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O turismo brasileiro nas eleições 2026: Lula ou Flávio?

Recordes históricos, eleições em empate técnico e um setor que cresce apesar do Estado. O que está em jogo e o que fazer.

por Marcelo Poletto*

O turismo brasileiro vive o melhor momento de toda a sua história econômica justamente no instante em que o país ingressa na disputa presidencial mais equilibrada e imprevisível das últimas décadas. Em 2025, o Brasil atingiu a marca inédita de 9,3 milhões de turistas estrangeiros, superando em 37% a meta fixada pelo poder público e gerando um ingresso cambial recorde de US$ 7,865 bilhões, segundo os registros do Banco Central do Brasil. No cômputo abrangente, a atividade turística movimentou US$ 167,6 bilhões — montante equivalente a 7,7% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional, de acordo com o WTTC (World Travel & Tourism Council, Conselho Mundial de Viagens e Turismo) —, sustentando direta e indiretamente mais de 8,3 milhões de empregos em todas as regiões da Federação.

Trata-se de uma proeza extraordinária para uma cadeia produtiva que enfrentou a paralisação severa do triênio pandêmico e sucessivas turbulências macroeconômicas. No entanto, essa pujança convive com uma vulnerabilidade crônica: o setor é amplamente condicionado pelas diretrizes, humores e oscilações da política nacional. Às vésperas de um pleito presidencial polarizado, o mercado corporativo, os operadores de turismo e os gestores públicos locais deparam-se com uma encruzilhada decisiva para a atração de capitais privados e a sustentabilidade dos investimentos em infraestrutura turística.

Diante desse panorama de incerteza programática, a reação madura do mercado não consiste em tomar partido ideológico nem em apostar em favoritismos de curto prazo. A resposta profissional e estratégica do segmento produtivo é compreender a magnitude do patrimônio que consolidou, auditar tecnicamente os planos governamentais em disputa e preparar-se com pragmatismo para os dois cenários possíveis de governabilidade no ciclo 2027-2030.

O tamanho que o turismo conquistou

O turismo brasileiro rompeu definitivamente o estigma de setor acessório ou atividade recreativa secundária para se consolidar como verdadeira infraestrutura de indução econômica. Ao injetar liquidez direta no setor terciário, a atividade viabiliza uma rápida distribuição de renda primária em polos urbanos e rurais distantes dos eixos fabris. Na Região Nordeste, o impacto atinge proporções estratégicas: o turismo já representa quase 10% do PIB regional e responde por 433,3 mil empregos formais diretos, conforme atestam os relatórios da Sudene (Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste), funcionando como amortecedor social e alavanca de arrecadação fiscal descentralizada.

O caso do Estado da Bahia traduz essa dinâmica com extrema clareza empírica. Sob a mensuração do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a economia do turismo baiano avançou 7,4% em 2025, superando o ritmo de expansão do índice nacional pelo terceiro ano consecutivo. Paralelamente, o estado acolheu 211 mil turistas estrangeiros no mesmo período e manteve-se, pelo segundo ano seguido, na condição de destino mais vendido pelas operadoras integradas à Braztoa (Associação Brasileira das Operadoras de Turismo), superando destinos consolidados das regiões Sul e Sudeste.

Essa musculatura socioeconômica comprova que o setor privado e as cadeias locais de serviços ergueram um ecossistema que não pode mais ser negligenciado pelas políticas públicas. Qualquer administração federal que subestime a relevância orçamentária do turismo ou restrinja sua conectividade aérea pagará um custo imediato em perda de postos de trabalho, retração cambial e quebra de competitividade externa frente aos principais concorrentes da América Latina.

O paradoxo: gigante na economia, pequeno na política

Apesar dos indicadores de faturamento que rivalizam com grandes complexos da indústria manufatureira, o turismo brasileiro padece de uma invisibilidade institucional renitente na capital federal. O cerne dessa distorção repousa na fragmentação metodológica das estatísticas oficiais: enquanto a medição estrita de contas do IBGE captura apenas as atividades características do turismo de base formalizada — atribuindo ao setor algo próximo de 2,5% do PIB —, a contabilidade econômica ampla, recomendada pelo WTTC e respaldada pela CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo), capta as relações intersetoriais de consumo, compras de insumos e massa salarial induzida, comprovando que o segmento responde por 7,7% a 8,1% do PIB.

Essa subestimação censitária gera consequências gravíssimas na partilha orçamentária de Brasília. O MTur (Ministério do Turismo) ocupa historicamente uma das posições mais modestas na hierarquia da Esplanada dos Ministérios, operando com verbas discricionárias diminutas. Como demonstração incontestável da asfixia financeira pública, o Fungetur (Fundo Geral de Turismo, fundo de crédito do setor gerido pelo MTur) disponibilizou apenas R$ 826 milhões em linhas de financiamento em 2026 para todo o território nacional — valor irrisório frente às demandas de renovação da malha hoteleira e de apoio aos prestadores de serviços turísticos.

Agrava esse quadro a conformação do próprio ecossistema produtivo: cerca de 90% das empresas dedicadas ao turismo no Brasil são micro e pequenas empresas (MPEs), dispersas em uma vasta cadeia de fornecimento de hospitalidade, alimentação, entretenimento e transporte. Essa pulverização pulveriza também a capacidade de pressão política e representação corporativa coesa perante o Congresso Nacional. Vale o axioma da governança pública: o número que se usa decide a prioridade que se recebe. Enquanto o turismo não impuser a métrica de sua real abrangência sistêmica, continuará sendo tratado como despesa dispensável no orçamento federal.

O que as eleições de 2026 colocam em jogo

O pleito presidencial de 2026 desenha um dos embates mais apertados da trajetória democrática recente, com o 1º turno agendado para 4 de outubro e a rodada final marcada para 25 de outubro. Os levantamentos de intenção de voto dos principais institutos de pesquisa convergem para um cenário de empate técnico absoluto na margem de erro estatístico: o Datafolha indica Lula (PT) com 46% ante Flávio Bolsonaro (PL) com 44%; paralelamente, a pesquisa Quaest aponta Flávio com 42% e Lula com 41%. Essa paridade revela visões antitéticas para a condução do Estado brasileiro, refletidas com clareza nos programas de governo registrados formalmente junto ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral).

A plataforma encabeçada pelo atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva, intitulada Diretrizes para o Programa de Transformação do Brasil, aposta no vetor da continuidade institucional e da sustentabilidade climática. A proposta prevê a blindagem da Embratur (Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo) com preservação de seus canais de fomento e estabelece a meta de recepcionar entre 9,8 milhões e 10,1 milhões de visitantes estrangeiros ao ano. O plano concentra-se na estruturação de novos roteiros de valorização gastronômica, etnoturismo e ecoturismo, com plano de requalificação de 75 parques nacionais sob gestão de concessões verdes, desoneração tributária para redução do custo do combustível de aviação civil e prosseguimento contínuo das obras civis do Novo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento, programa federal de obras de infraestrutura).

No polo oposto, a candidatura do senador Flávio Bolsonaro, consolidada sob o manifesto Para o Brasil vencer o atraso, articula um modelo assentado em choque de infraestrutura e livre iniciativa. Seu projeto central de atração turística reside no Trem do Nordeste — empreendimento ferroviário de passageiros de 1.400 quilômetros planejado para integrar 7 capitais regionais —, atrelando a retomada do fluxo de viajantes ao endurecimento da segurança pública por meio do eixo Brasil sem Medo, que projeta dobrar o aporte orçamentário federal na repressão criminal e ordenamento urbano. Em contrapartida, o programa prega ampla desregulamentação ambiental para facilitação de licenças imobiliárias turísticas e prevê uma profunda reforma administrativa da máquina pública, cuja meta de corte de ministérios pode rebaixar o MTur à condição de secretaria ou agência executiva subalterna.

O elemento comum a ambos os projetos — e sua mais séria fragilidade técnica — reside no ponto cego do financiamento. Nenhuma das candidaturas discrimina com clareza, no plano protocolado, de quais fontes orçamentárias sairão as dezenas de bilhões de reais necessárias para executar ferrovias de alta capacidade, concessões integradas ou barateamento estrutural do querosene de aviação civil sob regras de disciplina fiscal. Essa constatação impõe prudência ao mercado investidor: o setor deve negociar com os dois lados, e não escolher lado, preservando sua autonomia institucional em qualquer arranjo pós-eleitoral.

E a Bahia?

No cenário federativo, o Estado da Bahia reúne vantagens estruturais que o mantêm como epicentro do turismo em qualquer dos modelos presidenciais, muito embora os canais de desenvolvimento sejam profundamente distintos.

Sob uma vitória da chapa de continuidade do presidente Lula, o território baiano preserva a prioridade na liberação de recursos do Novo PAC para obras rodoviárias e de escoamento, com ênfase no sul do estado — incluindo a finalização do Contorno Norte de Ilhéus, a duplicação e pavimentação da rodovia BA-649 e a aceleração dos lotes da Fiol (Ferrovia de Integração Oeste-Leste), integrando as zonas rurais e portuárias com os corredores turísticos da Costa do Cacau e Salvador.

Por sua vez, a eventual ascensão da chapa de Flávio Bolsonaro colocaria Salvador como o ponto focal de início e ancoragem do traçado do Trem do Nordeste, potencializando a capital baiana como o principal distribuidor logístico de passageiros de todo o litoral nordestino. Além disso, a capital e as cidades balneárias seriam as beneficiárias imediatas dos repasses e operações prioritárias de segurança pública da política federal, respondendo a uma das maiores queixas do empresariado local do setor.

Ambos os caminhos, todavia, demandam monitoramento atento de seus riscos associados. Na hipótese de vitória da esquerda, o arrocho fiscal e o esgotamento do espaço para endividamento primário da União podem paralisar ou postergar obras físicas fundamentais do Novo PAC. Já no cenário de vitória da direita, a desregulamentação de normativas ambientais e o abandono de compromissos multilaterais podem manchar a reputação de sustentabilidade da Bahia perante o público europeu e norte-americano, somando-se à incerteza sobre a viabilidade financeira e a atratividade privada da malha de 1.400 km do trem interurbano. O trade baiano está privilegiado pela posição geográfica, mas não pode atrelar seu planejamento a uma aposta unívoca.

Turismo brasileiro nas eleições 2026 – O que fazer?

Para resguardar os ativos do turismo e converter promessas em entregas concretas a partir de janeiro de 2027, as entidades empresariais e lideranças do setor devem coordenar uma agenda técnica composta por cinco ações prioritárias:

  1. Preparar cenários, não escolher lado: mapear tecnicamente as 8 prioridades do trade (crédito produtivo, infraestrutura, relações de trabalho, segurança jurídica, equilíbrio regulatório, conectividade aérea, turismo doméstico e qualificação de mão de obra) e abrir canais imediatos de diálogo institucional com as equipes de transição de ambas as candidaturas.
  2. Monitorar os primeiros 90 dias do novo governo: auditar com rigor as nomeações de comando da Embratur, a manutenção das dotações do MTur e eventuais projetos de reforma administrativa que pretendam extinguir ou fragmentar a pasta do turismo.
  3. Acompanhar as duas variáveis decisivas para a Bahia: monitorar o cumprimento do cronograma de desembolso das obras de infraestrutura do Novo PAC em caso de vitória governista, ou exigir os estudos de viabilidade técnica e financeira da concessão do Trem do Nordeste na hipótese de transição conservadora.
  4. Proteger a imagem de sustentabilidade dos destinos baianos: blindar o posicionamento de governança socioambiental e conservação biológica da costa e do interior, assegurando que o patrimônio de ecoturismo da Bahia continue elegível para fundos internacionais e turistas de alto valor agregado, independentemente de mudanças em normas federais.
  5. Cobrar dos candidatos o detalhamento do financiamento das promessas: confrontar os dois grupos políticos no Congresso Nacional sobre a origem das receitas e a desoneração do setor de transporte de passageiros, cobrando compromissos firmados no Orçamento Geral da União de 2027.

Patamares inéditos

O turismo brasileiro alcançou patamares operacionais e econômicos inéditos, alicerçado na perseverança de operadoras, redes hoteleiras, companhias aéreas e milhares de pequenas empresas que aprenderam a operar com competência técnica. Esse ciclo de maturidade, no entanto, permanece sob o raio de influência da governança federal. Os dois polos eleitorais que disputam a Presidência da República inseriram o setor em seus planos estratégicos, mas oferecem receitas essencialmente distintas para os próximos quatro anos.

O papel do empresariado, dos secretários estaduais e dos consultores de planejamento é abdicar da passividade eleitoral. A solidez de um mercado bilionário decorre de sua capacidade de agir como ator político consciente de seu peso socioeconômico: defendendo conquistas operacionais, preservando o valor intangível de sua marca no exterior e exercendo pressão técnica indistinta sobre o governante que sair vencedor das urnas de outubro.

A política pode ser o vento que empurra ou o vento que derruba — cabe ao setor construir o lastro para navegar nos dois tempos.

* Marcelo Poletto — Consultor independente de desenvolvimento turístico

Fontes: Embratur, Ministério do Turismo, Banco Central, IBGE, BNB/ETENE, Sudene, WTTC, OCDE, CNC, FGV, TSE, Datafolha, Quaest e imprensa especializada. Dados de setembro de 2026.

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