Pesca esportiva mobiliza pescadores, empresários e autoridades em busca de novas oportunidades para o município de Caroebe, onde ocorre o festival dedicado ao peixe amazônico
Por Beatriz Prill – especial para o DIÁRIO
Caroebe é uma cidade pequena no sul de Roraima, na divisa com o Pará. Cerca de 12 mil pessoas vivem ali, e boa parte do comércio, restaurantes e dos serviços se concentra na rua principal que atravessa a sede do município, antes popularizado pela produção de banana.
Nos últimos anos, porém, outro movimento começou a ganhar força. Pescadores de diferentes partes do Brasil passaram a chegar em busca do tucunaré. O peixe das bacias hidrográficas da Amazônia encontrou nas águas do lago Jatapu um dos cenários para a sua reprodução.
A pesca esportiva ainda é uma atividade recente em Caroebe, mas já começa a movimentar uma cadeia que vai além das margens do lago. Guias, empresários, autoridades públicas e entidades de apoio ao turismo e empreendedorismo enxergam a possibilidade de apresentar a região a visitantes e criar novas fontes de renda para os moradores.
É nesse movimento que está o maranhense Gilmar Fontes, de 36 anos. Ele chegou a Roraima aos dois anos de idade e cresceu às margens dos rios do município, pescando com o pai e criando, desde pequeno, uma relação próxima com a natureza. Há sete anos, transformou essa relação com as águas amazônicas em profissão e passou a trabalhar com turismo e pesca esportiva.
As horas de lazer e descanso se transformaram em atividade remunerada. “Estou desde o início da pesca esportiva aqui [em Caroebe], mas agora que a atividade está ganhando força. Fico feliz em ver a atividade atrair cada vez mais visitantes e despertar o interesse dos moradores”, comemorou Fontes.
Para Gilmar, a pesca faz parte da própria história. “Sempre pesquei pra comer, mas a pesca esportiva veio com o tempo. Como eu digo sempre, todo pescador esportivo já foi pescador artesanal”, disse ao ressaltar que, atualmente, como guia, proporciona uma experiência única para visitantes do Amazonas, Amapá, Rondônia, São Paulo e outros estados.
“A pescaria é uma aventura, não dá pra controlar, porque a gente depende do peixe”, contou o diferencial e avaliou esta nova fase de Caroebe, que tende a continuar crescendo. “A pesca esportiva mudou muito minha vida e traz muitos empregos para a região, movimenta a economia.”

Sabrina Viana, que comanda a Rota Norte Viagens, esteve em Caroebe durante uma experiência imersiva promovida pelo Sebrae Roraima para empresas de turismo receptivo do estado, dentro do projeto “Caroebe de Todos os Sentidos”. A proposta é aproximar os profissionais dos atrativos da região e, a partir desse contato, avaliar a estruturação de novos roteiros turísticos para o município.
“Estou surpresa com o nosso passeio aqui no lago, de ver o tucunaré pela primeira vez ao vivo, o ambiente de natureza, de tranquilidade, de receptividade aqui do pessoal da região, para que posteriormente a gente venha trazer ou criar roteiros com esse nicho”, planeja.
Para Kamyla Brasil, analista de turismo do Sebrae, a pesca pode ser o ponto de partida para ampliar a experiência do visitante. “O turismo está entre os setores que mais geram movimentação econômica, e, quando a gente potencializa o turismo, estamos falando de governança e de impacto no território. São meios de hospedagem, transporte, alimentação, pessoas e agências que trabalham com o turismo. Quando tudo isso se une, o desenvolvimento acontece.”
Represa se tornou viveiro de tucunaré

É no Lago Jatapu que os pescadores procuram o tucunaré. O reservatório surgiu a partir do represamento do rio Jatapu para a construção de uma hidrelétrica, entre 1991 e 1994, e ocupa uma área de mais de 7 mil hectares.
O nome científico do peixe Cichla vazzoleri. Em 2024, um deles, de 63 centímetros, foi homologado como recorde brasileiro e roraimense pela BGFA Recordes, a ‘Brazilian Game Fish Association’, entidade privada que estabelece critérios para homologação de recordes de peixes capturados na pesca esportiva.
O tucunaré, porém, não é originalmente de Roraima. Segundo Robson Oliveira, pró-reitor de Extensão da Universidade Federal de Roraima (UFRR), agrônomo e pós-doutor em Ciências Pesqueiras, a presença do Cichla vazzoleri em Caroebe está relacionada à proximidade com o Pará e à conexão hidrográfica entre os rios da região.
“Ele é nativo das bacias dos rios Trombetas e Uatumã, no Pará e no Amazonas, sendo o rio Jatapu um importante afluente desta região”, contou.
Festival do Tucunaré
Nos dias 12 e 13 de setembro, Caroebe realiza a quarta edição do Festival da Pesca Esportiva do Tucunaré. A competição deve reunir 200 pescadores de diferentes regiões do país.
Para o prefeito Osmar Filho, o evento também é uma maneira de apresentar o município para quem ainda não o conhece e movimentar negócios que vão além da pesca.
“Tudo isso vai fomentar a economia do município, através dos hotéis, postos de combustível, lojas de roupas, artesanato, enfim, tudo aquilo que os nossos empreendedores têm a mostrar. Já temos, inclusive, empresas interessadas em operar aqui no município”.
‘É difícil encontrar um tucunaré desse tamanho em outros lugares’, pescador Tiago Papan
O paulista Tiago Papan está em Caroebe desde março. Especialista em pesca esportiva, ele acompanha o estudo do tucunaré Cichla vazzoleri e participa do planejamento do festival em uma parceria entre a prefeitura, o Sebrae Roraima e outros apoiadores.
“A pesca esportiva está no meu DNA desde que eu nasci. É uma paixão que passa de avô pra pai e de pai pra filho. Aqui é um lugar que tem muito potencial”. A relação de Tiago com a pesca começou na infância, no Pantanal, ao lado do pai. Hoje, ele percorre diferentes regiões do país em busca de lugares com potencial para a atividade.
Durante uma demonstração de pesca às margens do Lago Jatapu, um tucunaré fisgou a isca em menos de cinco minutos.

“Vocês viram?! Já pegamos uns cinco peixes, e de excelente porte. É difícil encontrar um tucunaré desse tamanho em outros lugares. Tem gente que viaja dez anos seguidos pra Amazônia e não pega um peixe desse tamanho, e a gente vem aqui, com a água na altura do joelho, e pega um peixe desse. Imagina o restante dessa água?”
Papan defende a conservação da espécie. Ele conta que cresceu pescando no Pantanal com o pai e que, antes do avanço da legislação relacionada à pesca esportiva e às leis ambientais, acompanhou um período de forte redução dos estoques de peixes.
“É aquela velha frase: o peixe vivo vale mais. Então, por isso, a gente tem que preservar isso. Um pescador que vai pro rio ou pro lago, mata peixe e depois vende por uma mixaria acaba com a espécie”, critica e complementa repudiando formas de pesca com rede e espinhel.
“Eu tenho viajado o Brasil inteiro e vejo o quanto a pesca esportiva tem ajudado as cidades e os estados. Nos Estados Unidos, a pesca esportiva movimenta mais de 200 bilhões de dólares por ano, e, aqui no Brasil, a gente está custando para chegar nos três, mesmo com muito potencial.”




