Muitas vezes me questiono se o modo que enxergo o mundo é tão diferente, ou incompreensível, porque o grau de importância que atribuímos as coisas é, na maioria das vezes, também, bastante distinto.
Há quem consiga olhar por uma janela, por exemplo, e ver apenas a poeira acumulada, o trabalho astuto das aranhas com seu emaranhado de fios, os insetos que pousam, e ficam. Observam apenas com uma preocupação estética, se está limpa ou suja. Pouco importa se estão sempre fechadas, que é para não entrar poeira. A preocupação máxima é com a aparência da janela.
Não se importam com a réstia de sol quando o dia está nascendo, com a chuva refletida junto da iluminação noturna. Para quem brisa é apenas vento e iluminação uma invasão alienígena.
Parecem não ver as janelas da alma. Talvez seja uma dificuldade intrínseca de ver através do tempo as janelas da saudade, o quão bonito tem sido a história que grita dentro da casa, onde as janelas funcionam como aberturas para o mundo que habita fora.
São elas que deixam o sol entrar, são elas que permitem observar o voo perfeito da borboleta, a dança frenética do beija-flor, ouvir com mais nitidez o burburinho das caturritas, o barulho das ondas do mar, o som do riacho, a alegria das crianças no jardim, a peraltice dos cães ou gatos.
Mas também são essas mesmas janelas o prenúncio de um perigo iminente, que servem de aviso e refúgio.
É a maneira como nós as olhamos, como cada pessoa sente. Melhor que estejam limpas e reluzentes, mas antes disso que sigam sendo janelas, com a real função de deixar entrar tudo o que é bom, que ilumina, seduz e surpreende positivamente. E que, igualmente, deixe sair o que precisa ser renovado, oxigenado e revigorado.
No passado elas foram palco das mais belas serenatas, dos bons carnavais, dos flertes e das mais belas declarações de amor. Ah, se as janelas falassem.
As janelas da nossa vida são como livros de memória. Em cada momento da caminhada trazem consigo uma infinidade de emoções. Há quem ame, inclusive, as que estão desgastas pelo tempo, já sem tinta, com a aspereza causada pelo excesso de calor e o estrago pelo excesso de umidade. Tudo dentro da normalidade da vida, do encantamento dos ciclos.
Com exceção à modernidade, que produz janelas que impedem a propagação de ruídos, luminosidade, menos ou mais segurança, elas são, de algum modo, nossa conexão com o lado de fora.
A poeira acumulada também ainda me incomoda, mas eu acredito que consigo enxergar além.
Limpe suas janelas, mas não apague o riso contido nelas.
*Nara Spada é poetisa, economista e hoteleira




