Elon Musk, presidente da Tesla e da SpaceX: “fizemos a Tesla por desespero, não porque seria lucrativo”

A série ‘Entrevistas Presidenciais’ traz entrevista com o instigante, polêmico, visionário e bilionário Elon Musk – presidente da Tesla e fundador da SpaceX, entre outros empreendimentos. Elon nasceu em Pretória, África do Sul, em uma família abastada, e mudou-se para o Canadá aos 17 anos. Ingressa na Queen’s University e transfere-se, dois anos depois, para a Universidade da Pensilvânia. Naturaliza-se norte-americano e tem bacharelado em Física e Economia.

REDAÇÃO E EDIÇÃO DO DIÁRIO


Aos 50 anos, Elon Musk é considerado, pela Forbes, o homem mais rico do mundo – fortuna calculada em US$ 190 bilhões. Comprou o primeiro computador aos 10 anos de idade, aprendeu programação em 72 horas ininterruptas e sempre foi um devorador de livros. Aos 28 anos, tinha acumulado quase US$ 30 milhões. Mente inquieta, curioso e desconcertante, tem o QI estimado em 155 pontos – uma pessoa acima da média chega a 110! Segue entrevista, inspirada e subsidiada por publicação recente do Financial Times.

Elon Musk, presidente da Tesla, fala ao editor do DT, Gabriel Emidio

Ao ser indagado sobre o comportamento da concorrência, Musk diz que “por muito tempo, a indústria automobilística alardeou que a Tesla e eu éramos tolos e dados a fraudes. Diziam que os carros elétricos não funcionariam nem alcançariam desempenho. E mesmo que viessem a funcionar, ninguém os compraria”.

Musk acredita que os ativistas das mudanças climáticas ajudaram a levar as montadoras a uma tecnologia mais sustentável. Sobre o reposicionamento da concorrência em relação aos carros elétricos, ele conta que “até começarmos a tirar participação de mercado deles de maneira significativa, eles não reagiram”.

Caso emblemático vem de Bob Lutz, ex-vice-presidente da General Motors e presidente da Chrysler. Se antes ele duvidava das chances de sobrevivência da Tesla, agora chama o impacto de Musk na indústria automobilística de “inacreditável – nada menos que incrível”. Cita as incursões de Musk até nos mercados de carros de luxo da Europa e diz: “É por isso que a Mercedes-Benz e a BMW têm tanto medo dele”.

Case Dogecoin e Regulação
Com o respaldo dos 66,3 milhões de seguidores, Musk usou sua conta hiperativa no Twitter para promover a dogecoin. Criptomoeda começou como uma piada – o nome homenageia um meme da internet com um cachorro Shiba Inu.

Ele não perde oportunidade de incitar os reguladores, incluindo a SEC (Comissão da Valores Mobiliários dos EUA), apesar de pagar uma multa de US$ 20 milhões em 2018. Na ocasião, o regulador de valores mobiliários acusou-o de cometer fraude com seus tweets.

Mesmo alguns de seus maiores apoiadores reconhecem um pouco de hype em torno de Tesla. Hype é uma expressão utilizada, no mundo dos games, quando há uma enorme expectativa em torno de algum lançamento específico.

Em meio a um boom do mercado de ações, sua avaliação ultrapassou a barreira de US$ 1 trilhão em 2021, tornando Musk a pessoa mais rica do mundo. Detalhe: a fatia de mercado da Tesla é inferior a 2% dos carros e caminhões novos do mundo.

Hoje, há um consenso de que Musk desencadeou uma mudança histórica na indústria automobilística mundial, em direção aos veículos elétricos. Mesmo que a Tesla, de alguma forma, entrasse em colapso no próximo ano, Musk teria alcançado o papel de transformador de uma das indústrias mais importantes do mundo, com profundas implicações para governos, investidores e para o clima. Não por acaso, ele reivindica, para si, a proeza de ser o empresário mais genuinamente inovador de sua geração.

Bem mais que carros
A marca incomum de Musk de assumir riscos e ultrapassar limites extrapola os carros. Sua empresa SpaceX trouxe o voo espacial humano de volta aos EUA, em 2020. A rede Starlink, de sua propriedade, está se aproximando do lançamento do primeiro serviço comercial de banda larga via satélite do mundo. Um novo foguete gigante, apelidado de Starship, está em fase de teste.

Musk aposta na tecnologia como remodeladora do futuro. Suas declarações soam como desafios ao ouvinte a desafiá-lo. Para os admiradores, isso o torna um visionário livre das restrições mentais que limitam outros empresários. Mas para os críticos, ele encarna uma arrogância tecnocrática cega.

Inovação e lucro
Há mais de 15 anos, Musk manifestou o objetivo de liderar uma revolução nos transportes. Teria alcançado? “Estou bastante encorajado pelo que eles (das outras montadoras) estão dizendo. Fizemos Tesla essencialmente por desespero, não porque achamos que seria lucrativo. Foi apenas para mostrar que isso poderia ser feito”, observa.

Pode ser. Mas o fato é que teve resultados financeiros espetaculares. Depois de lutar por anos para provar que poderia ser financeiramente viável, as margens de lucro da Tesla surpreenderam pela robustez. Muitos investidores estão dispostos a apostar que ela vai liderar uma grande e nova indústria global de veículos elétricos e autônomos.

Musk recebe muitas críticas, mas desfruta de um nível de aprovação pública mais alto do que muitos. Isso pode ser, em parte, porque sua marca pessoal tornou-se fortemente entrelaçada com uma cultura popular influenciada por memes e jogos. Para ele, isso ocorre por causa das aspirações que seus produtos visam satisfazer.

“Estou apenas tentando levar as pessoas a Marte e permitir a liberdade de informação com a Starlink. Acelerar a tecnologia sustentável com a Tesla, libertar as pessoas do trabalho penoso de dirigir”, diz ele.

Segurança e Twitter
A Tesla está sob investigação dos reguladores de transporte e valores mobiliários dos EUA sobre a segurança de sua tecnologia de assistência ao motorista. Querem saber se escondeu riscos de incêndio de seus painéis solares. Sobre o National Transportation Safety Board, ele diz:

“Senti que eles buscavam as manchetes da imprensa por causa da segurança real. Isso é algo que eu não respeito e nem deveria ser respeitado.” Mas ele nega qualquer desdém pela própria regulamentação.

“Certamente é possível, para algum idiota, compilar o punhado de vezes em que eu discordei dos regulamentos. Escrever uma história e fazer parecer que eu sou um louco atirando do quadril. Em nenhum momento estou sugerindo que qualquer agência reguladora seja dissolvida, ou algo assim. Não sou uma espécie de libertário maluco”.

A persona bad boy de Musk no Twitter apresenta vários recortes. “Não estou dizendo que não faço tweets tolos, claro que sim. Há momentos em que dou um tiro no pé. Mas você sabe, no final das contas, é divertido, interessante e informativo, seja o que for.”

Fora da caixa
Um dos resultados das travessuras de Musk foi tornar a Tesla uma marca conhecida sem um único dólar gasto em publicidade. Segundo Simon Sproule, ex-chefe de marketing e comunicações da empresa., “ele rasgou o livro de regras sobre como os CEOs devem se comportar. Nesse processo, ele se tornou quase uma figura da contracultura”.

Um engenheiro de coração O impacto de Musk na indústria automobilística global vem de longa data. Após o sucesso inicial como um dos fundadores do PayPal, investiu na Tesla e tornou-se seu presidente em 2004, logo após a criação.

Ceticismo
Antes da Tesla, os engenheiros da GM se recusavam firmemente a acreditar que o tipo de bateria de íon de lítio usada em laptops pudesse produzir energia suficiente para mover um carro. O primeiro carro da Tesla, o Roadster, foi o suficiente para, finalmente, persuadi-los e levar ao híbrido Chevrolet Volt, há uma década.
Mas a GM não seguiu adiante. A Daimler e a Toyota também pareciam ter um vislumbre do futuro elétrico, fizeram parceria com a Tesla, antes de sua listagem no mercado de ações de 2010. Isso para usar sua tecnologia de transmissão elétrica enquanto forneciam injeções de dinheiro muito necessárias. As alianças não duraram.

“Eles não estavam levando os veículos elétricos a sério. Ficou claro que eles queriam fazer o menor número de veículos elétricos que achavam necessário para atender aos requisitos regulatórios”, diz Musk.

Provar que os carros elétricos podem ser lucrativos significou derrubar praticamente todos os conhecimentos aceitos no setor. E ele nunca desistiu. Laurie Yoler, um dos primeiros membros do conselho da Tesla, diz que “ele não tem medo que as pessoas digam que ele é louco. Ele realmente olha para a maior ideia.”

Elon Musk, multimilionário e visionário (Crédito: Celeb Dirty Laundry)

Engenharia
Musk diz que o sucesso da Tesla gira em torno de sua paixão pela engenharia. “Sou, antes de tudo, um engenheiro. Como a Tesla e a SpaceX tiveram sucesso, quando outras empresas têm muito mais recursos e dinheiro do que eu? O problema é que eles não podem me contratar.”

Ele também diz que a dedicação à excelência em engenharia e o foco em desafios importantes têm sido fundamentais para atrair os melhores talentos da área. “Quando você vai atrás do problema mais difícil do mundo, as melhores pessoas do mundo querem vir trabalhar para você”, diz Gene Berdichevsky, ex-executivo de baterias da Tesla.

Trabalho e despojamento
Musk diz que passa sete dias e 80-90 horas por semana alternando entre os projetos mais críticos da Tesla e da SpaceX. “Na verdade, estou envolvido na triagem: qual é a coisa mais útil que posso fazer? E eu sou muito bom em tecnologia e engenharia. Todo mundo tem seus talentos, esse é um dos meus. Eu não posso cantar ou dançar, mas eu posso fazer isso.”

Apesar da riqueza, Musk diz que não possui uma casa ou barco ou sai de férias. “Acho que não há muitas pessoas que, realmente, gostariam de trocar de lugar comigo. Meu objetivo é trabalhar enquanto puder. Ser produtivo e contribuir – essa é a minha natureza. Mas eu gostaria de trabalhar um pouco menos.”

O estilo de gestão total de Musk e a pressão que ele coloca em sua equipe para resolver os problemas têm desvantagens. As pessoas que trabalharam com ele descrevem como ele pode semear confusão e caos. Entretanto, ele sabe onde estão os gargalos, onde tem que empurrar as pessoas ao máximo.”

Farpas
Musk fala de Jeff Bezos, dono da empresa espacial Blue Origin, que foi ultrapassada pela SpaceX. Ele amaldiçoa seu rival com elogios fracos, acenando para a boa aptidão de engenharia de Bezos. “Mas ele não parece disposto a gastar energia mental com os detalhes da engenharia. E o diabo está nos detalhes. Bezos se leva um pouco a sério demais”, alfineta.

Ainda sobre Bezos, acrescenta que “de certa forma, estou tentando convencê-lo a passar mais tempo na Blue Origin, para que eles progridam mais. Como diz um amigo meu, ele deveria passar mais tempo na Blue Origin e menos tempo na banheira de hidromassagem.”

Carga cognitiva
Há desafios técnicos muito difíceis, que parecem fazer com que até Musk, às vezes, duvide de si mesmo. Isso inclui a construção da Starship totalmente reutilizável e o aperfeiçoamento da tecnologia de direção autônoma São essas duas coisas que ocupam a maior quantidade de carga cognitiva em sua vida.

Com aprimoramentos da inteligência artificial para fazer funcionar a direção autônoma, ele acrescenta que agora está “99,9% – arredondado para 100%. A direção totalmente autônoma funcionará, é apenas uma questão de quando”.

Apontando para as altas classificações de segurança da Tesla e a disposição da Nasa de confiar seus astronautas aos foguetes da SpaceX, ele acrescenta: “Não acho que haja um CEO neste planeta que se preocupe mais com segurança do que eu”.

Nova concorrência e China
Uma marca do sucesso de Musk é que a concorrência real está finalmente surgindo em veículos elétricos. A startup rival Rivian já lançou sua própria picape elétrica, e a Ford deve lançar uma versão elétrica de sua F-150. Musk prevê que a Volkswagen e a Ford terão sucesso com carros elétricos.

Ele aponta um novo desafio para as empresas automobilísticas do mundo. “As pessoas parecem um pouco alheias ao progresso da China. É incrível.” Ele compara com a onda de importações japonesas, que aconteceu nas décadas de 1980 e 1990. E acha que veremos algo semelhante com as montadoras chinesas. “Apenas o grande número de pessoas trabalhadoras e inteligentes na China é uma maravilha de se ver – incrível e um pouco assustadora. E eles vão fazer as coisas”, finaliza.

 

 

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