Nada vai reparar a dor da tragédia em Brumadinho

por Paulo Atzingen*

Morrer afogado em lama deve ser pior que morrer afogado no mar. Talvez seja igual a ser incinerado vivo. Diferente de mortes instantâneas em que o link do ser para o não ser acontece em menos de um segundo. Antes uma dor intensa do que uma dor extensa sempre disse, para justificar a covardia do pouco-a-pouco, do mais ou menos, da tortura psicológica, desde casamentos afundados mas ainda válidos para manter as aparências, até funcionários públicos e/ou privados que morrem de desgosto todo dia pois detestam o que fazem, mas estão ali por causa do salário. E são desses que vou falar.

Essa (re)lama que chega a nossos lares por meio dos canais de TV traz pela segunda vez um filme de terror, uma ridícula constatação da nossa síndrome da rejeição ao que aparentemente não mais tem utilidade. Somos, como brasileiros, incrivelmente relapsos com a prevenção de nosso patrimônio. É assim com museus, é assim com idosos, é assim com doentes, é assim com barragens de rejeitos.

Aliás, a síndrome do rejeito é marca registrada dos burocratas de plantão. Sim, eu falo por enquanto dos técnicos e engenheiros da CVRD que, com seus salários altos e pagos em dia não utilizaram os métodos científicos adequados para prever essa catástrofe em Brumadinho. Ou, pior, por detestarem o que fazem cumpriram o script do mal funcionário: não utilizaram método nenhum por incompetência, inépcia, burrice, preguiça.

Essa tragédia humanitária, esse drama que as famílias de quem morava naquele vale e também  dos parentes dos funcionários da Vale atinge frontalmente o brasileiro, que tem nesse início de ano, suas esperanças renovadas. E não falo aqui meramente de governo novo. Falo de vida nova, aquela que vem embutida em janeiro.

Este show de horrores que assistimos nestes dias 25 e 26 de janeiro  – com corpos sendo resgatados da lama – alguns ainda vivos – casas e lares desaparecidos do mapa para sempre e familiares desesperados em busca de notícias de seus entes, tem servido para mostrar pelo menos uma nova maneira de reação à catástrofe em termos governamentais. Mas isso não perdoa os responsáveis.  O trabalho da Defesa Civil, do Corpo de Bombeiros, de Voluntários e da Imprensa tem uma força vital de esperança e nos dá a centelha de que nem tudo está perdido. Como na guerra, percebemos com esse desastre que  (ainda) existe humanidade entre nós.

A despeito da grana perdida que está em jogo nas planilhas da CVRD, e, tenha certeza: tem tecnocrata lá dentro já calculando os prejuízos antes que os corpos sejam contados, mesmo a despeito disso, a solidariedade no coração das pessoas em querer ajudar é acachapante. Uma senhorinha está lá em Brumadinho para dar abraços e consolar as pessoas que perderam gente ali.

A dor da perda é imensa e lenta. E agora, nesse momento, ninguém vai amenizar, nem o acalento da senhorinha, nem o 1 bilhão que o governo vai liberar para Minas; essa mania brasileira de achar que só dinheiro resolve o problema!!!! Nada e ninguém vai reparar essa dor, nem mesmo dar prisão perpétua aos técnicos e engenheiros ineptos – que detestam o que fazem e são responsáveis por matar tanta gente da forma mais desesperadora que se tem notícia.

Paulo Atzingen
Paulo Atzingenhttps://www.diariodoturismo.com.br
Paulo Atzingen é paulista e jornalista profissional (DRT-185 PA) desde o ano 2000; cursou Letras e Artes e Comunicação Social na Universidade Federal do Pará (UFPA), É poeta, contista e cronista. Estuda gaita (harmônica).

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