Do dólar tratado como “dinheiro de verdade” à expectativa de que estrangeiros falem inglês, certos comportamentos de turistas dos EUA expõem uma visão de mundo alimentada durante décadas pela ideia de superioridade cultural
DA REDAÇÃO com agências internacionais
O excepcionalismo americano não aparece apenas nos discursos políticos de Washington. Em viagens internacionais, ele pode surgir em situações aparentemente banais: na surpresa diante de costumes diferentes, na expectativa de ser atendido em inglês, na comparação constante com os Estados Unidos ou até na referência ao dólar como se fosse o único “dinheiro de verdade”.
Generalizar seria injusto. Milhões de norte-americanos viajam pelo mundo respeitando idiomas, culturas e costumes locais. Mas determinados comportamentos associados ao turista dos Estados Unidos encontram correspondência em algo mais profundo e documentado: a convicção, presente em parcela relevante da sociedade americana, de que seu país ocupa uma posição especial — e eventualmente superior — diante dos demais.
Essa percepção tem nome: excepcionalismo americano.
Excepcionalismo americano vai além de uma impressão
Uma pesquisa internacional do Pew Research Center encontrou um dado revelador. Em levantamento publicado em 2007, 55% dos norte-americanos concordavam com a afirmação de que sua cultura era superior às demais. O percentual era maior do que o registrado em países como Canadá, Espanha, Alemanha, França, Reino Unido e Suécia. A pesquisa também mostrou, porém, que a crença na superioridade cultural estava longe de ser exclusividade dos Estados Unidos e aparecia, em níveis ainda maiores, em diversos outros países.
Anos depois, outro levantamento do Pew mostrou uma mudança gradual. Em 2011, aproximadamente metade dos norte-americanos ainda considerava sua cultura superior às demais, percentual inferior aos seis em cada dez registrados em 2002. Os jovens apresentavam menor adesão a essa visão do que as gerações mais velhas.
Outra pesquisa daquele período encontrou 38% dos entrevistados afirmando que os Estados Unidos estavam acima de todos os demais países do mundo. Outros 53% diziam que o país estava entre os melhores, juntamente com outras nações. Apenas 8% consideravam que existiam países melhores que os EUA.
Os levantamentos são antigos e não devem ser apresentados como retrato estatístico dos Estados Unidos de 2026. Mas ajudam a explicar historicamente uma ideia profundamente incorporada ao imaginário nacional.
Quando o dólar vira “dinheiro de verdade”
É justamente nas pequenas situações que essa percepção pode ganhar contornos desagradáveis.
Uma delas ocorre quando um turista converte o preço de determinado produto para dólares e pergunta quanto aquilo representa em “dinheiro de verdade”. A frase pode parecer inocente para quem a pronuncia, mas carrega uma mensagem implícita: a moeda local seria secundária e o dólar, a verdadeira medida de valor.
Naturalmente, a importância internacional da moeda americana é um fato econômico. Transformar essa importância em hierarquia cultural, porém, é outra coisa.
O mesmo ocorre quando países inteiros são definidos simplesmente como integrantes do “Terceiro Mundo”.
Além da carga depreciativa que adquiriu, a expressão perdeu boa parte de sua utilidade analítica depois do fim da Guerra Fria. O próprio Banco Mundial observa que hoje já é raro encontrar o termo “Third World” e questiona até categorias muito mais brandas, como “mundo em desenvolvimento”, diante da enorme diversidade econômica e social existente entre os países agrupados sob esses rótulos.
Chamar uma sociedade visitada de “Terceiro Mundo”, portanto, pode dizer menos sobre aquele país do que sobre a maneira hierárquica como o visitante enxerga o planeta.
“Por que ninguém fala inglês aqui?”
Poucas atitudes sintetizam tão bem o problema quanto viajar para outro país e indignar-se porque seus habitantes não falam inglês.
O inglês tornou-se uma língua internacional e facilita enormemente o turismo. Isso não transforma, entretanto, um garçom em Buenos Aires, um motorista em Tóquio, uma recepcionista no interior da Itália ou um comerciante brasileiro em alguém obrigado a dominar o idioma de quem chegou.
O princípio elementar da viagem deveria funcionar justamente no sentido contrário: é o visitante que entrou na casa cultural do outro.
Aprender algumas palavras — “bom dia”, “por favor”, “obrigado”, “desculpe” — não exige fluência. Demonstra respeito.
A diferença parece pequena, mas revela duas formas completamente distintas de viajar: uma procura conhecer o lugar; a outra espera que o lugar se adapte ao visitante.
Excepcionalismo americano e a ideia de que o mundo deveria funcionar como os EUA
Outro comportamento recorrente é avaliar costumes estrangeiros exclusivamente pela régua americana.
Horários diferentes, refeições demoradas, regras comerciais menos flexíveis, formas distintas de atendimento, tradições religiosas, relações familiares ou hábitos cotidianos podem provocar estranhamento. Isso é natural.
O problema começa quando “diferente” passa automaticamente a significar “atrasado”.
Até a conhecida máxima comercial americana de que “o cliente tem sempre razão” perde força quando atravessa determinadas fronteiras. O modelo de atendimento dos Estados Unidos foi moldado por sua própria cultura empresarial. Não existe razão para supor que ele constitua uma norma universal à qual restaurantes, hotéis e estabelecimentos de todos os países devam se submeter.
Viajar não significa transportar os Estados Unidos na mala e exigir que o destino reproduza seus códigos.
“Exótico” para quem?
Outra palavra aparentemente inocente merece atenção: “exótico”.
Uma paisagem, uma comida ou uma população é exótica em relação a qual padrão?
Quando culturas não ocidentais são repetidamente descritas dessa maneira, o vocabulário pode estabelecer silenciosamente um centro e uma periferia: aquilo que pertence ao universo familiar do viajante torna-se “normal”; o restante vira “exótico”.
Essa lógica se aproxima do problema central do excepcionalismo americano quando ele assume a forma de superioridade cultural: os Estados Unidos deixam de ser uma sociedade entre tantas outras e passam a funcionar como referência a partir da qual o restante do planeta é medido.
A contradição dentro dos próprios Estados Unidos
Seria equivocado concluir, contudo, que os norte-americanos formam uma sociedade uniformemente convencida de sua superioridade.
Os próprios dados do Pew mostram diferenças geracionais e políticas importantes. E existe outro elemento interessante: a capacidade de autocrítica.
Em pesquisa internacional de 2005 analisada pelo Pew, 70% dos próprios americanos descreveram seus compatriotas como “gananciosos”, proporção superior à registrada entre os estrangeiros pesquisados. Cerca de metade também considerava os americanos violentos. O instituto interpretou esses resultados como evidência de uma autocrítica que relativiza a imagem de uma sociedade simplesmente tomada pela arrogância.
Há, portanto, uma disputa dentro dos próprios Estados Unidos sobre como o país enxerga a si mesmo e seu lugar no mundo.
Do turista à política externa
O excepcionalismo também possui uma dimensão geopolítica.
Uma análise histórica do Pew sobre valores americanos observou que a enorme influência econômica, militar e cultural dos Estados Unidos amplifica internacionalmente atitudes que, em países menos poderosos, teriam consequências menores. A pesquisa identificou ainda uma percepção externa recorrente de que Washington age unilateralmente e nem sempre considera suficientemente os interesses dos demais países.
É justamente aí que uma discussão aparentemente banal sobre turistas ganha interesse.
O viajante que espera encontrar inglês em todos os lugares, considera sua moeda o “dinheiro verdadeiro”, classifica outras sociedades como atrasadas ou estranha que os serviços não funcionem como nos Estados Unidos não representa necessariamente seu país — muito menos seus 340 milhões de habitantes.
Mas essas atitudes podem reproduzir, em escala cotidiana, uma visão de mundo bastante conhecida: nós somos a referência; vocês são os diferentes.
Viajar deveria produzir o efeito contrário
Existe uma ironia nisso tudo.
Poucas experiências são tão eficientes para desmontar a sensação de superioridade cultural quanto viajar.
Cruzar uma fronteira significa descobrir que aquilo que parecia universal era apenas costume. Que existem outras maneiras de comer, trabalhar, receber hóspedes, educar crianças, organizar cidades, celebrar, negociar e enxergar a própria vida.
Talvez seja justamente essa a principal diferença entre visitar um país e realmente viajar.
O primeiro movimento troca apenas a paisagem.
O segundo exige algo mais difícil: abandonar, ainda que temporariamente, a confortável convicção de que o nosso modo de viver é necessariamente a medida de todos os outros.




