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Rio em alerta: sem Segurança Pública, não há turismo forte

O Rio de Janeiro não precisa provar ao mundo que é bonito. Sua geografia já fez esse trabalho com uma generosidade quase provocadora. O que precisa provar, todos os dias, é que consegue transformar beleza em qualidade de vida, desenvolvimento e confiança. Não existe turismo forte onde o medo determina caminhos, horários e comportamentos.

Por Bayard Do Coutto Boiteux*

Os números do turismo impressionam. Em 2025, a cidade recebeu 12,5 milhões de visitantes, que movimentaram cerca de R$ 27,2 bilhões. Aproximadamente 2,1 milhões eram estrangeiros, crescimento de 44,8% em relação ao ano anterior, segundo dados divulgados pela Prefeitura. No Estado, foram quase 2,2 milhões de turistas internacionais, recorde histórico. São resultados extraordinários, mas números espetaculares não podem funcionar como maquiagem para problemas que continuam nas ruas.

Segurança não pode ser tratada como detalhe na política de turismo. É infraestrutura turística. Tão importante quanto aeroportos, hotéis, transportes, sinalização e promoção internacional. De que adianta seduzir o visitante com imagens do Cristo Redentor, do Pão de Açúcar e de Copacabana se, ao desembarcar, ele recebe um manual informal de sobrevivência: não use o celular aqui, evite aquela rua, não caminhe naquele horário, cuidado com seus pertences?

Rio e Segurança Pública: incorporação de novas tecnologias

A violência carioca ganhou ainda um componente assustador: a incorporação de novas tecnologias pelo crime organizado. Drones, originalmente associados ao lazer, à fotografia, ao monitoramento e a inúmeras aplicações profissionais, passaram também a ser utilizados por grupos criminosos para vigilância de territórios e acompanhamento da movimentação policial. Há registros recentes no Rio de emprego desses equipamentos inclusive em ações ofensivas. O crime se modernizou. A pergunta incômoda é se o Estado conseguiu fazer o mesmo.

Quando traficantes incorporam tecnologia às suas estratégias, o poder público precisa responder com inteligência e capacidade tecnológica ainda maiores. Não basta colocar mais homens nas ruas, multiplicar viaturas ou realizar operações que produzem imagens espetaculares para os telejornais. A criminalidade do século XXI exige uma segurança pública do século XXI. Inteligência, investigação, integração de informações, tecnologia, equipamentos adequados e formação permanente precisam substituir improvisação e espetáculo.

Existe algo simbolicamente devastador nessa realidade. O céu de uma cidade turística deveria servir para revelar suas paisagens, produzir filmes e fotografias e mostrar ao planeta a beleza extraordinária do Rio. Não deveria transformar-se em mais um território de disputa entre o Estado e organizações criminosas. Quando até o espaço aéreo passa a integrar a lógica da violência, é impossível fingir que estamos diante dos mesmos desafios de décadas atrás.

O medo também foi sendo incorporado à rotina. O carioca aprende a esconder o telefone, escolher caminhos considerados menos perigosos, observar quem se aproxima e calcular a hora de voltar para casa. O turista rapidamente aprende a mesma cartilha. Transformamos precauções excepcionais em hábitos cotidianos e, talvez sem perceber, fomos entregando pequenos pedaços de nossa liberdade. Quando o medo começa a organizar a experiência urbana, alguma coisa está profundamente errada.

Os indicadores oficiais revelam uma realidade que não comporta discursos simplistas. O relatório Segurança em Números 2026, do Instituto de Segurança Pública, registrou 3.881 vítimas de letalidade violenta no Estado em 2025, crescimento de 1,9% sobre o ano anterior, enquanto outros indicadores apresentaram redução. Segurança pública não pode continuar sendo uma guerra de narrativas na qual governo escolhe o número que deseja comemorar e oposição seleciona aquele que melhor alimenta o medo. A população não precisa de propaganda. Precisa de resultados.

O turismo sofre especialmente com a percepção de insegurança. Uma ocorrência envolvendo um visitante pode atravessar fronteiras em segundos pelas redes sociais. Uma imagem negativa reproduzida milhares de vezes pode comprometer anos de promoção. Não adianta investir milhões para construir uma marca turística internacional se a experiência cotidiana ameaça destruí-la. O visitante pode até esquecer o preço de uma diária ou de um jantar. Dificilmente esquecerá o medo que sentiu numa viagem.

Rio e Segurança Pública: descentralização turística

Também me preocupa profundamente o discurso sobre descentralização turística. Queremos apresentar um Rio além dos cartões-postais tradicionais, levando visitantes à Zona Norte, ao subúrbio e aos inúmeros territórios culturais, históricos e gastronômicos ainda pouco explorados. Esse é o caminho para democratizar economicamente o turismo. Entretanto, não existe descentralização verdadeira enquanto o medo continuar desenhando o mapa turístico da cidade. Não podemos falar em novos roteiros se determinadas regiões permanecem simbolicamente riscadas do mapa pela insegurança.

Segurança turística precisa deixar de ser lembrada apenas durante grandes eventos ou depois de ocorrências de repercussão. Polícia especializada é necessária, mas insuficiente. Precisamos de prevenção, iluminação, ordenamento urbano, transporte eficiente, inteligência, tecnologia, informação ao visitante e integração permanente entre turismo e segurança. Se o crime se moderniza, o Estado não pode permanecer analógico.

Turismo também significa emprego e sobrevivência. Os bilhões movimentados pelos visitantes chegam a hotéis, restaurantes, bares, guias de turismo, transportes, comércio, cultura, artesanato e milhares de pequenos negócios. Quando a insegurança afasta visitantes, não perdemos apenas divisas ou posições em rankings internacionais. Perdemos oportunidades, investimentos, empregos e renda.

Recuso dois discursos igualmente nocivos: aquele que transforma o Rio numa cidade irremediavelmente dominada pela violência e aquele que tenta esconder seus problemas atrás de cartões-postais. O Rio não precisa de maquiagem nem de condenação. Precisa de coragem para enfrentar a realidade. Amo profundamente esta cidade e justamente por isso me recuso ao silêncio confortável. Amar o Rio não significa aplaudir tudo; significa cobrar, questionar e exigir soluções. O Rio já conquistou o desejo do mundo, mas precisa conquistar definitivamente sua confiança. Quando até drones passam a integrar o arsenal tecnológico do crime, não podemos continuar oferecendo respostas de ontem aos problemas de amanhã. Segurança é cidadania, desenvolvimento e turismo. E uma cidade só será verdadeiramente maravilhosa quando sua população e seus visitantes puderem olhar para o céu para admirar sua beleza — e não para procurar de onde poderá surgir uma ameaça.

**Bayard Do Coutto Boiteux é escritor, professor e pesquisador – site pessoal: www.bayardboiteux.com.br

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