Aos 44 anos, iniciativa integra conservação da natureza e geração de renda nas comunidades. “O meio ambiente somos nós”, afirma o fundador Renato Machado.
Por Zaqueu Rodrigues, colaboração para o DIÁRIO
O Ibiti Projeto reúne regeneração ambiental, educação e hospitalidade em um território de cerca de 6 mil hectares nas montanhas da Zona da Mata mineira. No entorno do Parque Estadual do Ibitipoca, a iniciativa fundada por Renato Machado busca demonstrar que a prosperidade humana depende da conservação ambiental e do envolvimento das comunidades.
Essa relação voltou ao centro das reflexões do fundador e CEO durante uma viagem a Machu Picchu, no Peru, em outubro de 2026. Vinte anos depois da primeira visita, o que chamou sua atenção não foram apenas as construções incas ou a paisagem dos Andes, mas as mudanças em Águas Calientes, cidade usada como base para chegar ao sítio arqueológico.
“Fiquei surpreso com o crescimento desordenado e a quantidade de lixo pelo caminho. A gente tem que assumir, com muita humildade, que uma das nossas habilidades é o crescimento desordenado. Nesses meus 65 anos eu tenho visto tantos lugares piorar por crescer sem equilíbrio socioambiental”, lamenta Renato.
Na avaliação do empresário, a experiência evidencia um desafio compartilhado por destinos brasileiros e internacionais: desenvolver o turismo sem comprometer os recursos naturais e a qualidade de vida dos moradores.
“Temos que nos policiar constantemente para desenvolver destinos e crescer com equilíbrio. Esse desafio é grande, urgente, requer tempo e passa pela cultura e educação”, afirma.


Ibiti Projeto destina 96% do território à regeneração
Distribuído pelos municípios de Lima Duarte, Bias Fortes e Pedro Teixeira, o Ibiti Projeto conecta empreendedores locais e atividades de conservação da biodiversidade, cultura, educação, gastronomia, arte e hospitalidade.
Segundo Renato, 96% das terras são destinadas à regeneração e ao rewilding, processo de recuperação da vida selvagem e das relações ecológicas. Os outros 4% correspondem à ocupação humana.
Um levantamento da Bioflore, de 2025, apontou que 1.280 hectares de pastagens voltaram a ser Mata Atlântica. O Índice de Estado de Conservação do território passou de 48, em 1985, para 67, em 2023.
De acordo com os dados apresentados pela iniciativa, o projeto gera 300 empregos diretos, produz mais de 270 variedades de alimentos orgânicos e beneficia mais de 500 espécies. Em 2026, em parceria com o Muriqui Instituto de Biodiversidade (MIB), reintroduziu no território dez muriquis-do-norte, o maior primata das Américas.
“O meio ambiente somos nós. A água que corre nos rios também corre em nossos corpos. Não estamos separados”, afirma Renato. “Não está dando muito certo o que estamos fazendo com o planeta. Temos que entender que não somos donos de nada. Temos que usar o planeta com sabedoria”.
Nascido como projeto ambiental, o Ibiti ampliou sua atuação ao incorporar a dimensão social, explica o fundador.
“A gente tinha aquele mundo de terras e não compartilhava, não gerava renda, não gerava prosperidade. O envolvimento das pessoas locais e turistas tornou o projeto muito mais interessante. Ele está o tempo todo sendo inspirado pela natureza e pelas pessoas de modo orgânico e harmonioso, sem atropelar o tempo de cada vida”.


Educação sustenta a proposta do Ibiti Projeto
A formação de uma cultura regenerativa tem na educação um de seus principais fundamentos. Na Vila Mogol, a Life School atende 25 alunos, entre filhos de funcionários e crianças de outras famílias da região e de fora dela.
“É uma escola transformadora multilíngue na Vila Mogol, com 25 alunos. A formação é baseada em práticas pedagógicas inspiradas na reconexão entre o ser humano e a natureza”, explica Renato.
Heliane Machado, responsável pelo departamento educacional do Ibiti Projeto, destaca a importância de ampliar a consciência sobre os impactos socioambientais e abrir espaço para a experimentação.
Profissionais de agronomia, biologia e engenharia participam das atividades como inspiradores. A formação inclui bicicleta, permacultura, biodiversidade, espanhol, inglês, música, natação, futebol, gastronomia e capoeira.
As turmas são organizadas em ciclos multisseriados: Borboleta, de 1 a 3 anos; Beija-Flor, de 4 e 5 anos; Onça 1, de 6 e 7 anos; e Onça 2, de 8 a 10 anos. A pedagogia reúne referências como Montessori e a Green School.
Ao lado da escola, a Stoa, criada em 2018 como Ibitipoca University, complementa o trabalho educacional com debates, cursos e palestras.
Heliane lembra que a criação do Parque Estadual do Ibitipoca, na década de 1970, despertou o potencial turístico da região. Hoje, o desafio é promover o desenvolvimento de maneira harmoniosa, com empreendedorismo, empregos e renda para as comunidades.
“Os turistas convivem com as pessoas locais e sentem que existe uma forma de vida diferente, num ritmo mais sereno, com mais presença, conexão e pertencimento”, afirma. “A gente busca formar cidadãos regenerativos, que compreendam a capacidade humana de se transformar. A educação é chave desse processo”.
Para Renato, o turismo tornou-se uma fonte estratégica de prosperidade, mas sua expansão exige cuidado. “Eu morro de medo de crescimento rápido e desordenado. Quando reunimos gente inspiradora, os caminhos se abrem e o resultado é bom para todas as vidas. Natureza e pessoas prosperam juntos”.

Hospitalidade do Ibiti Projeto conecta visitantes e comunidade
A hospedagem se organiza em três conceitos: o Engenho Lodge, instalado em um casarão de 1705 com vista para um lago; o Ibiti Village, com casas no povoado setecentista de Vila Mogol; e o Remote, que reúne casas isoladas em áreas elevadas do território.
O desenvolvimento do turismo também tem atraído moradores que deixaram a região para estudar e trabalhar. Uma delas é a empresária Claudia Baumgratz, que retornou para gerenciar o Ibiti Projeto e, posteriormente, assumiu o Engenho Lodge, inaugurado em 2009.
Segundo Claudia, o hotel incorporou a proposta regenerativa desde o início. “É um ambiente que funciona como a casa dos avós. Acolhemos muitas famílias e grupos, que sempre retornam. Após a pandemia continua crescendo o números de brasileiros em busca dessa conexão com a vida, com essa hospitalidade mineira”.
A experiência inclui alimentos produzidos no território, preparações em fogão a lenha e atividades em cachoeiras, trilhas e montanhas.
“Nascemos para regenerar. A hospitalidade coroa o projeto socioambiental conectando pessoas e gerando renda”, resume Claudia.
Na avaliação da diretora de hospitalidade, os visitantes procuram tempo de qualidade, convivência familiar, privacidade e contato com a natureza.
“E fazemos isso aqui muito bem com muitos atrativos. São mais de 300 km de trilhas, mais de 50 cachoeiras, dezenas de lagos, roteiros para bicicleta, caminhada, meditação, almoço no topo da montanha, lugares inóspitos para contemplação, arvorismo, encontros e conversas genuínas… Temos uma lista de 100 atrativos para conhecer antes de morrer”, afirma.


Projeto prevê novas casas em 2027
A ampliação da hospedagem acompanha a proposta de crescimento gradual. Claudia informa que o projeto ampliou o número de quartos e prepara duas novas casas para 2027, próximas a um riacho, em uma configuração semelhante à de uma pequena vila.
“O tempo é o que temos de mais importante. O nosso foco é fazer com que o hóspede viva o seu tempo da melhor maneira possível”, afirma.
Renato relaciona os próximos passos à ambição de transformar o destino em um espaço de encontro e reflexão sobre regeneração.
“Hoje a gente usa o projeto como uma ferramenta para trazer as pessoas de volta para a natureza. O nosso sonho é fazer do Ibiti Projeto uma Davos da regeneração do planeta. O ser humano tem genialidade e recursos para superar esse momento”.





