Em minha viagem para Cunha (SP), para conhecer os artistas e ceramistas que elevaram a cidade ao status de capital nacional da cerâmica de alta temperatura, visitei a casa/atelier de Tita Selicani, uma artista plástica que se especializou na técnica de fusão de vidro, conhecida como fusing glass ou vitrofusão.
por Paulo Atzingen*
Entrar na atmosfera de uma multiartista é desafiador para um jornalista, pois pode não saber por onde começar seu texto, sua reportagem. Quase aconteceu comigo. Tita Selicani, já escreveu biografias, desenvolveu projetos e pesquisas históricas, já viajou o mundo com sua arte e foi premiada com seu fusing glass no Museu do Louvre, em Paris. Nos últimos anos mergulhou de cabeça e alma nessa técnica de vitrofusão e graças ao seu talento e foco tem agenda cheia, encomendas que não param e uma série de premiações.
Tita, mineira de Paraguaçu, iniciou seus estudos na Escola Pan-Americana de Arte, mas optou por seguir a formação acadêmica em Pedagogia pela Unitau, em Taubaté, e posteriormente concluiu uma pós-graduação em Psicopedagogia pela Universidade São Judas Tadeu. “Na época, achei importante ter um diploma. Mas a arte falou mais alto e nunca saiu de mim, pois sempre foi apaixonada por desenhar”, me conta.
Tita Selicani e sua pesquisa
Durante os anos em que viveu em São José dos Campos, desenvolveu projetos culturais e aprofundou seu interesse pela pesquisa histórica. Um dos mais relevantes resgatou a trajetória da dupla caipira Brinquinho e Brioso, importantes personagens da cultura joseense. O trabalho foi realizado por meio da Lei de Incentivo à Cultura e resultou em um livro prefaciado por Inezita Barroso. “A pesquisa me transformou. Foi ali que descobri o prazer de investigar histórias e preservar memórias”, relembra.

Fusing glass
Nos últimos anos, Tita encontrou no vidro o principal meio de expressão artística. Especializou-se na técnica de fusão de vidro, conhecida como fusing glass ou vitrofusão. “O vidro é um material fascinante porque nunca reage exatamente da mesma forma. Cada queima é uma surpresa”, explica. Em suas obras, combina vidro, esmaltes, metais e materiais diversos para criar composições inspiradas em árvores, folhas e elementos da natureza. Observo Tita em seu atelier. São obras delicadas, brilhantes, coloridas e muito desejadas por sua clientela. São pratos, são folhas, são cubas, são jóias, tudo o que se pode imaginar ela faz, ela cria, ela molda. “São obras exclusivas, feitas sob encomenda, mas tenho também trabalhos em série como troféus, placas, pratos…”, enumera.

O processo no forno e a construção das peças
A artista também detalha como ocorre o processo dentro do forno e explica que muitas obras exigem montagem em etapas até atingir o formato desejado.
“A peça vai para um forno e chega a 850 graus. Aí ela atinge a fusão. Depois de cerca de dez horas é que eu abro o forno, retiro a peça e vejo o resultado. Às vezes eu preciso fazer várias partes de uma obra”, conta.

Tita Selicani e árvore de vidro inspirada no baobá
Ao recordar um de seus projetos mais simbólicos, Tita conta como surgiu a ideia de criar uma grande árvore inspirada no baobá africano, utilizando garrafas de vidro coletadas em uma comunidade, em Guarulhos (SP).
“Eu fui chamada por causa da Academia Francesa, da qual faço parte, e também por causa desse conceito meu de trabalhar árvores e natureza. A comunidade tem como símbolo a África, e o baobá é um dos símbolos da África. Desenhar aquela árvore foi muito difícil. Tive que imprimir pedaço por pedaço, depois desenhar tudo na parede para então revestir com vidros de garrafa”, enumera a artista.


Segundo ela, foi um trabalho muito bonito na comunidade. Psicólogos trabalharam junto com as mulheres que limpavam as garrafas e também faziam uma terapia durante o processo. “Toda a comunidade participou enquanto eu subia no andaime para construir a imagem”, recorda.
“Na obra, eu resolvi fazer a água por fora, pelas margens, como símbolo de limpeza, dessa coisa cristalina. O fundo é roxo, lembrando a espiritualidade, e a árvore em marfim. Assim nasceu a minha baobá,” descreve.

Fusão de educar e conscientizar
Hoje, vivendo em Cunha, reconhecida como a capital nacional da cerâmica de alta temperatura, Tita segue produzindo e pesquisando novas possibilidades para a fusão de vidro. Sua arte já ultrapassou fronteiras e foi premiada com Medalha de Ouro em exposição no Carrousel du Louvre em Paris, no ano de 2014. A árvore centenária da espécie Samanea saman, conhecida como Árvore da Chuva ou Chorona foi sua inspiração.

Que suas árvores de vidro, Tita Selicani, continuem essa fusão de educar e conscientizar as pessoas, crianças, jovens e adultos, sobre o valor da natureza e a importância da arte na aventura de viver.
*Paulo Atzingen é jornalista e fundador do DIÁRIO DO TURISMO
LEIA TAMBÉM
Festival Internacional da Cerâmica de Cunha valoriza raízes e amplia presença internacional




