O Salão Abrasel 2026 chega a São Paulo em um momento em que bares e restaurantes convivem com duas realidades distintas: de um lado, um mercado que pode movimentar R$ 540 bilhões neste ano; de outro, custos elevados, dificuldades para contratar trabalhadores qualificados e empresas com contas em atraso. Esse cenário estará no centro dos debates do encontro, marcado para 15 e 16 de setembro, no Pavilhão Ciccillo Matarazzo, no Parque Ibirapuera.
DA REDAÇÃO com assessoria especializada
Em sua primeira edição, o evento organizado pela Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) estima receber cerca de 12 mil profissionais. Empresários, gestores, fornecedores e especialistas discutirão principalmente tecnologia, produtividade, gestão e mudanças na operação dos estabelecimentos de alimentação fora do lar.
A realização integra a Semana da Alimentação Fora do Lar e passará a ocorrer a cada dois anos. A programação inclui debates, exposição de produtos e demonstrações de tecnologias aplicadas a bares e restaurantes.
Mais de 50 empresas estarão presentes na área de exposição.
Salão Abrasel 2026 coloca IA dentro da cozinha
A inteligência artificial terá espaço relevante na programação. Em vez de aparecer apenas como tema de painéis, a tecnologia será demonstrada em situações relacionadas à rotina de uma cozinha profissional.
Uma das experiências previstas é o Restaurante do Futuro – Cozinha 4.0, apresentado pela 99Food e coordenado pelo consultor Jonas Romero. O espaço utilizará softwares de inteligência artificial para acompanhar o Custo das Mercadorias Vendidas (CMV), estoques e outros processos da operação.
Automação, logística de delivery, meios de pagamento, consumo de energia e redução de desperdícios também estarão entre os assuntos abordados.
A programação inclui ainda o Comanda Aberta, no qual empresários apresentarão experiências de gestão e soluções adotadas em seus estabelecimentos. As chamadas Arenas Interativas terão debates entre especialistas, empreendedores e público sobre questões práticas enfrentadas por bares, restaurantes, cafeterias, padarias e negócios semelhantes.
Setor cresceu, mas custos pressionam empresas
A discussão ocorre em um mercado de grande peso econômico. A alimentação fora do lar reúne mais de 1,5 milhão de estabelecimentos espalhados pelos 5.570 municípios brasileiros.
Dados oficiais do Governo Federal indicavam 1.379.420 CNPJs ativos no segmento em agosto de 2024. Desse universo, 65% eram Microempreendedores Individuais (MEI), 33% estavam enquadrados no Simples Nacional e apenas 2% correspondiam a empresas de médio e grande porte.
O faturamento também avançou nos últimos anos. Segundo números apresentados pela Abrasel, o setor movimentou R$ 455 bilhões em 2024 e R$ 495 bilhões em 2025. Para este ano, a associação trabalha com uma projeção de R$ 540 bilhões.
O crescimento, entretanto, não elimina problemas estruturais. Segundo a entidade, 37% dos estabelecimentos possuem contas em atraso. Entre essas empresas, 75% têm pendências relacionadas a impostos federais, 51% a tributos estaduais e 32% a empréstimos bancários.
A inflação dos alimentos afeta 70% dos estabelecimentos, enquanto 58% apontam a escassez de mão de obra qualificada como um dos obstáculos ao funcionamento do negócio.
Cinco milhões de trabalhadores
O setor emprega aproximadamente cinco milhões de pessoas, considerando trabalhadores formais e informais, segundo dados da PNAD Contínua/IBGE citados pela Abrasel. O contingente representa 7,9% das ocupações do país e responde por uma massa salarial anual estimada em R$ 107 bilhões.
A informalidade, porém, permanece elevada: alcança 41% dos trabalhadores do segmento, acima dos 34% registrados para o mercado de trabalho brasileiro.
A força de trabalho tem idade média de 34 anos e média de 11 anos de escolaridade. As mulheres representam 49% dos trabalhadores e pretos e pardos, 63%.
Os gastos das famílias ajudam a explicar a dimensão desse mercado. Segundo a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF/IBGE), 32,8% das despesas dos brasileiros com alimentação são destinadas ao consumo fora de casa.
Cada R$ 1 mil movimenta outros R$ 3.650 na economia
Um estudo da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV EESP), citado pela Abrasel, aponta que cada R$ 1 mil gastos em bares e restaurantes provoca movimentação adicional de R$ 3.650 na economia, considerando os efeitos diretos, indiretos e induzidos.
A pesquisa estima também que cada grupo de mil empregos diretos criados no setor contribui para outros 2.250 postos indiretos ao longo da cadeia produtiva.
Outro indicador ajuda a dimensionar a vulnerabilidade dos negócios. Dados do IBGE apontam ciclo médio de vida de 11,5 anos para empresas dos segmentos de alimentação e alojamento. A média das empresas brasileiras é de 10,2 anos.
A Abrasel apresenta um recorte diferente: entre empresas de bares e restaurantes abertas nos últimos dez anos, o tempo médio de atividade é de apenas 3,9 anos.
Abrasel aposta em soluções práticas
É justamente a combinação entre crescimento econômico e dificuldades operacionais que a entidade pretende colocar em discussão durante o Salão Abrasel 2026.
“O empresário não precisa apenas de discurso ou vitrine. Precisa de troca, referência e solução aplicada”, afirma Paulo Solmucci, presidente-executivo da Abrasel.
Segundo ele, a intenção é aproximar empresas que desenvolvem tecnologias e serviços dos empresários responsáveis pela operação cotidiana dos estabelecimentos.
A programação também terá conteúdos relacionados a economia, negócios, tecnologia, gestão e gastronomia. Na manhã de 15 de setembro será realizada a etapa final do concurso nacional O Quilo é Nosso.





