Entretanto, nas Beiras – por Osvaldo Alvarenga*

Por Terras da Beira, Iêda e eu, percorremos as judiarias de Castelo Branco, Covilhã e Sabugal. Nas antigas praças medievais ou, em alguns casos, mesmo fora das cidadelas, entre casas de pedra em vielas apertadas, becos sinuosos, sempre a subir ou a descer, fomos conhecendo e especulando um pouco sobre a história dos judeus sefarditas que, em 1492, expulsos pelos Reis Católicos dos reinos de Castela e Aragão, exilaram-se nas vilas fronteiriças do Reino de Portugal e dos Algarves, onde, até então, a Coroa criara leis que os resguardavam. Como resultado do êxodo, a chegada de milhares de famílias sefarditas – suponho, à época, o equivalente a 10% da população de Portugal – rompeu o tênue equilíbrio entre mouros, judeus e cristãos que viviam no reino.

Os judeus eram mais instruídos que a média, a leitura da Torá exigia alfabetização e os negócios a matemática. Sabiam ler e sabiam fazer contas. Rápido prosperaram. Eram astrônomos, físicos, médicos, cirurgiões, ferreiros, gibiteiros (artesãos das malhas e armaduras de aço e das brigantinas e dos gibões de couro ou grosso tecido, equipamentos indispensáveis aos cavaleiros nas batalhas), tecelões, alfaiates, sapateiros, mercadores. Além disso, mormente, eram judeus os coletores do Rei e os fiscais da contabilidade pública. Num período em que os surtos de peste bubônica levaram a morte ao campo e a migração massiva às cidades, despovoadas as aldeias, sem gente para plantar, houve falta de alimentos e agravo da miséria; ricos e remediados, mais sadios e abundantes, os hebreus foram considerados culpados por todos os males da época. Nascia, então, forte, o antissemitismo em Portugal.

A morte de D. João II, em 1495, agravou a situação dos sefarditas portugueses. O novo rei, D. Manuel I,  cujo médico particular e conselheiro, Abraão Zacuto, era judeu exilado de Castela, ambicionava unir toda a Península Ibérica sob a sua coroa ao casar-se com Dona Isabel de Aragão, filha mais velha dos Reis Católicos. Exigência de sogra e sogro, apelo de Papa e prelados, pressão de parte da aristocracia e do povo, o Rei, muito a contragosto, aceitou expulsar os “hereges”, judeus e mouros, do reino. Em dezembro de 1496, assinou o decreto de expulsão. Porém, dependente das fortunas e dos conhecimentos dos precitos, muito se esforçou para impedir o êxodo: batismo forçado, tolerância aos cultos heréticos, fechamento de portos, restrições à saída de pessoas, sequestro dos filhos menores, cobrança de pesados tributos sobre bens embarcados, burocracias… Muitos ficaram, convertidos em cristãos-novos. Muitos foram embora para o Magrebe, Constantinopla, Países Baixos e, mais adiante, para as Américas. Em abril de 1506, durante missa pelo fim da seca e da peste, uma discussão banal serviu de estopim para a perseguição e morte na fogueira de milhares de judeus, cristãos-novos, homens, mulheres e crianças, em pleno Rossio de Lisboa. A execução iniciada por incitação de frades dominicanos, com promessa de absolvição dos pecados, e protagonizada pelo povo, foi interrompida, três dias depois, com a intervenção do Rei que ia a Beja visitar a mãe, em isolamento profilático, longe de aglomerações, protegida do mal, e teve de voltar. Em 1515, por empenho mais de sogra do que de sogro, mais uma vez contrariado, o Rei apelou ao Papa pelo Tribunal do Santo Ofício; não teve sucesso. Finalmente, em 1536, já sob o reinado de D. João III, os portugueses conheceram a Inquisição.

Em Belmonte, para onde fomos ao quarto dia de viagem, terra de Pedro Álvares Cabral, há registro, no séc. XIII havia sinagoga, havia uma comunidade judaica de considerável tamanho e organização. Após a expulsão e o estabelecimento da Inquisição no reino português, com alguma cumplicidade da população, mas de todo ocultos da Igreja e da Coroa, por quase 500 anos, os sefarditas belmontenses, falso-convertidos, mantiveram clandestinos costumes e cultos. O isolamento em relação às demais comunidades judaicas e a necessidade de dissimular práticas e rituais fizeram com que esses criptojudeus perdessem parte da sua cultura e tradição; perderam inclusive a língua hebraica; resistiu a fé. Nos finais do séc. XVIII, nova leva de judeus, esses emigrados do Marrocos, chegaram à vila. Em 1925, Samuel Schwarz publica “Os cristãos novos em Portugal no séc. XX”, primeiro registro, em séculos, de segredo tão bem guardado. Somente nos anos 70, ainda sob o conservadorismo carola do Estado Novo português, os marranos de Belmonte estabeleceram contato com os judeus de Israel, para, finalmente, em 1989, fundarem a Comunidade Judaica de Belmonte. Hoje, da primitiva numerosa comunidade, por motivos diversos, restam pouco mais de 50 judeus ortodoxos na vila; contam com rabino e sinagoga. Em 2005, Belmonte ganhou um Museu Judaico, onde toda essa história é bem melhor contada.

O isolamento em relação às demais comunidades judaicas e a necessidade de dissimular práticas e rituais fizeram com que esses criptojudeus perdessem parte da sua cultura e tradição; perderam inclusive a língua hebraica; resistiu a fé.

O castelo de Belmonte, comum às antigas fortificações, fica no cimo de um monte. Desde longe, ao longo do vale do Zêzere, por estradas sinuosas e arborizadas, torre e muralhas prendem a atenção de quem passa. Chegamos à vila medieval num dia de sol forte, difícil jornada, tórrido verão. O castelo, em estilo românico, todo em granito, erguido entre o final do séc. XII e início do XIII, tornado residência do alcaide-mor, Fernão Cabral I, no séc. XV, recebeu reformas, a torre de menagem ganhou janelas e foi adaptada ao espaço residencial. A Oeste, na muralha, foram implantadas janelas com vista para a Serra da Estrela, sendo manuelina uma delas, provavelmente do séc. XVI, e, no séc. XVII, por ocasião da Guerra da Restauração, que pôs fim ao domínio do Império Espanhol sobre o Reino de Portugal, foram ali acrescentados alguns baluartes; e tudo que não fosse pedra queimou num grande incêndio em 1694. Depois, abandonado, somente no início do séc. XX voltou a ser usado, primeiro como prisão, até ser declarado Monumento Nacional em 1927, ter recebido restauro e intervenções, a maior delas, em 1992, um anfiteatro para eventos e espetáculos. Como já passasse do meio-dia, encontramos o espaço prestes a fechar para o almoço. Para as duas horas de espera, por termos tomado um rico pequeno-almoço, por estarmos absolutamente sem fome, não fomos a nenhum dos restaurantes que eu havia selecionado, preferimos correr a vila.

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Praticamente em frente à entrada do castelo, trancadas, as capelas de Santo António (séc. XV) e do Calvário (séc. XIX); dali à judiaria, um pulo. Andamos sem pressa observando as casas entre as ruas Direita e Fonte da Rosa. Até o pelourinho a distância é curta, mas como fosse dia de feira ou festa, não sei, com controle de entrada e saída e uso de máscara exigido, não havia multidão, havia, sim, barracas montadas que estorvavam a visão do largo. Mais uns passos chegamos ao Museu Judaico, por impróprio o horário, também fechado. A sinagoga, noutro ponto da vila, recente, inaugurada em 1996, sem termos solicitado com antecedência a visita, não fomos ver. De volta ao castelo, pelo caminho, conheceríamos a Igreja de Santiago, de 1240, construção de pedra, em estilo românico, que depois recebeu adornos góticos, e o Panteão dos Cabrais, onde restam as cinzas do descobridor do Brasil. Tudo fechado. O calor atormenta, a decepção com a impossibilidade de seguirmos o roteiro planejado, agasta. Paramos para tomar um fino e pensar. Esquecemos o castelo e procuramos rio onde pudéssemos nos refrescar. Fomos tomar banho no Zêzere, não sem antes visitarmos a Torre de Centum Cellas, ruína de um monumento de pedra, possivelmente romano, nas imediações da vila.

Há muito, nos nossos aniversários, Iêda e eu, nos presenteamos com alguma viagem; oportunidade para aprender, experimentar e vivenciar juntos o inabitual. Julho, talvez resultado do efeito estufa, por estas bandas, o verão tem estado abrasador; depois do mergulho gelado no Zêzere, pés n’água, cabelos ao vento (como se eu ainda os tivesse) tomo a decisão de uma vida: a partir do ano que vem, meu aniversário será em maio.

A viagem à Beira, já quase ao fim, continua na próxima quinzena.


 

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Osvaldo Alvarenga
*Osvaldo reside em Lisboa e escreve para os blogs: Flerte, sobre lugares e pessoas e Se conselho fosse bom…, sobre vida corporativa e carreira. Atuou por 25 anos no mercado de informações para marketing e risco de crédito, tendo sido presidente, diretor comercial e diretor de operações da Equifax do Brasil. Foi empresário, sócio das empresas mapaBRASIL, Braspop Corretora e Motirô e co-realizador do DMC Latam – Data Management Conference. Foi diretor da DAMA do Brasil e do Instituto Brasileiro de Database Marketing – IDBM e conselheiro da Associação Brasileira de Marketing Direto – ABEMD, dos Doutores da Alegria e, na Fecomercio SP, membro do Conselho de Criatividade e Inovação.

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