A consolidação do crescimento registrado pelo turismo brasileiro em 2026 exigirá mais integração entre os diferentes elos do setor, qualificação dos destinos e ajustes em pontos da reforma tributária. A avaliação é de Alexandre Sampaio, diretor da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) e presidente da Federação Brasileira de Hospedagem e Alimentação (FBHA), ouvido pelo DIÁRIO DO TURISMO durante a ABAV Expo 2026, em São Paulo.
Por Cecilia Fazzini
Durante a entrevista, Sampaio apresentou o Conexão Turismo como resultado de uma estratégia de integração entre comércio, serviços e turismo e revelou que a CNC pretende discutir a expansão da iniciativa para todo o Brasil. O dirigente também apontou os principais desafios para 2027, especialmente a tributação da hotelaria e da aviação, e defendeu que o turismo ganhe maior protagonismo na estrutura do governo federal.

Conexão Turismo integra ações e busca novos destinos
Para Alexandre Sampaio, o Conexão Turismo materializa ações desenvolvidas ao longo dos últimos anos para melhorar a oferta turística, ampliar a qualificação profissional e aproximar diferentes atividades econômicas que participam da experiência do visitante.
“O Conexão Turismo, na verdade, é a materialização plena das ações que o Vai Turismo, durante esses três anos, propiciou em melhoria da oferta de produtos, na promoção da formação profissional proporcionada pelo Senac nos destinos e na interação de produtos complementares de toda a população, porque a população é que faz, na verdade, os serviços acontecerem”, afirmou.
A plataforma digital do programa foi lançada nesta quarta-feira (30), durante a ABAV Expo. A fase piloto reúne 11 estados: Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Pará, Piauí, Rondônia, Roraima e Tocantins. O projeto reúne conteúdos ligados a turismo social, cultura, gastronomia, experiências e qualificação profissional.
Segundo Sampaio, a proposta vai além da promoção dos destinos e envolve a aplicação coordenada de recursos e ações para qualificar a oferta turística.
Questionado sobre a interdependência existente entre as diversas atividades do turismo, o dirigente resumiu o conceito do programa. “É a interdependência entre o comércio, o serviço e o turismo materializada em uma plataforma que a gente quer considerar para a expansão no Brasil inteiro.”

Projeto pode avançar para todo o país
O Conexão Turismo ainda está em fase de consolidação. Segundo Alexandre Sampaio, a experiência inicial deverá agora servir como base para uma discussão dentro da CNC sobre sua ampliação nacional.
“Ele foi lançado basicamente no que denominamos Amazônia Legal, envolvendo as Federações do Comércio e os seus conselhos de turismo em toda a região amazônica e também alguns estados. A ideia é levar para a alta direção da CNC a possibilidade de expandirmos isso para o Brasil inteiro.”
O lançamento da plataforma na ABAV Expo marca, segundo ele, uma nova etapa dessa estratégia. “O Conexão está sendo consolidado. A gente vai levar uma proposta para que ele possa cumprir um papel de fazer isso em todo o Brasil no decorrer do ano que vem.”
A plataforma oficial já apresenta destinos e experiências dos estados participantes e reúne as iniciativas de qualificação e desenvolvimento promovidas pelo Sistema Comércio. Segundo a CNC, 93,4% das ações planejadas na primeira fase foram executadas, enquanto as matrículas em atividades de educação profissional cresceram, em média, 15,1%.

“O desafio agora é fazer com que isso seja perene”
Ao analisar o cenário para 2027, Sampaio reconhece que o turismo apresentou forte desempenho em 2026, mas pondera que parte desse avanço precisa ser analisada diante de uma base de comparação anterior mais frágil.
“O Brasil cresceu muito no turismo em 2026. Mas devemos dizer o seguinte: a gente partiu de uma base muito frágil também. Então, esse aumento em cima de uma base estatística pequena se torna grande.”
Para ele, a prioridade agora deve ser transformar a recuperação em um processo sustentável. “O desafio agora é fazer com que isso seja perene, que cresça estatisticamente mais, de uma maneira mais vigorosa, superando os gargalos que a gente sabe que tem.”
Sampaio também avalia que o ambiente internacional contribuiu para aumentar a procura pelo Brasil, mas considera que o país não pode depender de fatores externos para sustentar sua expansão.
“É claro que o turismo também cresceu em nível internacional em um quadro adverso, de uma guerra europeia e também de uma guerra no Oriente Médio, que produziu um direcionamento de turismo para cá. Mas a gente não pode ficar à espera só disso. Tem que fazer mais.”

Sampaio cobra maior protagonismo para o turismo
Ao abordar o próximo ciclo de governo, Alexandre Sampaio defendeu maior relevância institucional e orçamentária para o Ministério do Turismo.
“O Ministério do Turismo não pode ser mais um ministério de fechamento de governo. Tem que ser um ministério proeminente, tem que ter uma dotação orçamentária adequada.”
A avaliação do dirigente é de que o setor chegará a 2027 diante de uma série de desafios que exigirão maior articulação entre governo e iniciativa privada.
“Os desafios no ano que vem são inúmeros. A gente não sabe que governo vai vir por aí, não sabemos qual será a política para o turismo.”
Na visão de Sampaio, o mercado amadureceu, mas ainda precisa superar gargalos estruturais para competir e continuar avançando.
“Acho que nós já temos amadurecido. Mas todo esse processo precisa ser melhor compreendido e ajudado pelo sistema, para que as empresas possam ter uma gestão mais promissora e mais competitiva.”
Reforma tributária preocupa hotelaria
Entre os principais pontos de atenção citados pelo presidente da FBHA está a implementação da reforma tributária.
A legislação estabelece redução de 40% das alíquotas de IBS e CBS para os serviços de hotelaria. Entretanto, também determina que quem contrata esses serviços não poderá se apropriar dos respectivos créditos tributários.
É justamente esse último ponto que preocupa Sampaio, sobretudo no mercado de viagens corporativas.
“A gente precisa fazer com que haja uma revisão disso e fazer com que os hotéis possam, no turismo corporativo, gerar crédito para as empresas.”
Segundo o dirigente, o impacto pode ultrapassar os limites da hotelaria e atingir outros segmentos da cadeia turística.
“Cerca de 50% do turismo de hospedagem no Brasil é corporativo. A gente precisa fazer com que haja uma revisão disso. Senão, vamos ter uma baixa muito grande, as empresas vão preferir fazer reuniões on-line e isso prejudica toda a cadeia do turismo.”
Ao ser questionado sobre a possibilidade de mudanças nesse ponto, Sampaio afirmou que ainda enxerga espaço para discussão.
“O processo de revisão da reforma tributária está em curso. Então, tudo é possível de ser discutido.”
Aviação regional é importante, “mas não é possível crescer só com ela”
A tributação do transporte aéreo também entrou na análise do dirigente. Para Alexandre Sampaio, a aviação regional terá papel importante na ampliação dos destinos atendidos, mas não será suficiente, sozinha, para sustentar o crescimento do turismo brasileiro. “Não é possível a gente crescer só com a aviação regional. A aviação regional vai ter um papel importante, que é acrescentar novos destinos.”
Para o diretor da CNC, ampliar a conectividade do país exige olhar também para as rotas que sustentam os grandes fluxos turísticos. “Devemos procurar que o governo revise essa taxação das companhias aéreas.”
A questão volta, na avaliação de Sampaio, ao conceito que permeou sua participação na ABAV Expo: a interdependência da atividade turística. Mudanças que atingem hotéis ou empresas aéreas, argumenta, acabam alcançando também eventos, gastronomia, comércio, agências e os próprios destinos.
E é justamente por isso que ele vê 2027 como um ano decisivo para transformar o crescimento observado em 2026 em um movimento mais consistente. “O desafio agora é fazer com que isso seja perene.”





