24ª edição do festival celebra o “Portunhol Selvagem” e reforça que a cultura também é um caminho para restaurar paisagens, aproximar povos e inspirar novas formas de viver
Por Reinaldo Canto, de Bragança Paulista
Há lugares onde a arte ocupa um palco. Outros, uma galeria. Na Fazenda Serrinha, em Bragança Paulista (SP), ela escolheu a floresta.
Em tempos em que o mundo parece insistir em erguer fronteiras, o 24º Festival Arte Serrinha faz justamente o movimento contrário. Sob o provocativo tema “Portunhol Selvagem”, conceito criado pelo poeta Douglas Diegues, o festival propõe uma travessia pelas culturas latino-americanas, misturando idiomas, sonoridades, histórias, memórias e modos de olhar para o futuro.

Mais do que um evento cultural, o Arte Serrinha se consolidou, ao longo de mais de duas décadas, como uma experiência de convivência entre arte, natureza e educação ambiental. De 6 a 26 de julho, artistas, pesquisadores, estudantes e visitantes compartilham um território onde a criação acontece em meio à Mata Atlântica recuperada, lembrando que preservar também é um ato profundamente cultural.
A escolha do tema desta edição não poderia ser mais atual.
O “Portunhol Selvagem” não representa apenas uma mistura de idiomas. É uma metáfora potente da América Latina: diversa, híbrida, múltipla e resistente. Um continente que encontra na mistura sua maior riqueza e que, diante dos desafios ambientais e sociais, precisa aprender cada vez mais a construir soluções coletivas.
Essa visão atravessa toda a programação do festival.

Artistas de diferentes países da América Latina participam de residências de música, artes visuais, literatura, cinema, teatro e performances. O encontro promove um intercâmbio raro, onde o aprendizado acontece tanto nas oficinas quanto nas conversas informais, nos ensaios, nas caminhadas pela mata e nos momentos de convivência.
Entre os destaques está a Residência Internacional de Música, dirigida por Benjamim Taubkin, reunindo músicos do Brasil, Argentina, Paraguai, Venezuela, Peru, Colômbia e Holanda. A programação inclui ainda oficinas conduzidas por nomes como Roberta Estrela D’Alva, Luiza Romão, Rico Lins, Joana Lira e Pascoal da Conceição, além de encontros com Douglas Diegues e Xico Sá.
Para Fabio Delduque, criador e diretor artístico do festival, é, “uma felicidade chegar à 24 edições tendo a certeza de ter transformado a vida de tantas pessoas além de ter criado um projeto cultural que requalificou um bairro rural em Bragança Paulista, uma antiga região produtora de café que um século depois se tornou um importante polo turístico, ancorado na arte, educação e preservação do meio ambiente .“

Mas talvez o maior protagonista do festival seja o próprio território.
Espalhadas pela paisagem da Fazenda Serrinha, esculturas e instalações dialogam com a floresta, transformando o percurso dos visitantes numa experiência em que natureza e arte deixam de ser elementos separados. O Parque Natural Arte Serrinha tornou-se referência nacional por reunir obras permanentes inseridas na paisagem, antecipando discussões hoje cada vez mais presentes sobre arte ambiental, regeneração ecológica e ocupação sensível dos espaços naturais.
A restauração de mais de 40 hectares de Mata Atlântica e o plantio de cerca de 80 mil árvores demonstram que o projeto vai muito além da programação cultural. A floresta recuperada torna-se, ela própria, um laboratório vivo para artistas, educadores, pesquisadores e visitantes.

Vivemos um momento em que sustentabilidade costuma ser associada apenas à tecnologia, energia limpa ou economia de baixo carbono. O Festival Arte Serrinha lembra que existe uma dimensão igualmente importante: a sustentabilidade cultural.
São as manifestações artísticas que ajudam a construir identidade, fortalecer comunidades, preservar saberes tradicionais e estimular novas formas de relação entre as pessoas e a natureza.
Talvez seja essa a maior contribuição do festival.
Em vez de oferecer respostas prontas, cria espaços para perguntas.
Como podemos viver melhor em um planeta em transformação?
Que papel a arte desempenha na regeneração dos territórios?
Como diferentes culturas podem dialogar sem perder suas identidades?
Ao completar sua 24ª edição, o Festival Arte Serrinha reafirma que cultura e meio ambiente não caminham em trilhas paralelas. São caminhos que se cruzam o tempo todo.

Crédito: Reinaldo Canto
Num país que abriga uma das maiores biodiversidades do planeta e uma extraordinária diversidade cultural, iniciativas como essa mostram que preservar florestas também significa preservar narrativas, encontros e modos de existir.
Na Serrinha, a floresta não é apenas cenário.
Ela participa da obra.
E talvez seja justamente isso que torna essa experiência tão singular.





