interessante entre esses extremos.
Podemos valorizar vinhos naturalmente mais leves, brancos frescos e espumantes com menor graduação alcoólica, nos quais acidez, açúcar residual, álcool e gás carbônico convivam de forma equilibrada.
O Brasil possui um excelente exemplo: o Moscatel Espumante.
Aromático, fresco, naturalmente doce e leve, adapta-se aos ambientes tropicais e aos paladares que preferem sabores mais adocicados. Pela legislação brasileira, pode apresentar entre 7% e 10% de álcool, e seu gás carbônico resulta da própria fermentação.
Nesse caso, não retiramos do vinho aquilo que a fermentação criou. Conduzimos o processo para alcançar naturalmente menos álcool, preservando aromas, frescor, doçura e identidade.
Esse caminho me parece mais interessante do que tentar reconstruir, depois da desalcoolização, o equilíbrio que o vinho perdeu.

Tendência e cultura podem caminhar juntas?
O vinho sem álcool pode incluir pessoas, criar ocasiões e despertar curiosidade. Respeito essa escolha e reconheço o trabalho técnico necessário para produzir alternativas cada vez melhores.
Talvez a categoria seja, inclusive, uma porta de entrada para algumas pessoas conhecerem o universo do vinho. Mas, pessoalmente, não será por meio dela que conduzirei novos consumidores a esse mundo.
Depois de mais de 35 anos acompanhando o setor, prefiro apresentar o vinho contando a história da vinha, explicando a transformação da uva e tornando o conhecimento mais acessível. A fermentação representa uma das relações mais fascinantes entre natureza, tempo e intervenção humana.
Precisamos escutar o consumidor e compreender as mudanças de comportamento. Mas também precisamos mostrar a paisagem, a agricultura, as famílias e todo o trabalho existente por trás de uma garrafa.
As tendências podem mudar. A cultura permanece.
E é por meio dela que continuo escolhendo apresentar o vinho.
Obrigada por me ler.




