InícioPolíticas de turismoBRAXIT - INTEGRAÇíO OU ENTREGANAÇíO?

BRAXIT – INTEGRAÇíO OU ENTREGANAÇíO?

RETRÔ 2018 – Publicado dia 18 de julho

*Luiz Olavo Baptista

Fala-se em Braxit, uma eventual saída do Brasil do Mercosul. Os partidários, certamente descontentes com as derivas do Tratado de Assunção, desejam que o país continue sua rota em busca de um desenvolvimento sustentável. Sem falar, de mais liberdade para a expansão de seu comércio exterior. Mas uma simples saída da instituição pode ser tão problemática quanto ocorre no Brexit.

A integração almejada na fundação do Mercosul era a de uma instituição de geometria varável. Com a elaboração progressiva de protocolos complementares que atendessem aos interesses de todos. E, no caso brasileiro, fossem levados ao Congresso e sanção do Presidente da República.

Fato é que, após alguns resultados úteis, o Mercosul perdeu o rumo e tornou-se institucionalmente obsoleto. Sabemos que uma revisão das políticas do Brasil nas relações internacionais com seus vizinhos é necessária para adequá-las às novas realidades. E devem levar em conta dados geopolíticos e econômicos. A professora Deisy Ventura já comentava, as dificuldades que as assimetrias institucionais entre o Mercosul e a União Europeia acarretavam.

Consequências

Hoje vemos, sem surpresa, que as dificuldades decorrentes dessas assimetrias se refletem nas negociações dos dois grupos. Ações que rolam há décadas sem resultado. Isso porque a estrutura do Mercosul é, hoje, inadequada e ineficiente. O acordo entre ambos os blocos está travado há mais de 17 anos. E toda vez que uma resolução parece iminente, ocorre alguma mudança política – ou de objetivo – de qualquer país envolvido. E, aí, toda a negociação tem de ser modificada. Na última interrupção, a causa foi um entendimento – por parte da Polônia – de que os termos prejudicariam sua agricultura.

Em um caso como esse, se estivéssemos negociando sozinhos com a União Europeia, deixaríamos de fora os produtos poloneses e faríamos as tratativas diretamente abrangendo outros produtos. Outro exemplo é o projeto automotivo argentino, que só se mantém de pé por nossa causa. A contrapartida não foi boa: sustentamos uma fábrica de automóveis que custou R$ 1,5 bi fechada por dois anos, sem manufaturar nada, porque havia a obrigação de produzir os veículos na Argentina. Se feitos aqui, esses carros representariam exportação e emprego. Vê-se que a amarração do Brasil com o Mercado Comum do Sul é nociva para nossa economia.

Acordos

No curso das últimas crises globais e naquelas de alguns dos Membros do Mercosul, os acordos foram ignorados. O fato de que os mandatos presidenciais nos diversos países não coincidem nem cronologica nem ideologicamente e que o presidencialismo é encarado de forma diversa em cada um deles torna as coisas mais complexas e confusas.

Hoje a perspectiva da instituição é uma “crônica da morte anunciada”, como o romance de Gabriel García Márquez. Está a caminho de ser mais uma entre as organizações internacionais que sobrevivem não se sabe por que e sem relevância político-econômica.

O Brasil precisa reconhecer que não há uma zona aduaneira e que necessita de uma nova estrutura institucional, adequada à realidade atual e apta a ser útil ao país. Essa será a utilização de uma rede de acordos bilaterais que complementarão ou superarão as dificuldades das grandes negociações multilaterais, como as da OMC. Acordos bilaterais podem ser úteis e aprofundar a integração de modo eficiente.

Conceitos de Mercosul

Coexistem dois conceitos de Mercosul: um deles, bem-sucedido e útil, refere-se à integração mediante criação de acordos parciais para a eliminação de diversas barreiras ao comércio. Dentre elas as alfandegárias e as burocráticas, além da normalização de produtos e outras providências de interesse dos signatários. O outro conceito, obsoleto e ineficaz, é o de uma organização internacional que tenta emular a UE e cerceia a soberania brasileira. Esta última é a “entreganação” a que se refere o título deste artigo. O advento de mudança de rumos na Política Externa Brasileira erodiu o soft power que antes tínhamos e vem criando percalços nas negociações brasileiras.

Nosso país sempre favoreceu o multilateralismo, dada sua diplomacia coerente e de qualidade. E sempre exerceu com eficácia o que Joseph Nye chama de soft power. Com o soft power desenvolvido, a política comercial cresce e provoca um crescimento em retroalimentação: aos nossos produtos seriam abertas as portas para novos mercados e, com isso, seriam gerados novos empregos.

Cases de sucesso

Para citar um exemplo bem-sucedido, o Canadá obtém 75% do seu PIB com o comércio exterior. Assim, suprem as dificuldades de ter uma população pequena, um território cultivável miúdo e um clima difícil. Para crescer e ser esse país rico e de economia pujante, com grande “soft power” internacional, expandiu seu mercado para o exterior. Seu mercado é o mundo inteiro. Não se chega nesse patamar carregando os outros nas costas. O Brasil não pode ser São Cristóvão, mas seguir por si.

Conversando com economistas de organismos internacionais em Genebra, ouvi que um acordo entre o Brasil e a UE daria um impulso na retomada da economia mundial.

É hora de o Brasil, assim como fez Gulliver ao despertar, romper os liames que o prejudicam. E caminhar ao ritmo dos novos tempos, adaptando-se à realidade. Talvez não seja o caso de destruir o Mercosul. Mas reformá-lo para que permita acordos bilaterais em que todos se beneficiem. Assim, abre-se todo um caminho novo.

*Luiz Olavo Baptista é bacharel em Direito e Ciências Sociais pela PUC-SP e Doutor pela Universidade de Paris II. O profissional tem mais de 50 anos de experiência. Presidiu o Painel E4A da Comissão de Compensação das Nações Unidas. Atuou como árbitro presidente do Protocolo do MERCOSUL para Resolução de Controvérsias. Atualmente, integra o Centro Regional de Arbitragem de Kuala Lumpur e é Presidente do Atelier Jurídico.

Matérias relacionadas

Compartilhe essa matéria com quem você gosta!

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Fique por dentro das notícias de turismo do DT!

Assine nossa newsletter e confira.




    Enriqueça o Diário com o seu comentário!

    Participe e leia opiniões de outros leitores.
    Ao final de cada matéria, em comentários.

    Matérias em destaque