Passamos uns dias na Grécia, na cidade de Chalkida, ou Cálcis, a 80 km de Atenas, justo às margens do estreito de Euripo, que separa a Evia, a segunda maior ilha grega, do continente.
Já conhecíamos a cidade. Desta vez, fomos para o casamento de um sobrinho.
por Osvaldo Alvarenga
Todas as vezes que lá fomos, nos sentimos muito bem. Os gregos são muito simpáticos: estão sempre a sorrir e a tratar com delicadeza os visitantes e clientes nas lojas, restaurantes e cafés. Dos povos europeus que conheço – que me perdoem os patrícios portugueses –, os gregos são os mais simpáticos; e não irei hierarquizar os de pior feitio porque não quero me indispor com os amigos italianos. Pelo mesmo motivo não farei comparações gastronômicas; não serei eu a criar cizânia entre irmãos europeus nem a pôr em dúvida o ex-líbris de Portugal. Direi apenas que a culinária grega, logo abaixo da mineira, está no topo da lista… Um desastre esse parágrafo. Em poucas linhas já perdi os leitores portugueses e ítalo-descendentes. Vou começar outra vez.
Passamos uns dias na Grécia, mais precisamente em Chalkida. Fomos para um casamento. A cidade fica nas duas margens do estreito de Euripo: a leste, a ilha de Evia e a oeste, no continente, a Beócia. Separada por uma ponte deslizante, que abre e fecha para a passagem dos veleiros, a cidade se divide em duas. Sobre seu nome há relativo consenso: Chalkida é a transliteração do grego moderno para o alfabeto latino; Cálcis, a forma aportuguesada do nome histórico (é a que você encontra no Google Maps e nos trabalhos acadêmicos, por exemplo); e ainda Halkida, outra forma de transliteração, e Calquida, outra forma de aportuguesamento.

Sobre o nome da ilha é a mesma coisa: Evia, Évia ou Eubeia. Direi Chalkida e Evia porque são as formas como conhecemos. Desta vez, ficamos poucos dias. Como sempre, a simpatia dos gregos e o carinho dos nossos anfitriões fizeram-nos sentir em casa. Somos muito bem acolhidos pelos amigos que fizemos na cidade, pena que a barreira da língua nos impeça de nos conhecermos melhor e de dizer propriamente o quanto os prezamos. Eles, como toda a gente, têm um orgulho danado da terra em que nasceram, das suas belezas, dos seus dogmas, história, cultura e, sobretudo, da própria gastronomia; e nos apresentam a tudo com grande satisfação. E eu, de tudo curioso, é na culinária que me aplico mais… Pronto, já não vou além.
Descobri depois, a história de Chalkida é riquíssima. Mas a cidade que eu conheço não entrega; destruiu e enterrou completamente o seu passado arcaico, clássico, romano, veneziano e otomano.
Seu centro, quase sem nenhum interesse, é de uma cidade praiana, com edifícios quadrados, retos e desinteressantes, em que a graça está no conjunto de
quarteirões iguais. Seu calçadão à beira do Euripo, ladeado por hotéis e restaurantes, é simpático, convida ao passeio e à preguiça. Mas onde estão os vestígios dos antigos portos e das construções que fizeram de Chalkida o colosso jônico, o baluarte veneziano e a joia otomana? Quase nada ficou. Resta a Basílica de Ayia Paraskevi, do século V, reconstruída no XIII e remodelada no XIV, sobrevivida como mesquita e, por milagre dalgum deus, preservada da estupidez nacionalista grega (todos nacionalismos são) que, anos depois da anexação da ilha de Evia ao Estado grego, decidiu desfazer todos os laços com os turcos, demolir as muralhas, desmanchar a cidade medieval e apagar a própria memória. De frente para a basílica, sobreviveu a Casa de Vailos, do antigo governador veneziano, construída na primeira metade do século XIV. Isolado no topo do monte, do lado continental, fora da especulação imobiliária que transformou o centro e a ilha, ficou de pé o Castelo de Karababa, fortificação otomana de 1684. Esparsos pela cidade, procurando muito, é possível encontrar um pequeno troço, quase nada, da ágora romana, vestígios dos balneários e um aqueduto, dito romano, mas que provavelmente é otomano. No novo Museu Arqueológico restam pedaços dessa história toda. Eu não entrei, mas sei que o acervo é grande.
Há, porém, uma famosa e eterna atração na cidade: o Fenômeno do Euripo, ou as Águas Loucas de Chalkida. Fascínio que, entre muitos, seduziu Platão e Aristóteles.
É a inversão recorrente e violenta do sentido das correntes no estreito. Na maior parte do ciclo lunar, o fluxo é regular. A cada seis horas, as águas correm para um lado e, depois de minutos de indecisão, nas seis horas seguintes, correm para o lado oposto. Ora correm para o norte, ora para o sul.
Ou seja, mudam de ideia quatro vezes por dia. Acontece, ainda, que nos dias de quarto crescente e quarto minguante, as correntes enlouquecem. As águas podem correr num sentido ou noutro e, sem nenhum nexo aparente, mudar de direção até 14 vezes num mesmo dia. Não bastasse a falta de rumo, acontece também de, a depender das estações do ano, da atração do Sol, e da fase da Lua (se nova ou cheia), quando o alinhamento entre os dois astros é perfeito, a força da maré pode ser absurda e criar correntezas que passam dos 20 km/h, e redemoinhos que, na Antiguidade, desafiavam os navegadores. Pela tradição local, é a “união” de Poseidon e Aretusa que bagunça as marés. União impetuosa, está visto. Mas será que tão bela ninfa, esta Aretusa da Beócia, assim como aquela devota de Ártemis, era casta, imaculada e insubmissa? Será que ela teria cedido ao poderoso deus, seu avô, ou será que, à vista de todos, pelos séculos dos séculos, vem sendo violada? Isso também não está claro.
O interesse de Platão pelas águas loucas era filosófico. Não sei dizer se ele esteve em Chalkida e se ficou impressionado com o que viu. Sei que usou a inconstância das águas para falar de misologia – a repulsa ao raciocínio, às ciências e às palavras (Dicio). Eu explico.
Platão foi aluno de Sócrates. O método socrático incentivava os discípulos, quase todos jovens e influentes, a questionarem as figuras de autoridade e a exporem a ignorância dos poderosos.
Como é óbvio, a petulância e a ironia daqueles contestadores desagradavam profundamente à aristocracia ateniense. Sócrates foi perseguido, julgado e condenado por impiedade e corrupção da juventude. Como pena, uma dose mortal de cicuta a ser ingerida no dia da condenação. Por questões outras, a execução foi adiada por cerca de 30 dias, período que o filósofo dedicou a conversar com seus alunos mais próximos. Em Fédon, Platão descreve como teriam sido essas conversas.
Pelo relato de Platão, a certa altura, Sócrates interrompe a argumentação para fazer um alerta: o perigo de se tornar misologista. Porque não há coisa pior para um homem do que ganhar aversão pelos argumentos. Compara com o que acontece com a misantropia (ódio à
humanidade). Como exemplo, propõe a situação de uma pessoa ingênua que confia demais nos outros e constantemente pensa que está sendo traída. É natural que, com a sucessão de desilusões, essa pessoa acabe por desenvolver aversão à humanidade. Isso acontece quando quem se comporta assim não tem o mínimo de experiência em relações humanas. Fosse mais vivida, saberia que gente profundamente boa ou completamente má é coisa rara.
Assim como são raros todos os extremos: alto ou baixo, rápido ou lento, feio ou bonito… Ao contrário, são incontáveis os homens (e mulheres) que estão nalgum ponto intermediário. O mesmo acontece com os argumentos, segue o autor.
Quando uma pessoa toma um determinado argumento como verdadeiro para pouco depois o reputar falso (com razão ou sem ela) e assim sucessivamente – aqui Platão introduz as águas loucas –, o que existe não é para eles mais que um voltar para cima e para baixo, à maneira do Euripo, sem que nada permaneça em qualquer lugar um instante que seja 1. O autor mirava os sofistas, que via como desonestos e manipuladores porque cobravam caro por suas palestras em que ensinavam como debater apenas para vencer a discussão, sem qualquer compromisso com a verdade; daí o verbo sofismar: ocultar a verdade sobre algo através de argumentos falsos: iludir; enganar uma pessoa por meio de sofismas, de pensamentos que levam ao erro (Dicio).
Incomodava a Platão o relativismo moral e intelectual dos sofistas. Preocupava-o que a escola sofista destruísse a habilidade das pessoas de fazer julgamentos e confiar nos argumentos.
Preocupa-me essa enxurrada de demagogia e desinformação que circula por aí, que abrevia e confunde, que está nos deixando desconfiados e cínicos: indiferentes à dúvida, descrentes no caráter humano, dissidentes do pensamento crítico e desertores da razão.
Aristóteles conhecia Chalkida. Sua mãe tinha raízes na cidade. Neto de ricos aristocratas locais, ele herdou uma propriedade na ilha de Evia. Essa herdade era fortificada, vasta e produtiva – em Portugal seria uma tapada. Foi lá sua derradeira morada, onde se sentiu seguro quando a xenofobia o fez fugir de Atenas. Temia um fim idêntico ao de Sócrates. Mesmo assim, morreu meses depois. Enquanto esteve em Chalkida, dedicou seu tempo a estudar as correntes do Euripo. Diz o folclore local que, desesperado por não conseguir decifrar o mistério daquelas águas, mergulhou nelas e se afogou. São histórias…
Chalkida se transformou num centro comercial e de serviços para atender a gente de Evia e região. Como lá no período arcaico, a economia da ilha se baseia na mineração e na produção de alimentos: agricultura e pecuária, manteiga, azeite e vinho. Hoje, parece, sustenta-se também como refúgio de colonos atenienses e invasores europeus em férias.
Tem águas loucas que mudam de ideia várias vezes ao dia; praias tranquilas e mornas; montes de altura impressionante, brancos nos cumes no inverno, verdes nas vertentes o ano todo; campos de olivais; passeios às vinhas históricas e paisagens deslumbrantes. Essa gente guarda a riquíssima história do lugar para uns poucos, ostenta a simpatia que os caracteriza, os encantos da terra em que nasceram e a comida que, afinal, é a melhor do Mediterrâneo, uma maravilha.
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Nota:
1 – Fédon, tradução de Maria Teresa Schiappa de Azevedo, pág. 93, Livraria Minerva, 1988.
*Osvaldo Alvarenga é escritor, brasileiro e mora em Lisboa
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