Cheguei à Gard Cervejaria Artesanal um pouco incrédulo: será que no meio desta floresta de araucárias teria mesmo uma cervejaria? As placas indicativas, propositalmente pouco informavam e o acesso, embora bem cuidado, não indicava fluxo de carros ou pessoas. Eram essas as ideias: indicação boca a boca, negócio nem um pouco viralizado e uma comunicação que a poucos é dado lê-la.
Por Paulo Atzingen, de Campos do Jordão*
Fomos recebidos por Júlio Camargo de Carvalho, fundador da Cervejaria Gard, e sócio da Aventoriba empresa que oferece aventuras de todos os estilos e formatos no Horto Florestal Campos do Jordão.
Antes de falarmos de cerveja propriamente, e bebê-la porque líquida, Júlio, a meu pedido, iniciou uma síntese da história do horto florestal e linkando o passado, tempo das capitanias hereditárias ao presente, ou seja, sua própria história ali em meio às árvores centenárias.
Estávamos em um local marcado por acontecimentos históricos anteriores à fundação de Campos do Jordão. “No fim do século XVIII, a região foi palco de uma disputa territorial entre Minas Gerais e São Paulo, iniciada após a redefinição das divisas das capitanias hereditárias. O conflito durou cerca de 30 anos e só foi encerrado por determinação imperial, que consolidou a área definitivamente sob o território paulista,” conta-me Júlio, quando chega à mesa a régua com as cervejas artesanais, fazendo uma espécie de intervalo na aula de história.
Munich Helles

A régua trazia os nomes das cervejas escritas bem legíveis. A primeira degustação foi a Munich Helles, da escola alemã. “É uma cerveja clássica e extremamente leve. Considerada a bebida cotidiana na Alemanha e um símbolo da Oktoberfest atual”, explica o cervejeiro.
Brigadeiro Jordão não veio

Após a primeira cerveja, que desceu goela abaixo lavando a alma interior, Júlio adianta-me que por volta de 1830 e 1840, o tesoureiro de Dom Pedro, o Brigadeiro Jordão, decidiu adquirir a então Fazenda Natal — que compreendia a extensão total da atual Campos do Jordão. “A sede da fazenda situava-se onde hoje é a Vila Capivari, enquanto este local servia como um posto de guarda avançado. Curiosamente, o Brigadeiro Jordão nunca visitou suas terras”, afirmou.
Weizen

Na sequência, degustamos a Weizen, a tradicional cerveja de trigo. “Historicamente, era uma bebida reservada à nobreza alemã, visto que o trigo era um insumo controlado, priorizado para a panificação; sua produção era restrita e exclusiva à aristocracia. Em Munique, é habitual harmonizar esta cerveja com a salsicha branca”, conta o cervejeiro historiador, que ironicamente é formado em Direito.
Ciclo do Ouro

Após a Weizen, Júlio conta que a região foi de extrema importância durante o Ciclo do Ouro. “O ouro foi descoberto em Itajubá, a apenas 30 km daqui, antes mesmo de Ouro Preto. Esta área era conhecida como a “rota proibida” ou “Mantiqueira proibida”, utilizada para contrabandear o metal precioso para evitar a fiscalização da Coroa e o pagamento do quinto constitucional. Com o declínio do ouro, o tropeirismo passou a mover a economia, conectando o abastecimento do Vale do Paraíba ao interior de Minas Gerais.
Tmavé

Encerrando a escola alemã, passamos para a Tmavé, uma Dark Lager da escola tcheca. “Esta cerveja é produzida seguindo a mesma receita de um tradicional pub em Praga, datada de 1498. Trouxemos esta receita de forma inédita ao Brasil em 2018, e ela foi eleita uma das cinco cervejas mais interessantes do mercado” conta . Em 2022, conta, que submeteu este rótulo a um concurso às cegas na República Tcheca, competindo com 32 cervejarias locais. “Conquistamos o quarto lugar e uma menção honrosa, um feito notável, considerando o desafio dos jurados em identificar nossa origem em meio a tantas cervejarias tradicionais europeias”, comemora.
Gesto notável do avô

Júlio retoma a história relatando que com a morte do brigadeiro Jordão, a região onde estava foi dividida entre seus herdeiros, e esta área específica passou a ser chamada de Fazenda da Guarda, em referência ao seu histórico de defesa da fronteira. “Posteriormente, meu avô, um imigrante dinamarquês, adquiriu a propriedade. Quando o Estado de São Paulo decidiu desapropriar a região, em 1942, para proteger a araucária, meu avô fez um gesto notável: doou 2.500 alqueires — um terço da cidade — para a criação do que hoje é o Horto Florestal. Em contrapartida, manteve uma gleba para a família, comprometendo-se a explorá-la em harmonia com o meio ambiente”, conta-me com uma emoção genuína.
India Pale Ale (IPA)

A última cerveja da régua era uma India Pale Ale (IPA) da Gard. “É uma cerveja mais robusta, rica em lúpulo, que proporciona o amargor clássico esperado deste estilo. Nossa IPA é reconhecida como um marco da Gard Cervejaria — sendo, inclusive, a cerveja que estou apreciando neste momento”, explica Camargo propondo um brinde.
Blend e Economia Circular

Blend de cervejas e histórias
Este blend de cervejas e histórias que vocês leram agora, serviu para potencializar ainda mais meu Bleisure travel, aqui em Campos do Jordão. Júlio é um genuíno anfitrião e tem como herança o compromisso de perpetuar a riqueza herdada de seus ancestrais com ações sustentáveis. “Na Gard, honramos esse compromisso através de uma operação de baixo impacto ambiental, focada em uma cervejaria artesanal sustentável. Praticamos a economia circular, reaproveitando resíduos da produção para a alimentação dos animais da fazenda. Assim, mantemos viva uma história que atravessa séculos, unindo o legado do passado à responsabilidade ambiental do presente”, sintetizou.
Ao voltar para a cidade, tive a certeza que mais um ciclo de ouro estava em curso, agora, sem sangrias e açoites, mas com equilíbrio, direitos, deveres, sustentabilidade e boas doses da bebida fermentada mais deliciosa do planeta!!.

GARD CERVEJARIA ARTESANAL
Microcervejaria GARD: Aberta todos os dias, das 11h00 às 17h00.
Rua Pedro Paulo, s/n, Horto Florestal
Facebook: GARD Cervejaria
Instagram: @gardcervejaria

*Paulo Atzingen é jornalista e fundador do DIÁRIO DO TURISMO
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