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Túnel Santos–Guarujá: 100 anos de espera e o eterno “agora vai”

Era uma vez um túnel, por Rita Gottardi 
Eu vivi os anos 80. Nem preciso de IA para criar uma imagem minha dos anos 80. Eu estava lá!
Usei ombreira, calça bag, cabelo Chitão e Xororó; ouvi fita cassete, esperei telefone fixo desocupar e sobrevivi a muita coisa que hoje voltou à moda e chamam de retrô.
Mas tem uma coisa que eu não apenas vivi.
Eu vi envelhecer.
O túnel Santos–Guarujá. Desde criança ouço falar…
A essa altura, não sei mais se estamos esperando uma obra de engenharia ou o reencontro de duas almas depois de uma longa separação.
O túnel foi idealizado em 1927.
1927!
Isso significa que o túnel já existia como promessa quando Santos ainda estava aprendendo a ser a cidade que conhecemos.
Ele atravessou governos, presidentes, moedas, crises econômicas, planos econômicos, ditaduras, democracias, inflação, hiperinflação, internet discada, Orkut, Facebook, Instagram e agora inteligência artificial.
A inteligência artificial chegou antes do túnel.
Isso deveria constranger alguém.
Eu me lembro de ouvir falar:
— Um dia sai.
Esse “um dia” é uma das expressões mais perigosas da língua portuguesa.
Porque “um dia” pode significar amanhã.
Pode significar ano que vem.
Pode significar depois das eleições.
Ou pode significar 99 anos.
Em 2009, quando eu já era adulta, veio a notícia:
— Agora vai!
O governador José Serra anunciou que o túnel começaria naquele ano.
Naquele ano!
Eu devia ter guardado a informação.
Podia ter feito uma aposta.
“Guarde este jornal. Um dia será documento histórico.”
Só que depois apareceu uma ponte.
Sim, você não leu errado não, uma ponte.
O túnel, depois de décadas de namoro com Santos, descobriu que havia uma terceira pessoa na relação.
Lá veio maquete, projeto, promessa, discussão…
Depois voltou o túnel.
Porque o túnel é igual àquele ex, que ninguém consegue esquecer.
Vai embora, mas volta.
Vieram novos estudos.
Nova licitação.
Novo governo.
Novo anúncio.
Nova previsão.
Novo adiamento.
E a gente, santista, foi ficando especialista em não acreditar.
— Agora sai.
— Será?
— Tem projeto.
— Sei.
— Tem orçamento.
— Sei.
— Tem licença.
— Sei.
— Tem contrato.
— Ah…
Aí a gente olha diferente, porque contrato já é outra conversa.
Agora dizem que a obra começa em 2027 e que poderá estar funcionando em 2031.
Eu torço.
Torço de verdade.
Porque já estou chegando naquela idade em que quero ver o túnel pronto antes de virar patrimônio histórico.
E quero atravessá-lo.
Não quero foto da inauguração.
Não quero placa com meu nome.
Não quero medalha.
Quero apenas entrar no carro e dizer:
— Vamos para o Guarujá.
Sem balsa e sem fila.
Sem ficar olhando para aquele monte de carros parados enquanto o sujeito da frente resolve, naquele exato momento, procurar alguma coisa no porta-luvas.
Quero olhar para os lados e pensar, “meu Deus, eu estou dentro do túnel.
Demorou tanto que, quando finalmente ficar pronto, não vai ser apenas uma obra.
Vai ser uma lembrança materializada.
Porque o santista não passou 100 anos esperando um túnel.
Passou 100 anos contando a história de que um dia ele viria.
Mesmo depois de quase um século.
Mesmo depois de tantas promessas.
Mesmo depois de tanta balsa.
Principalmente…mesmo depois de tanto “agora vai”.
O interessante, é que a vontade é tanta que tem governador fazendo propaganda política como se a ponte, túnel, ponte, ah sei lá,  já existisse.
Quem sabe, talvez, mais 99 anos…
Saga de um tunel: 1927 — Júlio Prestes: surge o primeiro projeto de túnel.
1940/1948 — novas propostas: ponte começa a disputar espaço com o túnel.
2009 — José Serra: “o túnel vai começar este ano”.
2010 — José Serra: muda para ponte, apresenta maquete e promete 2012.
2011–2013 — Geraldo Alckmin: abandona a ponte e volta ao túnel.
2015 — projeto é cancelado.
2022 — governo federal: volta a colocar o túnel no programa de investimentos.
2023–2025: projeto ganha força novamente.
2026: finalmente é assinada a PPP para a construção

*Rita Gottardi é jornalista, escritora e ex-agente de viagens

Yah! Salvei da bala meu ex-chefe da agência de viagem!

 

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