Hoje o tempo está fechado – por Osvaldo Alvarenga*

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Deixe-me ver como abordar esse assunto… Não me sinto visitante em Portugal. Sinto-me tão pleno de direitos e deveres quanto qualquer português ou, melhor, quanto qualquer residente no país. É claro, sei que sou estrangeiro. Sou estrangeiro da mesma forma que fui estrangeiro no tempo em que vivi na Bahia ou quando cheguei em São Paulo. Mineiro que sou… Sinto, penso, ajo, falo e movo-me como mineiro: mesmo quando sei tudo, sei nada não; tão orgulhoso da minha singeleza, tão cuidadoso no trato e tão difícil de ceder; examino, reparo e sempre julgo, mas calado, só pra mim mesmo; e contemplo também, e sonho muito… É que eu venho daqueles vales e montes de onde nem subindo alto se vê o mar. Venho dum horizonte de serranias. Venho de uma terra que cheira a capim-gordura e a bosta de vaca. De uma mistura de gentes, de uma superposição de saberes… uma nação gestada em liberdade absoluta, herança indelével gravada na alma do mineiro. Fui criado a queijo, a pão de queijo e café com leite; a lombo e costelinha de porco; a tutu, angu, taioba e cachaça. Essas coisas devem moldar o caráter de uma pessoa…  Mineiro que sou, ainda que sangue e raízes sejam de cá também, como dizer coisas más sobre a terra que eu escolhi viver sem suscitar antipatia, alimentar xenofobismos, nem comparações disparatadas com o Brasil? Bem mineiro, vou pelas bordas. Deixa eu tentar dizer assim:

A semana foi de tempo fechado por aqui. Mal vejo o Cristo-rei pela janela. Tem dias que não vejo a ponte e, em outros, sequer o Tejo. Tudo encoberto pelo nevoeiro.

Não chove nem faz muito frio, mas o tempo fechou por aqui. As notícias da pandemia são as piores possíveis. Tantos erros e abusos cometidos, tanta irresponsabilidade, incompetência, ambiguidade e decisões adiadas, que Portugal tem, há semanas, os piores índices de contágio e mortes por Covid-19 no mundo por milhão de habitantes.

Domingo foi dia de eleições presidenciais. O atual presidente, Marcelo Rebelo de Sousa, como esperado, foi reeleito com mais de 60% dos votos. A abstenção foi imensa. Votaram pouco mais de 40% dos eleitores. Não é nenhuma catástrofe, disseram nos jornais. Há explicações para isso. Historicamente, o índice de abstenção aumenta nas reeleições presidenciais. O medo do contágio justifica parte. Dos portugueses da diáspora, algo como 1,5 milhões de eleitores que residem fora do país, 98% não votaram. Não compareceram os mais de 350 mil imigrantes regularizados no ano passado. São cidadãos que não sabem que podem votar, votantes que não conhecem candidatos nem partidos, gente alheia ao processo eleitoral. Mais uma justificativa. Uma imensidão de eleitores mortos — números exatos ou aproximados ninguém mostrou. Eles também não compareceram às urnas. Reeleito o Professor Marcelo, quem ganhou mesmo foi o candidato do Chega, partido de direita radical, essa gente que anda assombrando as democracias mundo afora. De irrelevante há dois anos, foi o terceiro, quase segundo, mais votado. É, o tempo anda feio por aqui…

Um novo estado de emergência foi aprovado no parlamento e decretado pelo presidente. Até 14 de fevereiro estão encerrados os voos comerciais e privados para o Reino Unido e o Brasil.

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Para qualquer destino, as viagens de avião, navio, comboio e carro estão condicionadas. As fronteiras terrestres estão sob vigilância. O governo quer que fiquemos em casa. E, a não ser por motivo de grande importância, para entrar ou sair do país é preciso ter justificativa: saúde ou trabalho. Viagens de lazer não são justificáveis, melhor esclarecer. É que, aqui, circula à grande a cepa inglesa do vírus, aquela que contamina até por pensamento. E a variante sul-africana, aquela mais resistente às vacinas, também está entre nós. Daí a radicalização das, já tardias, medidas de contenção sanitárias. O governo teve todo o verão para planejar o outono e o inverno. Fez o quê? Enquanto todos os países restringiam os voos de e para o Reino Unido, Portugal permaneceu aberto. Enquanto os vizinhos europeus voltavam à reclusão, por cá as famílias confraternizavam-se na consoada com o aval das autoridades. A bem da verdade, é a Europa que não nos quer passeando por aí. Por inépcia deste governo, o tempo fechou e Portugal ficou isolado e, cada dia mais, querem os nossos vizinhos nos manter à distância segura.

O noticiário dá conta de que serão necessários, no mínimo, dois meses em confinamento completo, com cerca de 70% da população em casa, para travar o curso ascendente do contágio e aliviar por completo a pressão sobre o Serviço Público de Saúde. E sim, já temos vacinas. Temos a Pfizer/BioNTech, a Moderna e, desde sexta passada, a Oxford/AstraZeneca; todas com parecer positivo da Agência Europeia do Medicamento.

Ainda assim, o tempo segue fechado por aqui. A BioNtech anunciou problemas no laboratório da Bélgica o que acarretará pelo menos três semanas de atraso nas entregas. Da Moderna chegaram poucas doses. E a Astrazeneca disputa com a União Europeia uma queda de braço. O laboratório comprometeu-se a entregar apenas uma parcela das doses ajustadas para o primeiro trimestre.

Além das três já aprovadas, estão contratadas as vacinas dos laboratórios Johnson&Johnson e Novavax, ambos com os resultados da fase três anunciados, e também do Valneva, CureVac e Sanofi-GSK. Ao final, se aprovadas e entregues todas as vacinas já acordadas, a União Europeia terá recursos para vacinar mais do que o dobro de sua população. Se houver excedentes, os países membros estão autorizados a fazer doações para regiões mais pobres ou a redirecionar doses para vizinhos europeus. Nos planos iniciais, e é o que continua valendo, as autoridades europeias querem atingir a imunidade de grupo até o final do verão. Para isso acontecer, algo como 315 milhões de europeus precisarão ser vacinados até meados de setembro. É possível, mas o tempo precisa melhorar por aqui.

Mais dois meses confinados… Prazo suficiente para atenuar o contágio, vacinar mais pessoas e desafogar os hospitais. Se assim for, lá por maio ou junho, Portugal poderá voltar a abrir-se.

Então, quiçá, diferente do ano passado, no verão o turismo ressurja com força. Isso se o governo não atrapalhar com mais sinais trocados e cativações, e se os cidadãos tiverem o bom senso de priorizar o confinamento. Hoje o tempo está fechado por aqui. Mas tenho esperanças. E imensa vontade de voltar a andar livremente e em segurança pela minha cidade. Lisboa é a capital europeia com mais dias de sol por ano. O mau tempo há de passar logo.

*** 

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