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Museu da Cana: onde a história ainda tem cheiro de terra, açúcar e trabalho

Em meio aos canaviais de Sertãozinho, antigo engenho preserva máquinas, histórias e memórias de uma atividade que ajudou a moldar o Brasil

Por Reinaldo Canto*

Há lugares que parecem ter sido feitos para nos lembrar que o futuro não começa exatamente do zero. Antes de chegarmos às novas tecnologias, aos carros elétricos e às discussões sobre transição energética, muita coisa já aconteceu por aqui.

É essa sensação que acompanha quem visita o Museu da Cana, instalado na antiga Fazenda Engenho Central, entre Sertãozinho e Pontal, no interior de São Paulo. Em meio a uma das mais importantes regiões produtoras de cana-de-açúcar do país, o museu guarda uma parte importante da história de uma cultura que atravessa séculos da vida brasileira.

E não é uma história contada apenas por fotografias e textos. Ela está nas paredes, nos galpões, nas enormes máquinas e nos equipamentos que permanecem praticamente no lugar onde funcionaram há mais de um século.

O antigo Engenho Central começou a operar em 1906. Sua maquinaria, trazida da Europa, incluía equipamentos fabricados na Escócia e na França ainda no final do século XIX. Eram tempos em que a força do vapor movimentava a indústria e a cana começava a ganhar cada vez mais espaço na economia paulista.

Hoje, aquelas máquinas silenciosas parecem gigantes adormecidos.

Mas basta imaginar o barulho da produção para perceber que aquele espaço já foi um lugar de intensa atividade. A cana chegava, era moída, processada e transformada em produtos que ajudaram a construir a economia de uma região.

Galpões e estruturas da antiga usina integram o acervo do Museu da Cana e ajudam a mostrar como funcionava a atividade industrial ligada à cana-de-açúcar em outros tempos. - Crédito: Reinaldo Canto
Galpões e estruturas da antiga usina integram o acervo do Museu da Cana e ajudam a mostrar como funcionava a atividade industrial ligada à cana-de-açúcar em outros tempos. – Crédito: Reinaldo Canto

Uma viagem no tempo

O interessante do Museu da Cana é justamente não transformar essa história em algo distante.

Caminhar pelos espaços preservados permite perceber como era uma indústria de outros tempos. A exposição principal mantém a Usina Schmidt e seu maquinário original, incluindo moendas a vapor, cozedores, cristalizadores e ensacadores.

É quase impossível não imaginar quantas pessoas passaram por ali, quantas horas de trabalho foram necessárias e quantas histórias pessoais ficaram escondidas atrás daqueles equipamentos.

E talvez essa seja uma das maiores riquezas de um museu como esse: preservar não apenas objetos, mas as histórias humanas que eles ajudam a contar.

A cana, afinal, não é apenas uma planta. No Brasil, ela está ligada à economia, à ocupação do território, à alimentação, à produção de açúcar, à fabricação de bebidas e, mais recentemente, a uma das principais alternativas brasileiras aos combustíveis fósseis: o etanol.

Por isso, conhecer a história da cana também é conhecer um pouco da própria história do país.

Entrada da antiga Usina Schmidt, um dos espaços preservados no Museu da Cana, onde o visitante encontra parte do maquinário original do engenho. - Crédito: Reinaldo Canto
Entrada da antiga Usina Schmidt, um dos espaços preservados no Museu da Cana, onde o visitante encontra parte do maquinário original do engenho. – Crédito: Reinaldo Canto

Uma história que também precisa ser contada com seus contrastes

Mas preservar a memória também significa olhar para ela com honestidade.

A história da cana-de-açúcar no Brasil não é feita apenas de desenvolvimento econômico e inovação. Ela também passa pela exploração do trabalho, pela escravidão e pelas profundas desigualdades que marcaram a formação do país.

A exposição permanente do Museu da Cana aborda justamente essa trajetória, desde a introdução da cana pelos portugueses, passando pelo cultivo no litoral e pelo uso de mão de obra escravizada nos antigos engenhos.

É importante que seja assim.

Museu não deveria existir apenas para celebrar o passado. Deve também ajudar a compreendê-lo.

E compreender melhor o passado talvez seja uma das maneiras mais inteligentes de pensar o futuro.

Da força do vapor à energia renovável

Há ainda uma curiosa coincidência que torna o Museu da Cana especialmente interessante nos dias de hoje.

As mesmas plantações que durante muito tempo foram associadas principalmente à produção de açúcar passaram a ocupar um papel estratégico na discussão sobre energia e sustentabilidade.

O etanol de cana tornou-se uma das principais experiências brasileiras de substituição de combustíveis fósseis. E a região de Sertãozinho é um dos símbolos dessa transformação.

Foi justamente nesse cenário que o Museu da Cana recebeu recentemente o lançamento do BYD Song Pro Flex, primeiro híbrido flex da marca no Brasil.

A cena tinha algo de cinematográfico: um veículo que combina motor elétrico e etanol sendo apresentado dentro de um antigo complexo industrial construído para transformar cana em produtos que ajudaram a movimentar a economia brasileira.

De um lado, máquinas do século passado.

Do outro, uma tecnologia que aponta para o futuro da mobilidade.

No meio, a mesma cana.

Mais do que uma simples coincidência, é uma boa metáfora para o Brasil que precisa encontrar caminhos para uma transição energética aproveitando aquilo que já construiu, mas sem deixar de avançar.

Antigo complexo industrial que hoje abriga o Museu da Cana, entre Sertãozinho e Pontal, preserva estruturas e equipamentos ligados à história da produção canavieira. - Crédito: Reinaldo Canto
Antigo complexo industrial que hoje abriga o Museu da Cana, entre Sertãozinho e Pontal, preserva estruturas e equipamentos ligados à história da produção canavieira. – Crédito: Reinaldo Canto

Um museu que olha para frente

O Museu da Cana foi aberto ao público em dezembro de 2013 e hoje trabalha não apenas com a preservação do patrimônio, mas também com pesquisa, educação, cultura e reflexão sobre as relações entre sociedade e ambiente. Essa preocupação está entre os próprios valores institucionais do museu.

E talvez seja exatamente essa combinação que faça a visita valer a pena.

Porque preservar uma antiga usina não significa ficar preso ao passado.

Ao contrário.

Quando olhamos para aquelas máquinas enormes, podemos pensar em como produzíamos energia e riqueza há mais de cem anos. Quando observamos os canaviais ao redor, podemos refletir sobre os desafios atuais da agricultura, do uso do solo e das mudanças climáticas. E quando vemos um carro híbrido flex estacionado diante de uma antiga usina, percebemos que a história pode, sim, estabelecer conversas surpreendentes com o futuro.

O Museu da Cana é um desses lugares em que o tempo parece andar em velocidades diferentes.

As máquinas continuam paradas.

A cana continua crescendo.

E a tecnologia continua mudando.

Talvez o maior convite do museu seja justamente esse: parar um pouco para olhar para trás e perceber que, para construir um futuro mais sustentável, também precisamos aprender a reconhecer — e cuidar — das histórias, dos conhecimentos e dos patrimônios que recebemos.

Afinal, algumas das melhores ideias para o amanhã podem estar escondidas justamente naquilo que o passado deixou para nós.

E, no Museu da Cana, elas estão ali, bem diante dos olhos, entre antigas máquinas, grandes canaviais e muita história para contar.

*O jornalista viajou a convite da BYD para o lançamento do Song Pro Flex realizado exatamente no Museu da Cana

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