Uma nova realidade não vai existir, a não ser que a gente a crie

por Gabriela Viana*
Há cerca de 10 dias, embarcamos 27 executivas brasileiras de diferentes indústrias e marcas – e eu – para algo que planejávamos ser uma viagem para conhecer e investigar inovação na África do Sul. Nossa delegação, A KES Trek_Women, partiu rumo ao país situado no extremo sul do continente africano, que – assim como o Brasil – reúne incríveis belezas naturais, mas também é marcado por forte desigualdade social, taxas de desemprego recorde que atinge principalmente a população negra e um crescente histórico de violência contra a mulher.
E por que decidimos pela África do Sul? Porque queríamos aprender sobre inovação e transformação social a partir de uma realidade mais próxima da nossa e com desafios similares aos nossos.
Logo que pousamos, nos sentimos fazendo uma visita ao Brasil, mas sem as vendas nos olhos e a anestesia do dia a dia. Visitarmos um país com o olhar atento para as questões sociais foi revelador da realidade local, mas também da nossa. Fizemos um passeio pela história do país – não só sua geografia e histórico de colonização – mas também pelo Apartheid (regime de segregação racial que perdurou até 1994) e suas indeléveis consequências, que configuraram e perduram na diferença social brutal que existe no país. Antes de nos chocarmos com o regime imposto do outro lado do Atlântico – cito a artista brasileira Elisa Lucinda que, sobre o Brasil, disse: “se sabemos onde encontrar negros e onde encontrar brancos, então temos segregação racial”.

E por que decidimos pela África do Sul? Porque queríamos aprender sobre inovação e transformação social a partir de uma realidade mais próxima da nossa e com desafios similares aos nossos

Exatamente porque a África do Sul precisa lidar com imensas desigualdades raciais, sociais e de gênero, assim como conta com uma grande população jovem (até 2050, a população no continente africano, que tem alta taxa de natalidade de 4,7 filhos por mulher, deverá duplicar, passando de 1,3 bilhão a 2,5 bilhões) suas start-ups, empresas e projetos sociais estão focados em responder a esse desafio, unindo educação, acesso a consumo e ao sistema financeiro, geração de empregos e renda.
As soluções e projetos focados em mulheres e jovens negros claramente foram o destaque da nossa jornada. Tivemos por exemplo, o privilégio de ouvir de Taddy Blecher sobre o Maharishi Institute e a Educação baseada na Consciência. Um trabalho pioneiro e com resultados comprovados na recuperação e preparo de jovens para um mercado de trabalho que exige alta capacitação, Taddy nos deu uma verdadeira aula sobre o verdadeiro papel da educação- que deve, como premissa, transformar o ser humano. Na nossa sessão com Taddy tivemos um primeiro sinal que se confirmou durante muitas das outras visitas: transforme seu país começando pelo interior- das pessoas.
Em um movimento similar, fomos apresentados por Aviwe Funani à Waves for Changes, organização que oferece nada menos que o Oceano a jovens que têm como herança da segregação racial pouco ou nenhum acesso à praia. O projeto usa o surfe e a meditação como ferramentas de engajamento e pertencimento. É através da Waves for Changes que jovens das periferias de Cape Town agora têm uma alternativa às gangues. Deixo aqui a beleza da imagem de jovens negros entrando no oceano pela primeira vez, juntos e de mãos dadas.
Durante uma manhã, pudemos compartilhar a beleza e inteireza das meninas da Dream Factory Foundation, cujo programa visa preparar jovens em áreas e situações de risco para emprego por meio de aulas de programação, workshops, “job-shadowing” e outras atividades. Novamente, a linha principal de trabalho com essas jovens passa por garantir sua integridade como mulheres, seu centro como seres humanos e uma autoestima e autoconfiança à prova dos desafios que enfrentam em suas vidas. A desenvoltura de cada uma delas apresentando foi um testamento ao poder transformador de saber-se valioso.
Visitamos Khayelitsha, uma Township (o equivalente à nossa favela) – áreas distantes do centro da cidade que na época do Apartheid foram designadas como locais de moradia para a população negra e outros grupos não-brancos. Lá, almoçamos no 4ROOMED Ekasi, um restaurante cuja construção é uma réplica das moradias destinadas aos negros durante o regime de segregação. A culinária é Africana – diferente dos restaurantes de cozinha internacional em Cape Town – e sua localização também celebra o povo e a culinária locais. O filho da fundadora nos deu novamente uma aula de cidadania e de coletividade ao explicar porque eles decidiram montar seu premiado restaurante dentro da comunidade de Khayelithsa – e celebrar a África.
Não menos impactante foi nossa sessão com Tatho kgathlanye, fundadora de start-up, gigante do alto dos seus vinte e poucos anos e que, novamente, deu uma pausa no discurso mais frequente da inovação através da tecnologia e falou exclusivamente do humano em nós. É preciso compartilhar uma de suas máximas, que inspirou o título deste texto: ‘o espaço que você vai ocupar, não existirá, até que você o crie’.
É isso. Em todos os projetos que visitamos, havia uma clareza e um firme propósito de focar, primeiro, no ser humano e na sua crença em si mesmo e na sua capacidade. O reconhecimento de que o ser humano precisa estar íntegro para então aprender, trabalhar e criar. Uma maneira inteligente de engajar mulheres e jovens que carregam no corpo e na alma traumas típicos de regiões de guerra, dada a violência e escassez de recursos e de oportunidades. Conhece um lugar assim?
Nossa viagem terminou com a apresentação do grupo de coral e dança da comunidade de Khayelithsa, o Isibane se Afrika. Que significa literalmente Luz da África. A arte novamente usada como instrumento para conectar o indivíduo consigo mesmo – e com os outros. Foi um momento de ver e sentir de perto a beleza indescritível de onde viemos.
Memórias são fruto da experiência e mais relevante se tornam à medida em que estão revestidas de emoção. Deixamos a África um pouco mais conscientes do legado do continente-mãe, de sua cultura, força e beleza. E com a certeza de que precisamos empreender essa mesma jornada – aqui no Brasil. Há muito a ser feito em educação, restituição do lugar de direito da população negra e na participação ativa das mulheres, para construirmos um futuro melhor no nosso país. Há muita viagem a ser empreendida para dentro de cada um de nós também. E juntas, pretendemos seguir nessa jornada. Vêm conosco?
*Gabriela Viana é diretora de Marketing na Adobe para América Latina
Paulo Atzingen
Paulo Atzingenhttps://www.diariodoturismo.com.br
Paulo Atzingen é paulista e jornalista profissional (DRT-185 PA) desde o ano 2000; cursou Letras e Artes e Comunicação Social na Universidade Federal do Pará (UFPA), É poeta, contista e cronista. Estuda gaita (harmônica).

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