Que bicho é este? – Crônica de Jorge Salim*

Que bicho é este?
Que transformou o mundo sem ser visto.
Que bicho é este?
Que mudou a sensação de semana com sete dias. Que igualou a segunda-feira aos outros dias. Segunda virou terça, quarta, quinta, sexta e fins de semana.
Os feriados zeraram. As datas festivas ou comerciais, zeraram.
Os aniversários e os velórios se tornaram irmãos gêmeos na desgraça, encontros de pessoas, antes reuniam muitas pessoas e hoje são unidos nas alegrias e tristezas, porém sem ninguém por perto. Aniversários ficaram on-line, via Skype ou Lives nas redes sociais. Os funerais viraram cerimônias bizarras e caixões lacrados transformaram as dores da perda do ente querido em duplo sofrimento, o adeus e a homenagem ao luto, zeraram.
Que bicho é este?
Que mudou as relações entre as gerações. Crianças e jovens para um lado, idosos para o lado. Que mostrou a cara da intolerância e o preconceito social e funcional, profissionais médicos uniformizados são molestados nas ruas. Parece que voltamos aos tempos da ojeriza por leprosos. Falta de humanidade.
Porém nem tudo é notícia ruim, este bicho recolocou os animais domésticos como parceiros e criaturas que nos fazem companhia em nossa solidão do isolamento social compulsório. Hoje, por enquanto, eles, os animais, são vistos com uma solução para este convívio de confinamento.
Que bicho é este?
Transformou uma inversão de valores em tempo recorde e quase imediato.
Profissionais que eram idolatrados por usarem os pés e que ganham uma fortuna por aparecem aos sábados, domingos e meio de semana, deixam de ser heróis, pois os profissionais que se utilizam das mãos e salvam vidas diuturnamente, ganham miseráveis salários e que agora são saudados como verdadeiros heróis.
Que bicho é este?
Que transformou aquele ou aquela pessoa que trabalhava num tipo dispensável fica afastado daquela função e obriga a este mesmo profissional a descobrir um novo trabalho, mostrando que só saímos da zona de conforto quando existe uma ameaça ou choque em nossas vidas, acomodadas e rotineiras de anos e anos.
Que bicho é este?
Que fez com que os pais ficassem juntos com os filhos o tempo todo em casa. Voltando a manter o convívio diário. Os fizeram realizar o exercício da tolerância, paciência e suportabilidade das idiossincrasias de cada um. Até se voltarem para a fé, a união familiar, a rezarem para um Deus generoso, que às vezes gera uma insatisfação pela situação mundial de pandemia.
Que bicho é este?
Faz a maioria das pessoas a se reinventarem e aprender saídas para se comunicarem com os outros através de vídeo-chamadas ou mensagens em tempo real. Que reafirmou o trabalho em casa, chamado de ‘home office’, antes defenestrado pelos empresários que exigem a presença do colaborador engravatado nas salas aquários para serem notados ou se preferirem, vigiados.
Que bicho é este?
Que transforma um ser qualquer em um ‘gênio’ que mostra como fazer de vários tipos de tecidos num objeto difícil de ser encontrado, as máscaras protetoras, fazendo o branco oficial se transformar em modelos fashions, cores e estampas das mais variadas. O que era sério, sisudo, vira algo alegre. E ainda intensificou a solidariedade, pois as postagens incrementam as relações de todos os envolvidos na divulgação.
Que bicho é este?
Que fez todos se voltarem para a sua religiosidade. O cristão ficou mais cristão, dentro das mais variadas correntes de interpretações da Bíblia Sagrada. O religioso se voltou para o seu sentimento de fé. Apenas a política que se enveredou para o radicalismo e aumentou as diferenças entre os partidários. Interpretações de ideologias mostraram que esse segmento não permite ter um comportamento de bom senso e lucidez. Extremismo não levará a nenhum lugar. O egoísmo, o orgulho, idolatria, males da vida humana e do comportamento social de materialistas, se mostram muito elevados neste momento de exacerbarmos as posturas políticas.
Que bicho é este?
Mostrou que as classes sociais não estão tão diferentes, pois quem é atingido com o Covid-19 pode ser branco, negro, asiático, latino, europeu, jovem ou idoso, rico ou pobre, macho ou fêmea, morador dos Jardins ou morador de rua. Regionalmente tanto faz, sulista ou nordestino, grandes centros ou pequeno no sertão brasileiro. Podemos considerá-lo um bichinho democrático.
Que bicho é este?
Que atinge qualquer ser humano, mas poupa os animais. Que poupa mais os novos do que os idosos. Seria um aviso que chegou a hora da renovação? Que premia a disciplina e pune os que insistem em fazer o que desejam. Que leva aquele cidadão preocupado com o seu próprio umbigo, a ser um forte candidato a ser entubado numa UTI? Faz com que digamos “TODOS” e não “EU”, que pensemos em “UNIÃO” e afastar os que pregam a palavra “SÓ”. A prática da rejeição deveria ser afastada, e em seu lugar, manifestarmos a solidariedade.
Que bicho é este?
Que está nos ensinando a modificarmos nosso entendimento antigo em novas práticas. Que possamos nos transformar em pessoas de bem. Em pessoas mais espiritualizadas. Em buscar as razões por estarmos participando dessa onda, talvez Nova Era, um descobrimento do renascimento da humanidade. Como as outras que tivemos na história da civilização. Evoluirmos é necessário. Temos que ouvir e entender os sinais, e cumprir o que nos foi dado, temos o livre-arbítrio, podemos fazer as nossas escolhas, porém respeitarmos as consequências destas escolhas.
Esse bicho, não é o bicho-papão, talvez ele esteja nos avisando, apenas. Ele nos tornou eremitas de nossas vontades e nos colocou no casulo da modernidade. Quando a hibernação acabar, seremos as crisálidas de um Novo Tempo.
Que assim seja, graças a Deus.
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*Jorge Salim é publicitário e ex-diretor de marketing da operadora GapNet

Paulo Atzingen
Paulo Atzingenhttps://www.diariodoturismo.com.br
Paulo Atzingen é paulista e jornalista profissional (DRT-185 PA) desde o ano 2000; cursou Letras e Artes e Comunicação Social na Universidade Federal do Pará (UFPA), É poeta, contista e cronista. Estuda gaita (harmônica).

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