Fiz um mergulho em busca de um Brasil profundo e de nossas raízes de um país multiétnico. Redescobri um país original com uma cultura além de original, ancestral. Conheci a Expedição Haliti-Paresi, nas Terras Indígenas Paresi, a cerca de 300 quilômetros de Cuiabá, no Mato Grosso. Essa expedição integra o projeto Menahehaliti que envolve os institutos Bancorbrás e Samaúma, agência Vivalá, prefeitura de Tangará da Serra e governo do Mato Grosso.
Por Paulo Atzingen, de Tangará da Serra e Cuiabá (MT)*
Os dois dias e meio que passei na aldeia foram suficientes para me reconectar a fenômenos naturais – que vão se extinguindo no mundo urbano com sua pressa e superficialidade: sentir o vento no rosto, ver o nascer do sol, tomar banho de rio, contemplar a via-láctea, ou simplesmente brincar de peteca…
Fomos recebidos pelos integrantes da aldeia Katyalarekwa, Oreke, Serra Dourada e Arara Azul, que fazem parte do povo Haliti Paresi, pelos caciques dessas aldeias, suas mulheres e suas crianças.


Povo eterno
Somos tratados com reverência, amizade e a clareza na comunicação se destaca. A aldeia mantém sua língua materna, a Paresi, do tronco linguístico Aruak, e entre eles é usada essa língua materna. Os líderes, no entanto, conosco, falam português.
“Ficamos muito alegres, honrados com vossas presenças. Sejam bem-vindos! Reverenciou-nos, Pedro Kezowe um dos líderes da nação indígena. Ele logo explica o significado do projeto Menahehaliti: “Eterno, que não morre, que vive para sempre, porque Menahehalitié é um projeto que está voltado para manter e revitalizar a cultura do povo Paresi, com todo o seu conhecimento, científico, técnico e a cosmovisão do povo Paresi, transmitido de geração a geração”, afirma em nossa chegada.

Cinco aldeias
Pedro Kezowe, explica que o projeto Menahehaliti contempla cinco aldeias: Arara Azul, Oreque, Duas Cachoeiras, Katyalarekwa, e Serra Dourada, mas que existem outras, que embora sejam da mesma etnia Haliti Paresi – cerca de 3 mil pessoas no total -, não estão no projeto turístico.
Simplicidade na complexidade
É evidente que não estamos no centro do paraíso na Terra, e obviamente essa aldeia tem seus desafios de coexistência com o mundo que o cerca (leia-se o agronegócio do Mato Grosso), mas é possível afirmar que quanto mais se vivencia a simplicidade-complexidade de uma aldeia – desta aldeia especificamente – mais se percebe ou se constata que estamos a cada dia mais nos distanciando do que éramos quando nascemos.
É essa a perspectiva do Instituto Bancorbras. “É um projeto que conversa tanto com a nossa causa, porque é justamente o que a gente tem procurado e também promovido, que é o incentivo e desenvolvimento de povos tradicionais, de comunidades, de territórios em situação de vulnerabilidade”, afirma Roberta Abreu, gerente executiva do Instituto Bancorbras.

Poder da colaboração
Segundo Roberta, a intenção do Instituto nunca foi e nunca será a comercialização pura e simples de uma cultura, mas, pelo contrário, a proposta é o desenvolvimento sustentável dessas comunidades. “A gente acredita muito no poder da colaboração. Quanto mais institutos, quanto mais empresas, quanto mais setor público, seja municipal, estadual, federal, tiver envolvido, mais o projeto se fortalece”, destaca. Ela lembra que o papel do Instituto Bancorbras é trazer direcionamento e fazer a conexão com o trade de turismo: “A gente acredita que a transformação, a capacidade técnica, a inteligência eles já têm aqui no âmbito da cultura deles. O que eles precisam é comercializar um negócio deles, de forma independente”, resume.

Pedro Franco, do Instituto Samaúma e da Vivalá, explica que o Instituto surgiu justamente para levar essa experiência às comunidades tradicionais, como povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos e comunidades calungas.
Segundo ele, o projeto Haliti-Paresi nasceu de uma demanda apresentada pelas próprias lideranças indígenas, por intermédio da Prefeitura de Tangará da Serra.
“Eles já haviam iniciado um trabalho e criado o projeto Menahehaliti, que reúne cinco aldeias voltadas ao turismo. O desafio era adaptar essa iniciativa ao mercado e fortalecer sua organização. Estamos vivendo esse desafio”, afirma.


Direto do rio
Passar uns dias na aldeia Paresi é desprogramar nosso modo comprador e aquisidor e respirar ares de comunhão, coletividade, troca e amizade. Beber água direto do rio, brincar de peteca, arco e flecha, curtir uma fogueira à noite e até jogar o zikonahiti , o cabeça bol.
Conhecendo a língua
Uma das atividades lúdicas oferecidas pelo pacote da Vivalá é aprender algumas palavras na língua Paresi, do tronco linguístico Aruak. Quem conduz a oficina é Salomão Nezokemazokai, chefe da aldeia Oreke. Expressões como Hikyaotse (Bom dia!); Maka Wihye (Boa noite), Hawaiyetya Entre! (Louve a Deus!) são apresentadas de forma divertida por Salomão.

Dormindo na hati
As casas dos halitis-paresi são as hati. Construídas com material oferecido pela natureza que circunda as aldeias, as hatis têm uma estrutura robusta e a engenharia nativa usa e abusa de cipós, caules de palmeiras e criatividade ancestral. Na aldeia Oreke as casas são cobertas pela espécie de palmeira chamada guariroba. Uma dessas casas foi onde dormimos as duas noites, onde ficam as barracas de camping, as redes e as camas. As barracas são providas de colchonete inflável, saco de dormir e manta.

Piscina em formato de coração
Na trilha para o Rio Verde, o afluente que beija a aldeia e traz a água mais transparente que se tem notícia, paramos em uma piscina natural que tinha uma laje lixada pela força da água e do vento e era especial para refrescar o corpo apenas até a cintura. Essa piscina tinha o formato de um coração e o líder da aldeia, Estevão Kenazokae, confirmou: “É uma forma original esse coração. A própria natureza manifesta-se em sua grandeza”, disse-me Kenazokae.


Veto à bebida alcóolica
Atividades físicas na medida certa, alimentação regional prevalecendo derivados da mandioca, frutas e carnes magras, pouco açúcar, pouco sal e veto total à bebidas alcóolicas formam o cardápio detox proposto pela expedição. As trilhas que fizemos na sexta-feira e no sábado foram muito agradáveis e o que nos esperava era um verdadeiro paraíso: o Rio Verde com uma transparência translúcida, brilhante, agitada.
Os jogos, arco e flecha, peteca são atividades leves, já o zikonahiti conhecido como cabeçabol é preciso um pouco mais de agilidade e energia. A alimentação está incluída no pacote e incluí café da manhã, almoço e jantar (Veja link abaixo).


Reinterpretação
A expedição Haliti-Paresi de etnoturismo tem a união de atores certos. A ideia é a construção de um projeto que reinterprete as culturas indígenas de um outro ângulo, e com uma outra perspectiva.
Essa reinterpretação permeia um olhar mais aprofundado de seu valor que tem mais a ver com pureza e essência do que com negócio ou preço.
Essa reinterpretação permeia um olhar que repudia o preconceito de uma cultura que é frágil e que foi durante o processo de colonização e ocupação territorial do Brasil rotulada como inferior ou atrasada.
Essa reinterpretação coloca as terras indígenas Paresi no epicentro da economia criativa e do etnoturismo, onde o valor das comunidades, das pessoas e de sua cultura precedem as leis implacáveis de mercado. Mas, ao mesmo tempo, essa reinterpretação coloca o problema do choque de culturas como uma solução contemporânea.
A parceria dos Institutos Bancorbrás e Samaúma, a operadora Vivalá, a prefeitura de Tangará da Serra e o governo Estadual do Mato Grosso apontam e apostam para esta solução contemporânea que é o turismo étnico e cultural.
SERVIÇO:
A Expedição Haliti Paresi é uma parceria entre o povo indígena local, o Instituto Samaúma, o Instituto Bancorbras e a agência Vivalá.
Reservas WhatsApp: +55 11 51943305 – Site: vivala.com.br – Instagram: @somosvivala
*O jornalista Paulo Atzingen viajou convidado pelo Instituto Bancorbras
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