Voltando ao Mundo-Sertão – por Thomas Bruno*

Nesses últimos dias, resolvi voltar ao meu Mundo-Sertão. A vontade era ver se a primavera já havia impactado aqueles rincões acatingados. Está muito seco, é bem verdade. Há tempos não chove, mas ao passar por Catolé de Boa Vista, já é possível contemplar Craibeiras e Ipês amarelos explodindo seu dourado em meio aos carrascais acinzentados, um belíssimo destaque que sobressalta aos nossos olhos aqui e acolá. A Craibeira de Daniel Duarte, em um outeiro da BR 412 de onde primeiro se avista a majestosa Serra Branca, começou a florar timidamente na base da copa. Acredito que em menos de trinta dias estará toda amarelinha. O caminho é animado com a floração de algumas árvores. A Aroeira tem botado uma sementinha que os periquitos-da-caatinga adoram. Em bandos, pintam os céus de verde bandeira. Já na Praça Cônego João Marques Pereira, no centro de Serra Branca, temos Ipê rosa esbanjando suas flores.

A ‘morada dos pássaros’, o Sítio Bento de Várzea Nova do meu amigo Prof. Zezito em Serra Branca está enfeitado de Craibeiras, todas amarelas, brilhando na paisagem. Daquele santuário das aves, me dirigi ao Sítio Colosso, ao norte, zona rural de Juazeirinho. Das últimas vezes que cortei aqueles caminhos por dentro entre as BRs 412 e 230, ia por Gurjão, seguindo um caminho antigo de chão batido e muito bonito. Passava pela Fazenda Pendência, área experimental de caprinos que foi palco para a série global ‘Onde nascem os fortes’, encantando a atriz Patrícia Pilar. Dali contornava a Serra dos Borges por sua porção à nascente e chegava a Juazeirinho pelo ‘Beco do Açude’. Dessa vez, optei por sair de Serra Branca por sua zona rural no sentido de São José dos Cordeiros, um caminho novo por onde andei há muitos anos, a época todas as estradas eram de chão, caminhos estreitos que requeriam muita atenção.

Os cocorutos dos Ipês amarelos entre algarobeiras no sítio Várzea Nova

Ipê Rosa na Praça Cônego João Marques Pereira

Manhã de sábado e, após espiar a feira de Serra Branca espalhada pelo novo asfalto, segui para Juazeirinho através da PB 200, indo ao encontro da PB 148. Estrada despossuída de carros, povoada de carroças e motos com reboques cheios de capim verdinho das vazantes, garantia alimentar dos rebanhos de bode e vacas leiteiras. Trabalho, era isso que via ao cruzar aqueles caminhos. Em ponte, passei pelo histórico Rio Taperoá duas vezes. A esquerda, bem ao longe, a Serra do Pico das terras de Taperoá nos saúda. Parei no acostamento por duas vezes aproveitando a solidão. Respirei fundo aquele ar já quente e de média umidade, lembrei das subidas de serra, com sede, buscando vestígios ancestrais. Lajedos silenciosos pareciam ouvir a voz dos Facheiros, que balançavam com os ventos, pancadas fortes que levantava a areia fina do leito do Taperoá. Cada redemoinho que se formava, lembrava a presença mítica da Comadre Florzinha, se fazendo lembrar que aquelas matas não estavam desprotegidas.

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Sigo a estrada por uma falha no coração da Serra dos Borges e avisto um santuário dedicado a Nossa Senhora Aparecida ladeada por uma imagem do Cristo na meia encosta da Serra, meu amigo Agenor Batista me informou que há peregrinos que visitam o santuário, até celebrações são realizadas ali, mais um monumento religioso de nosso estado.

Serra dos Borges, Juazeirinho-PB

Já na tranquilidade do Sítio Colosso, pude contemplar aqueles limites de Cariri com Seridó e perceber que as florações estão despertando um pouco mais tarde. Nessas andanças ainda fui a Taperoá e flagrei sua Matriz mudando de cor, trocando tons azuis por marrons e pasteis, cores que também foram recentemente usadas na Matriz de Juazeirinho, seria mera coincidência? Como eu queria que o belo, imponente e importante casario histórico de Taperoá tivesse a mesma atenção que o de Areia…

Retorno à Campina pela Mumbuca, matando a saudade de todos os lados. São José da Mata cresce e a bela vista do Serrotão é a majestosa porta de entrada da Rainha da Borborema, como é belo meu Mundo-Sertão.


*Thomas Bruno Oliveira é Historiador, Jornalista e escritor. Mestre em História, Cronista do Jornal A União, Colunista da Revista de Turismo; integra vários Institutos Históricos, a Academia de Letras de Campina Grande e a Abrajet.

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