O turismo entre Brasil e México vive um novo momento de expansão, impulsionado pela facilidade do visto eletrônico e pelo aumento da demanda dos brasileiros por destinos caribenhos. Quem acompanha essa transformação de perto é Lilian Zanon, diretora comercial da AT Travel, receptivo especializado no atendimento a turistas brasileiros em Cancún.
REDAÇÃO DO DIÁRIO (Entrevista concedida ao jornalista Paulo Atzingen com edição de Clara Silva )
Em entrevista ao Diário do Turismo, Lilian relembrou sua chegada ao destino mexicano, ainda no início da operação dos voos charter, explicou como nasceu a necessidade de criar uma empresa voltada ao perfil do viajante brasileiro, falou sobre a parceria atual com a Jumbo Tours e destacou o impacto do visto eletrônico no crescimento recente do fluxo de passageiros.
Parceria com a Jumbo Tours fortalece operação
Atualmente, Lilian atua na direção comercial da AT Travel em parceria com a Jumbo Tours, empresa responsável pelo suporte logístico da operação no México.
Segundo ela, a parceria permite foco maior no relacionamento comercial e no atendimento ao mercado brasileiro.
“Eu continuo como sócia majoritária, mas hoje estou realmente mais focada na direção comercial”, afirmou.

“Cancún foi feito totalmente para americanos”
A história de Lilian com Cancún começou antes mesmo da criação da AT Travel. Ela chegou ao destino como guia base, acompanhando os primeiros voos da Aero Cancún e a expansão dos charters que passaram a ligar o Brasil ao Caribe mexicano.
“Eu fui para Cancún como guia base nos primeiros voos da Aero Cancún e em todos os charters que vieram depois. Fui contratada pela Ati Viagens e fui como guia base para Cancún, num momento em que Cancún estava começando”, relembrou.
Ela lembra que o destino havia sido planejado inicialmente para o público norte-americano, o que criava dificuldades no atendimento aos brasileiros.
“Cancún foi feito totalmente para americanos. Era complicado porque o brasileiro chegava lá sem o conhecimento do destino. Ele não sabia direito se era México, onde estava chegando”, afirmou.


Diferença entre americanos e brasileiros
Lilian explicou que havia uma diferença grande entre a forma como americanos e brasileiros reagiam a situações comuns na hotelaria, como overbooking e troca de hospedagem.
“O americano tinha overbooking, sobre venda, e chegava lá. Os hotéis colocavam em outros lugares melhores, davam uma série de benefícios, e eles ficavam felizes. Os brasileiros se sentiam lesados, mesmo quando iam para um hotel superior”, contou.
Ela relembrou situações curiosas envolvendo passageiros brasileiros que, mesmo recebendo upgrade, não se sentiam confortáveis com a mudança.
“Eu tive casos de passageiros que iam para um hotel superior e diziam que não tinham condições de estar naquele hotel porque não tinham roupa para usar. Então foi muito complexo, foi bem desgastante”, disse.
Na avaliação da empresária, o público brasileiro ainda estava descobrindo Cancún naquele período, em uma fase em que o destino era muito acessível para viajar.
“O brasileiro nem conhecia direito o destino. Foi no momento do dólar praticamente um por um, era baratíssimo”, recordou.


Operação aérea para o destino
Lilian também lembrou que a operação aérea teve papel decisivo no crescimento de Cancún entre os brasileiros.
“A Aero Cancún era uma companhia aérea do grupo Oasis. Eles usavam essa companhia para encher os hotéis. Depois a Varig também estava instalada lá, depois vieram outras charteiras, como Hervias e Passaredo. Foram todas operações muito complexas”, afirmou.
Para ela, o modelo de charter nem sempre combinava com o perfil do consumidor brasileiro.
“O brasileiro quer benefícios, quer benefícios. E charter é sem benefício. É a ponta da caneta, é o preto no branco”, explicou.

“Os receptivos não entendiam o brasileiro”
Foi justamente durante esse período de atendimento direto aos passageiros que Lilian percebeu uma oportunidade no mercado. Os receptivos locais ainda não compreendiam as necessidades e expectativas do brasileiro.
“Os receptivos não entendiam e não sabiam atender. Eu atendia como guia base todas essas pessoas e via as necessidades do brasileiro”, afirmou.
Com o crescimento da procura, a empresária decidiu estruturar uma operação própria.
“Chegou um momento em que eu decidi abrir a empresa porque realmente tinha uma demanda enorme. A gente chegou a ter 14 charters semanais. Era uma coisa louca”, contou.
A operação, segundo ela, envolvia passageiros de várias regiões do Brasil.
“Tinha voo saindo de Manaus, Belo Horizonte, Goiânia, Rio Grande do Sul, enfim, de todos os lugares. Foi uma loucura”, relembrou.
Lilian percebeu que o brasileiro precisava de um atendimento mais próximo, com explicação, acolhimento e suporte durante a viagem.
“Eu vi a necessidade de fazer uma empresa para os brasileiros do jeito que eles gostam. O brasileiro quer atenção e orientação”, destacou.

Foi então que, em 1992, adquiriu uma empresa já existente, chamada AT Travel, e passou a desenvolver o receptivo voltado ao mercado brasileiro.
“Eu comprei uma empresa que já se chamava AT Travel. Na minha cabeça, para mim, sempre foi atenção turística. Comecei a desenvolver a empresa e a atender todos os charters”, explicou.
Lilian também relembrou o período em que chegou definitivamente ao México. “Eu cheguei em 1992, fiquei quase três anos atendendo como guia base e depois montei a minha empresa”, afirmou.

Referências no turismo
Durante a entrevista, Lilian fez questão de reconhecer profissionais que foram importantes em sua trajetória. Entre eles, citou Afonso Louro, hoje ligado à EHTL, além de Marlene Garrido e Ana Maria Berto.
“Tem pessoas fundamentais. O Afonso Louro foi um mestre realmente. Sempre me ensinou, me respeitou e me fez crescer”, declarou.
Ela também destacou a força de mulheres que serviram como inspiração no setor.
“Meus espelhos também são mulheres poderosas. A Marlene Garrido e a Ana Maria Berto são referências que eu admiro muito. Tenho uma admiração incrível por elas”, disse.

Passeios preferidos dos brasileiros em Cancún
Questionada sobre os atrativos mais procurados pelos brasileiros, Lilian destacou Isla Mujeres como um dos passeios mais queridos.
“O que mais atrai o brasileiro sempre foi o passeio para Isla Mujeres. É um passeio em que ele vai naquele mar azul maravilhoso. Só de cruzar para chegar à ilha já é maravilhoso. É um passeio que todo mundo adora”, comentou.
Outro destaque é o Xcaret, parque que reúne natureza, cultura e estrutura turística.
“O Xcaret é um parque impressionante, com toda a cultura maia embutida e uma estrutura maravilhosa. Banheiros perfeitos, comida perfeita. Tudo isso atrai muito”, afirmou.
Na parte arqueológica, Chichén Itzá segue como uma das experiências mais desejadas pelos turistas.
“Na parte arqueológica, tem obviamente Chichén Itzá. Eles querem pelo menos tirar uma foto maravilhosa na pirâmide”, disse.
Lilian também ressaltou que os cenotes ganharam força entre os brasileiros nos últimos anos.
“Atualmente, os brasileiros descobriram os cenotes. Os cenotes estão muito em evidência”, explicou.
Ela citou o Rio Secreto como exemplo de experiência diferenciada.

“O Rio Secreto é um passeio em que você atravessa cenotes subterrâneos. Tem cenotes abertos e tem os de caverna subterrânea, que eles chamam de inframundo. Você usa roupa de neoprene e fica uma hora e meia debaixo da terra, naquela água gelada”, relatou.
Apesar do encantamento, Lilian fez uma ressalva bem-humorada.
“Se tem claustrofobia, aí está fora. Mas tem muitas opções abertas e muito bacanas”, brincou.
Copa do Mundo deve impulsionar Cancún
Lilian acredita que a Copa do Mundo de 2026 deve gerar reflexos positivos para o turismo no México e também para Cancún.
“O mais importante para Cancún é que a cidade será sede de duas equipes que vão se preparar lá”, afirmou.
Segundo ela, a malha aérea do destino é um dos grandes diferenciais para o período do Mundial.
“Cancún tem uma malha aérea que dá conexão para todos os lugares. Isso é incrível porque as pessoas podem ficar hospedadas em Cancún e ir para os lugares dos jogos”, explicou.
A empresária avalia que o México está em forte preparação para receber turistas de diferentes países.
“O México, como um todo, está em uma preparação incrível. O mexicano ama o brasileiro e ama futebol”, afirmou.
Ela também destacou a qualidade do atendimento mexicano como um ponto forte.
“O país está se preparando inclusive com programas de excelência em atenção, que é o forte do mexicano: atender bem. Vai ter uma influência muito positiva para o destino”, disse.

“O visto eletrônico foi uma conquista incrível”
Na avaliação de Lilian, a implementação do visto eletrônico mexicano – que começou em fevereiro deste ano, foi decisiva para o crescimento recente do fluxo de brasileiros.
“O visto eletrônico foi uma conquista incrível. Isso realmente nos ajudou muito”, afirmou.
Segundo ela, os resultados já aparecem de forma expressiva, as reservas aumentaram de imediato em 20%, contabiliza.
“Para você ter uma ideia, em abril a gente já superou o número de passageiros do ano passado. Em quatro meses”, revelou.
“O visto bombou. Bombou de brasileiro”, disse.
Ela explicou que o processo ficou mais simples e barato. “Hoje o visto é praticamente uma autorização que custa só 10 dólares. Você faz eletronicamente com a foto do passaporte e uma foto da pessoa”, explicou.
A empresária também deu uma dica prática para evitar problemas na solicitação.
“Uma dica importante é que quase nunca a pessoa tem o mesmo rosto da foto do passaporte. Então eu recomendo usar uma foto o mais parecida possível com a do passaporte, para não ter problema”, orientou.
Para Lilian, a facilidade trouxe um avanço muito forte para o destino. “Está sendo maravilhoso. É um incremento imensurável”, concluiu.
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