Cristiano Vasques, da HotelInvest, aponta desaceleração da demanda e afirma que cenário econômico e incerteza eleitoral devem limitar investimentos no setor
Por Bruno Almeida – colaboração para o DIÁRIO
A hotelaria brasileira deve entrar em 2027 em um cenário de crescimento moderado ou estabilidade, marcado pela desaceleração da demanda, juros elevados e baixa perspectiva de novos empreendimentos. A avaliação foi apresentada nesta segunda-feira (14) por Cristiano Vasques, da HotelInvest, durante o 8º Fórum Nacional da Hotelaria, realizado pelo FOHB (Fórum de Operadores Hoteleiros do Brasil).
Na palestra “Panorama da Hotelaria HotelInvest e FOHB“, Vasques apresentou o estudo com dados do mercado e afirmou que a combinação de incertezas macroeconômicas e políticas deve continuar restringindo investimentos e a entrada de novos hotéis nos próximos anos. Conforme a pesquisa de clima realizada com 25 das principais redes hoteleiras que atuam no país, embora as empresas tenham indicado inicialmente uma expectativa de aumento, o desenvolvimento de empreendimentos encontra no acesso a financiamento um dos principais obstáculos. Com juros elevados e pouco crédito disponível, novos projetos dependem cada vez mais de capital próprio.
“O dinheiro está vindo de capital próprio. Com financiamento ou só capital próprio”, começou Vasques. Segundo ele, as condições atuais devem manter limitada a oferta de novos hotéis nos próximos anos. “Uma indústria que não tem dinheiro disponível para você ampliar, (…) e o pouco dinheiro que tem é vinculado a juros que estão muito altos, é uma indústria que provavelmente não vai ter oferta nova nos próximos anos”.

De acordo com ele, há uma perda de ritmo da hotelaria nas 12 principais capitais brasileiras. No primeiro semestre de 2026, a ocupação cresceu apenas 0,8% na comparação com o mesmo período de 2025, contra uma alta de 13% registrada um ano antes. Na diária média, o avanço passou de 6% no primeiro semestre de 2025 para 1,5% acima da inflação neste ano. Já o RevPAR, indicador que combina ocupação e diária média e é usado para medir a receita por quarto disponível, teve crescimento de 2,3% acima da inflação, contra quase 10% no ano anterior.
“A gente tem um panorama fiscal muito complicado”, afirmou. Para o especialista, a situação atual é de limitação da capacidade de consumo das famílias e das empresas, além da redução do espaço para que a economia continue crescendo com base no emprego e no endividamento.
Eleições de 2026
A incerteza política também foi apontada como um fator relevante para as perspectivas do setor. Ao comentar as eleições de 2026, Vasques afirmou que os diferentes caminhos possíveis para o país podem produzir políticas econômicas e sociais distintas. “Temos uma eleição pela frente, e essa eleição pode ir totalmente para a direita ou manter o rumo atual. Provavelmente a gente tem políticas econômicas e sociais muito diferentes em cada um dos sinais. Está absolutamente indefinido, tudo pode acontecer e isso diz muito do que vem pela frente (para o setor)”, afirmou.
Apesar da desaceleração, o especialista entende que o desempenho atual do setor ainda é positivo. Ocupação, diárias e receitas continuam crescendo acima da inflação em grande parte dos mercados, o que mantém margens de lucro consideradas saudáveis. “Elas estão crescendo acima da inflação. Diminuindo o crescimento, mas ainda acima da inflação”, afirmou.
A perspectiva para 2027, portanto, não é de retração generalizada, mas de um ritmo mais contido, com diferenças entre os mercados. Vasques avalia que cidades mais dinâmicas, com menor oferta ou que estejam passando por um ciclo mais recente de recuperação, podem apresentar desempenho melhor. Já destinos que receberam novos empreendimentos ou que passaram por um período mais longo de recuperação podem registrar crescimento menor da receita, ainda que acima da inflação.
No segmento de resorts, a avaliação apresentada foi mais otimista. Segundo Vasques, os empreendimentos vêm registrando ocupação entre 80% e 85%, sustentada principalmente pelo mercado doméstico. Para ele, esse desempenho esconde um potencial ainda pouco explorado no turismo internacional. “A gente está trabalhando ainda muito pouco com viajantes internacionais”, encerrou.




