Vinho brasileiro com uva argentina será possível?

Será que o Enoturismo brasileiro receberá duro golpe com ‘importação de uva fresca’ da Argentina?

por Werner Schumacher*


Quando nos defrontamos com uma notícia que pode vir a ser uma ameaça, inicialmente, as pessoas, de um modo geral, ficam apavoradas. Poucas enxergam oportunidades.

Pelas razões acima, o artigo publicado na semana passada ‘Enoturismo brasileiro receberá duro golpe com a “importação e uva fresca” da Argentina’ recebeu inúmeros comentários, a favor ou contra.

O texto reflete uma opinião pessoal com base no ponto de vista social e econômico do problema, sem contemplar possíveis oportunidades do ponto de vista empresarial.

De fato, a importação de uva mais barata pode contribuir para a redução dos custos de produção, mesmo que o custo da uva represente muito pouco no preço de um vinho de qualidade. Muitos, inclusive, acreditam que a qualidade do vinho brasileiro poderá melhorar em função da boa qualidade da uva produzida na Argentina.

Epa! Vinho brasileiro com uva Argentina? Sim, brasileiro, afinal, é produzido aqui. Como a paternidade, se uma argentina ganha um filho aqui, este é brasileiro. Discutível, não é mesmo?

Na Europa, salvo raríssima exceção, não se leva uva de um país para outro com a finalidade de produzir vinho. Leva-se mosto (suco da uva) ou vinho a granel. Em ambos os casos, é necessário indicar obrigatoriamente a origem do produto, tipo: espumante elaborado na Alemanha com mosto de origem italiana. No Brasil está proibida a importação de mosto ou vinho a granel do Mercosul e do Chile, mecanismo de proteção a indústria nacional.

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Como a paternidade, se uma argentina ganha um filho aqui, este é brasileiro. Discutível, não é mesmo? (Crédito: Getty Images)

Pode-se deduzir então que uma OPORTUNIDADE seria a redução de custo e a possibilidade de oferecer vinhos mais em conta e/ou com melhores margens de lucro.

Por outro lado, outros alegam que a população da zona rural da região serrana produtora de uvas está envelhecendo e poucos jovens nela permanecem, consequentemente, amanhã ou depois a oferta de uvas cairá pela escassez de mão-de-obra, tendência de um grande problema.

Sem uva, não haverá vinho, suco de uva ou o qualquer produto derivado da uva.

Torna-se vital então encontrar novas áreas para plantar uva, de preferência planas e passível de mecanização. O Vale do São Francisco pode ser uma opção, provavelmente muito boa, pois lá se colhe no mínimo duas vezes por ano, mas Petrolina/Juazeiro estão a 3.208 km de distância de Bento Gonçalves, por exemplo.

Mendoza fica a 2030 km de Bento Gonçalves, portanto, 1.178 km a menos, uma redução de quase 37%.

Este é um artigo não uma tese

Não temos informações sobre o custo da terra nessas regiões, comparativos do custo de produção da uva em ambos os lugares e de logística, se via ferroviária ou rodoviária regiões. Este é um artigo, não uma tese, que demandaria tempo e pesquisa. A intenção é apenas provocar o debate.

Trazer uva fresca da Argentina pode ser uma OPORTUNIDADE de curto prazo para resolver o problema de abastecimento desta matéria-prima, considerando a tendência de envelhecimento da população rural e provável desabastecimento.

Há ainda uma questão de gestão, como foco em competitividade e participação no mercado. O setor vitivinícola nacional não vem se mostrando muito competente nos últimos anos e, frequentemente, essa certa incompetência recorre ao governo pedindo socorro.

Todos sabem da carga tributária, do custo Brasil, menos mal que o câmbio está favorável agora, mas o setor precisa caminhar com suas próprias pernas, mostrar-se mais competitivo e se tornar mais importante dentro da economia brasileira e isso só se faz com competência.

Já perguntava Einstein: “Como esperar resultados diferentes, fazendo as coisas da mesma forma?”.

Para os argentinos é sem dúvida uma OPORTUNIDADE, pois qualquer país que se presta tem gente qualificada buscando produtos que possa exportar a outros e, especialmente, nas relações bilaterais, no caso com o Brasil, pois a Argentina precisa melhorar o sua balança comercial.


Vale dos Vinhedos, Bento Gonçalves, 23 de março de 2021

 

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Werner Schumacher
Werner Schumacher
*Werner Schumacher estudou Economia na PUC/RS e é um dos responsáveis pela profissionalização da vitivinicultura no Brasil.

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