O Turismo brasileiro vive um paradoxo que deveria constranger universidades, governos e o próprio mercado. Enquanto a atividade turística cresce, movimenta bilhões, gera empregos e ocupa espaço cada vez maior no discurso econômico, os cursos superiores de Turismo encolhem, perdem alunos e desaparecem silenciosamente. O país que celebra o turismo parece ter desistido de formar quem deveria pensá-lo.
*Por Bayard Do Coutto Boiteux
Os números ajudam a compreender a dimensão desse desmonte. Em 2000, o Brasil possuía cerca de 209 cursos presenciais de Turismo. A expansão foi vertiginosa e, em 2007, chegamos a aproximadamente 526 cursos. A partir daí, porém, iniciou-se um movimento inverso. Em 2010, eram cerca de 343 cursos presenciais e quatro a distância; em 2013, aproximadamente 241 presenciais e cinco EaD. Hoje, levantamento de referência utilizado nesta análise aponta apenas 49 bacharelados em Turismo e menos de quatro mil estudantes, ressalvadas as diferenças metodológicas existentes entre as bases e classificações utilizadas ao longo dos anos.
A redução não pode ser tratada simplesmente como uma acomodação natural do mercado educacional. Estamos diante de um processo de esvaziamento de uma área de conhecimento justamente quando o Turismo ganha importância econômica, social, ambiental e geopolítica. É uma contradição quase surreal: cresce o turismo e diminui a formação superior específica para compreendê-lo.
Há ainda outro problema: a ausência de um retrato público, simples, atualizado e facilmente acessível sobre os bacharelados em Turismo no Brasil. Quantos estão efetivamente funcionando? Quantos alunos estão matriculados? Quantos cursos fecharam nos últimos dez anos? Quantos são presenciais? Quantos permanecem nas instituições privadas e quantos nas públicas? Encontrar respostas consolidadas para perguntas tão elementares transforma-se numa investigação. A falta de transparência estatística também é uma forma de invisibilidade.
Enquanto isso, outras modalidades de formação ocupam espaços anteriormente associados ao bacharelado. Em Gestão de Turismo, na modalidade tecnológica, foram registradas 8.894 matrículas em 2024, distribuídas por 81 instituições, demonstrando que o interesse pela formação na área não desapareceu completamente. Mudou de formato, duração e proposta. Cabe perguntar se as universidades perceberam essa transformação ou simplesmente assistiram à evasão de seus alunos.
Também seria simplista culpar apenas os estudantes. Durante anos, muitos cursos repetiram currículos pouco conectados às transformações do setor. O turismo mudou radicalmente. Inteligência artificial, sustentabilidade, economia da experiência, redes sociais, novas formas de hospedagem, mobilidade, acessibilidade, gestão de destinos, gastronomia, eventos e transformação digital redesenharam o mercado. Parte da universidade, entretanto, continuou ensinando como se o mundo estivesse parado.
A academia precisa abandonar a arrogância de acreditar que um diploma, por si só, legitima uma profissão. O aluno contemporâneo quer compreender para que serve aquilo que aprende. Quer experiências, internacionalização, pesquisa aplicada, empreendedorismo, tecnologia e contato permanente com o mercado. Quer professores que conheçam não apenas os livros, mas também o fenômeno turístico que acontece fora dos muros universitários.
O mercado também tem responsabilidade. Durante décadas utilizou profissionais formados em Turismo sem necessariamente reconhecer sua formação como diferencial. Contratou muitas vezes pelo menor salário, substituiu conhecimento especializado por improvisação e ajudou a construir a falsa percepção de que qualquer pessoa pode trabalhar com turismo sem preparação específica. Pode trabalhar, naturalmente. Mas pensar, planejar e gerir o Turismo exige conhecimento.
É preciso igualmente perguntar onde estiveram as políticas públicas de valorização da formação superior. Não basta promover destinos, participar de feiras internacionais, anunciar recordes e produzir campanhas publicitárias. Um país que pretende transformar o Turismo em política estratégica precisa investir também na inteligência que sustenta essa atividade.
O mais curioso é que o esvaziamento acadêmico acontece quando os indicadores econômicos do setor apontam em direção oposta. O turismo brasileiro atravessa um período de expansão, com crescimento da entrada de visitantes internacionais, geração de empregos e aumento da movimentação econômica. A atividade avança; a formação especializada recua. Essa equação não faz sentido.
Talvez tenha chegado o momento de parar de lamentar o fechamento dos cursos e perguntar por que tantos jovens deixaram de desejá-los. Defender o bacharelado em Turismo não significa conservar estruturas ultrapassadas. Significa justamente transformá-las.
Os cursos que sobreviverem precisarão ser menores, mais ágeis, tecnológicos, interdisciplinares, internacionais e profundamente conectados ao mercado e à sociedade. Precisarão ensinar o aluno a pensar destinos, pessoas, culturas, empresas, territórios e experiências.
Sobretudo, deverão recuperar aquilo que nenhuma formação meramente operacional consegue substituir: a capacidade crítica de compreender o Turismo como fenômeno econômico, social, cultural e humano.
O Turismo brasileiro não precisa apenas de gente que venda viagens. Precisa de profissionais capazes de pensar o futuro das cidades, dos destinos e das relações entre visitantes e comunidades.
Se as universidades compreenderem isso, ainda haverá futuro para os cursos superiores de Turismo; se continuarem oferecendo respostas antigas para um mundo que já mudou, os números continuarão caindo até chegar o momento em que não discutiremos mais como salvar os cursos de Turismo, mas por que permitimos que desaparecessem.




