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Eleições 2026: o turismo do Rio precisa de propostas, não de promessas

Nas eleições de 2026, precisamos ouvir propostas, números, orçamento, cronogramas e compromissos. Turismo não é adereço administrativo: é atividade econômica, emprego, renda, arrecadação, cultura, desenvolvimento regional e instrumento de transformação social.

Por Bayard Do Coutto Boiteux*

Chega de tratar o turismo como fotografia de campanha. Em períodos eleitorais, candidatos descobrem praias, hotéis, restaurantes, festas populares e cartões-postais, repetem que o Rio de Janeiro possui uma “vocação natural para o turismo” e, depois das eleições, muitas vezes o setor volta a ocupar posição secundária na estrutura pública. Nas eleições de 2026, precisamos inverter essa lógica. Quero ouvir propostas, números, orçamento, cronogramas e compromissos. Turismo não é adereço administrativo: é atividade econômica, emprego, renda, arrecadação, cultura, desenvolvimento regional e instrumento de transformação social.

O primeiro compromisso deveria ser a construção de um Plano Estratégico de Turismo do Estado do Rio de Janeiro, com horizonte de pelo menos dez anos, metas anuais e mecanismos públicos de acompanhamento. Governos mudam, secretários mudam, mas políticas estruturantes não podem começar novamente a cada quatro anos. Precisamos definir onde queremos chegar, quais mercados queremos conquistar, quanto pretendemos aumentar a permanência média dos visitantes, como ampliar a ocupação hoteleira fora dos períodos de alta demanda e, principalmente, como distribuir os benefícios do turismo pelo território fluminense.

Minha segunda proposta é uma ampla profissionalização da gestão pública municipal do turismo. O Estado do Rio de Janeiro possui municípios extraordinários turisticamente, mas realidades administrativas muito diferentes. Uma Secretaria Municipal de Turismo não pode existir apenas para organizar festas, apoiar eventos e produzir material promocional. Gestão turística exige planejamento, orçamento, conhecimento de mercado, estatísticas, captação de recursos, elaboração de projetos, marketing digital, sustentabilidade, acessibilidade, segurança e capacidade de articulação com empresários e trabalhadores.

Defendo, portanto, a criação de um Programa Estadual de Qualificação da Gestão Municipal do Turismo, com workshops permanentes destinados a secretários municipais, subsecretários, assessores e equipes técnicas. Esses encontros deveriam abordar planejamento estratégico, elaboração de projetos, captação de recursos, construção de calendário turístico, pesquisa de demanda, gestão de crises, comunicação, promoção digital, inteligência artificial aplicada ao turismo, sustentabilidade, acessibilidade, segurança turística e relacionamento com o trade. Mais do que encontros protocolares, seriam oficinas práticas, com estudos de casos e construção de projetos que cada município pudesse levar para sua realidade.

E acrescentaria uma exigência: turismo precisa de conhecimento técnico. Nomeações são atribuição dos governantes eleitos, mas as equipes responsáveis pelo setor deveriam possuir formação ou experiência compatível e receber capacitação permanente. Não podemos exigir profissionalização de hotéis, agências, restaurantes e guias e aceitar improvisação justamente na gestão pública responsável por planejar o destino.

Outra prioridade é transformar o interior em protagonista. O turismo fluminense não começa no Aeroporto Internacional e termina em Copacabana. Temos Serra Verde Imperial, Costa Verde, Costa do Sol, Vale do Café, Caminhos da Mata e inúmeros municípios com patrimônio histórico, natureza, gastronomia, cultura e capacidade de atrair visitantes. Precisamos estruturar produtos integrados, melhorar a sinalização, fortalecer os calendários regionais e estimular roteiros que combinem diferentes municípios. O visitante que chega ao Rio deve ser convidado a descobrir o estado.

Precisamos também de informação turística de qualidade. Defendo uma plataforma digital única do turismo fluminense, multilíngue, reunindo destinos, atrativos, eventos, transportes, guias cadastrados, informações de segurança, acessibilidade e serviços essenciais. O turista contemporâneo está conectado. Continuar pensando promoção apenas por folhetos, estandes e participação em feiras é ignorar uma transformação que já aconteceu.

A promoção turística também precisa ser profissionalizada. Campanhas devem nascer de pesquisa, segmentação de mercado e avaliação de resultados. Quanto foi investido? Quantas pessoas foram alcançadas? Houve aumento de procura, reservas ou permanência? Quais mercados responderam melhor? Marketing turístico pago com dinheiro público precisa apresentar resultados mensuráveis. Não podemos confundir divulgação com estratégia.

Defendo ainda um programa estadual permanente de qualificação dos profissionais da linha de frente: guias de turismo, taxistas, motoristas, recepcionistas, garçons, comerciantes, agentes públicos e trabalhadores que mantêm contato cotidiano com visitantes. Idiomas, hospitalidade, acessibilidade, conhecimento do destino e atendimento intercultural deveriam fazer parte dessa política. Muitas vezes o visitante se lembrará mais de como foi tratado do que do monumento que fotografou.

E chegamos à segurança. Defendo um Plano Integrado de Segurança Turística, começando pelo fortalecimento do BPTur. É necessário aumentar seu contingente e ampliar sua atuação para os principais municípios turísticos do estado. Um batalhão de áreas turísticas não pode ser pensado essencialmente a partir da capital quando milhões de deslocamentos turísticos acontecem no interior. Costa Verde, Região dos Lagos, Serra e Vale do Café, entre outras áreas, precisam participar de um planejamento especializado de segurança, articulado com as unidades policiais locais.

Também proponho uma gratificação adicional para os policiais que efetivamente atuem no BPTur, observados os requisitos legais e orçamentários, como instrumento para atrair e manter profissionais qualificados nessa atividade especializada. Esses policiais deveriam receber capacitação em idiomas, turismo, atendimento ao visitante e direitos humanos. Ao final de cada ano, um programa de reconhecimento poderia premiar os profissionais que mais se destacassem, com critérios públicos e objetivos. Quando atuei na Riotur, criei uma experiência de premiação e aprendi que reconhecer quem presta um serviço de excelência também é uma maneira de valorizar o servidor e fortalecer a instituição.

Defendo igualmente a retomada e o fortalecimento de um Conselho de Segurança Turística, reunindo Turismo, Segurança Pública, BPTur, DEAT, municípios, universidades e representantes do setor. Quando atuei na Riotur, participei da criação de mecanismos dessa natureza e continuo convencido de que turismo e segurança precisam conversar permanentemente, e não apenas depois que uma ocorrência ganha repercussão.

A DEAT também precisa ser fortalecida, com atendimento multilíngue, maior divulgação e utilização intensiva de tecnologia. O turista que sofre um delito precisa saber imediatamente onde buscar auxílio. Um canal digital integrado poderia oferecer orientação, localização das unidades de atendimento, procedimentos iniciais e informações emergenciais em diferentes idiomas.

Há ainda uma proposta que considero indispensável: um Observatório Estadual do Turismo, capaz de produzir e organizar informações confiáveis. Quantos turistas efetivamente recebemos? De onde vêm? Quanto gastam? Quanto tempo permanecem? O que visitam? Por que retornam ou não retornam? Política pública sem dados corre o risco de ser apenas intuição. Precisamos de números transparentes, metodologias claras e informações disponíveis para universidades, imprensa, empresários e sociedade.

Também devemos estimular turismo cultural, gastronômico, rural, religioso, de natureza, negócios, eventos, saúde, esportes e turismo de experiência. O Rio não pode depender apenas de sol, praia, Carnaval e Réveillon. Esses produtos são extraordinários, mas a diversificação reduz a sazonalidade e permite distribuir visitantes e renda ao longo dos doze meses do ano.

Precisamos ainda discutir acessibilidade com seriedade. Um destino que não consegue receber adequadamente pessoas com deficiência, idosos ou pessoas com mobilidade reduzida não pode se apresentar como plenamente preparado para o turismo contemporâneo. Atrativos, transportes, informações e equipamentos turísticos devem avançar progressivamente para um padrão universal de acolhimento.

Quero também ver candidatos falando de orçamento para o turismo. Não existe política pública sem recursos. Quanto cada candidatura pretende destinar ao setor? Quais serão as prioridades? Como serão captados recursos federais e privados? Que parcerias serão estruturadas? Turismo não pode receber responsabilidades gigantescas acompanhadas de estruturas administrativas frágeis e recursos insuficientes.

E proponho algo simples: que os candidatos apresentem publicamente dez metas para os primeiros dois anos de governo na área do turismo, acompanhadas de prazos, custos estimados e indicadores. Depois, que a sociedade possa verificar o que foi realizado. A democracia se fortalece quando promessa eleitoral se transforma em compromisso mensurável.

Gostaria ainda de assistir a um grande debate dos candidatos dedicado exclusivamente ao turismo. Não cinco minutos para repetir lugares-comuns, mas um encontro sério com profissionais, universidades, empresários, trabalhadores, guias, gestores municipais e representantes das regiões turísticas. Quero ouvir respostas para perguntas concretas: quanto será investido, como será profissionalizada a gestão municipal, como o BPTur será ampliado, como o interior será promovido, quais mercados internacionais serão priorizados e quais resultados serão cobrados.

O Rio de Janeiro não precisa descobrir sua vocação turística. Ela existe há décadas. O que falta é transformar potencial em política pública continuada, profissional e mensurável. Menos improvisação, mais gestão. Menos slogans, mais orçamento. Menos fotografias diante dos cartões-postais, mais planejamento.

Nas eleições de 2026, turismo precisa deixar de ser promessa bonita e tornar-se compromisso de governo. O Rio já possui paisagens, história, cultura, criatividade e hospitalidade. O que devemos cobrar de quem pretende governá-lo é competência para transformar toda essa riqueza em desenvolvimento.


*Bayard do Coutto Boiteux é escritor, pesquisador e professor universitário. 

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