Há lugares que impressionam pelas paisagens. Outros encantam pela biodiversidade. E existem aqueles raros destinos capazes de provocar uma verdadeira transformação na forma como enxergamos a natureza. Bonito, no Mato Grosso do Sul, pertence a essa última categoria.
Por Reinaldo Canto, especial para o Diário do Turismo*
Reconhecido internacionalmente como um dos principais destinos de ecoturismo do mundo, o município oferece experiências que vão muito além do lazer. Cada trilha, nascente, rio cristalino ou formação geológica revela a extraordinária riqueza natural da região da Serra da Bodoquena e ajuda a compreender por que a conservação ambiental é tão importante.
Entre as atrações mais emblemáticas estão a flutuação no Rio da Prata, o mergulho na Lagoa Misteriosa e a visita ao Buraco das Araras. Três experiências distintas, mas igualmente inesquecíveis.

A sensação de voar sobre as águas do Rio da Prata
Poucas experiências se comparam à primeira entrada nas águas cristalinas do Rio da Prata. A transparência impressiona desde os primeiros metros. Com máscara, snorkel e roupa de neoprene, o visitante é levado suavemente pela correnteza, em uma espécie de voo silencioso sobre um gigantesco aquário natural.
A visibilidade chega a dezenas de metros, permitindo observar cardumes de piraputangas, dourados, curimbatás e outras espécies que convivem em perfeita harmonia naquele ambiente preservado. A sensação é de estar dentro de um documentário sobre a vida selvagem.
O percurso passa por nascentes e trechos de mata ciliar extremamente bem conservados. A água, filtrada naturalmente pelas rochas calcárias da região, adquire uma transparência quase surreal, criando um espetáculo de luzes, cores e movimentos.
Ali, o turista deixa de ser mero observador e torna-se parte da paisagem.

Lagoa Misteriosa: um mergulho em um mundo desconhecido
Se o Rio da Prata encanta pela abundância de vida, a Lagoa Misteriosa provoca fascínio pelo mistério.
O nome não é exagero. Trata-se de uma dolina inundada cercada por vegetação nativa, cujas águas azuis apresentam uma transparência impressionante. Durante muitos anos acreditou-se que seu fundo jamais seria encontrado.
Mesmo com os avanços tecnológicos e expedições especializadas, a profundidade total do sistema continua cercada de desafios. A lagoa ultrapassa os 220 metros de profundidade conhecidos, mantendo o status de uma das cavernas alagadas mais profundas do Brasil.

Para quem pratica mergulho autônomo, a experiência é quase hipnótica. À medida que se desce, os tons de azul tornam-se mais intensos e o ambiente ganha uma atmosfera silenciosa e contemplativa. A luz penetra em feixes luminosos que criam cenários de rara beleza.
Mesmo para quem opta apenas pela flutuação, a Lagoa Misteriosa oferece uma experiência única de contato com um dos ambientes mais singulares do país.

O espetáculo das araras vermelhas
Se a água domina os cenários do Rio da Prata e da Lagoa Misteriosa, no Buraco das Araras são os céus que roubam a cena.
A enorme dolina com cerca de 100 metros de profundidade e mais de 500 metros de circunferência abriga uma das mais importantes concentrações de araras-vermelhas da região.
A caminhada ao redor da cratera permite observar essas aves magníficas em pleno comportamento natural. Os voos sincronizados, os chamados característicos e as disputas pelos ninhos transformam a visita em um verdadeiro espetáculo da vida selvagem.

Além das araras, é possível avistar tucanos, seriemas, gaviões e diversas outras espécies que utilizam o local como refúgio.
O mais impressionante é perceber como um ambiente que já esteve ameaçado pela degradação tornou-se um exemplo de recuperação ambiental e proteção da biodiversidade.

Turismo que ajuda a conservar
O grande diferencial de Bonito talvez não esteja apenas na beleza de suas atrações, mas no modelo de gestão que conseguiu associar turismo e conservação ambiental.
O controle do número de visitantes, a proteção das nascentes, a valorização da biodiversidade e o envolvimento dos proprietários rurais criaram um exemplo frequentemente citado por especialistas em sustentabilidade e turismo responsável.
Ao final da viagem, o visitante leva muito mais do que fotografias. Leva a certeza de que a natureza brasileira possui tesouros extraordinários e que sua preservação depende do compromisso coletivo.

Bonito não é apenas um destino turístico. É uma aula prática de conservação ambiental. E experiências como a flutuação no Rio da Prata, o mergulho na Lagoa Misteriosa e a visita ao Buraco das Araras ajudam a explicar por que esse pequeno município sul-mato-grossense continua encantando viajantes do mundo inteiro e se consolidando como uma das maiores referências em ecoturismo do planeta.
*O jornalista recebeu todo o apoio de Eduardo Folley Coelho (Presidente do IASB – Instituto das Águas da Serra da Bodoquena) e de João Gomes, diretor do IASB.





