Escrevo estas linhas depois de quase cinco décadas frequentando congressos, feiras e seminários de turismo no Brasil e no exterior. Nunca vi tantos eventos e, paradoxalmente, nunca vi tão pouca transformação. Multiplicam-se os encontros, mas escasseiam as ideias. Crescem os investimentos em cenografia, marketing e cerimonial, enquanto diminui a coragem de enfrentar os verdadeiros problemas do turismo.
O modelo faliu.
*Por Bayard do Coutto Boiteux – colaboração para o DIÁRIO
A maioria dos eventos tornou-se um ritual de autopromoção. Os mesmos palestrantes circulam pelos mesmos palcos, repetindo discursos reciclados para plateias cada vez menos interessadas. Mudam os logotipos, os patrocinadores e os cenários, mas o conteúdo permanece prisioneiro da mesmice.
Criou-se uma elite dos eventos, onde o critério para subir ao palco muitas vezes não é a competência, mas a conveniência. Há espaço para quem elogia, para quem aplaude, para quem não provoca desconforto. O contraditório desapareceu. A crítica tornou-se indesejável. E um evento que não aceita o debate está condenado à irrelevância.
As feiras transformaram-se em grandes vitrines comerciais. Os congressos, em desfiles de vaidades. Os painéis, em monólogos cuidadosamente ensaiados. A inovação virou palavra da moda, repetida à exaustão por quem, muitas vezes, continua administrando o turismo com métodos do século passado.
O mais grave é que quase ninguém cobra resultados. Quantas decisões efetivamente mudaram o turismo brasileiro? Quantos projetos saíram do papel? Quantas propostas influenciaram políticas públicas? Quantos jovens talentos tiveram oportunidade de falar? O silêncio é constrangedor.
Também é preciso acabar com a cultura dos convites seletivos, dos círculos fechados e das homenagens trocadas entre os mesmos personagens. O turismo não pertence a pequenos grupos que se revezam no poder e nos holofotes. Pertence ao Brasil, aos profissionais anônimos, aos pesquisadores, aos estudantes, aos empreendedores e às comunidades que sustentam a atividade todos os dias.
É chegada a hora de romper definitivamente com esse teatro. Menos tapetes vermelhos, menos cerimônias intermináveis, menos discursos vazios, menos fotografias para alimentar redes sociais. Mais inteligência, mais diversidade de ideias, mais ousadia, mais compromisso e, sobretudo, mais verdade.
Se os eventos de turismo continuarem servindo apenas para alimentar egos, distribuir homenagens e preservar feudos de influência, estarão decretando a própria inutilidade. O setor não precisa de encontros para celebrar o óbvio. Precisa de espaços que desafiem certezas, confrontem interesses e construam soluções.
O turismo brasileiro não pode mais ser refém da vaidade de poucos. Ou os eventos mudam radicalmente, ou serão lembrados apenas como grandes festas de um setor que perdeu a capacidade de pensar o seu futuro.
*Bayard do Coutto Boiteux é professor universitário, escritor, pesquisador e consultor nacional e internacional. Amante da fotografia, conhece mais de 200 países e é autor de 56 livros publicados.




