Entre o foco no comprador, a força da Serra Gaúcha, a presença internacional e o papel do território no futuro das feiras de vinho no Brasil
Por Waleska Schumacher, Haia, Países Baixos
A Wine South America 2026, realizada em Bento Gonçalves, na Serra Gaúcha, reacende uma discussão importante sobre o futuro das feiras de vinho no Brasil: como equilibrar negócios, presença internacional, identidade regional e experiência de território.
Este ano eu não pude estar presente na feira. Era minha intenção acompanhar o evento de perto, circular pelos corredores, observar o movimento dos expositores e conversar com produtores e compradores. Não foi possível. Ainda assim, algumas conversas com pessoas que estiveram na Wine South America me ajudaram a olhar para esta edição por um ângulo interessante: não apenas o dos números, mas também o da percepção.

Quando os números crescem, mas a percepção muda
Uma visitante, amante dos bons vinhos, comentou que a feira lhe pareceu menor. A observação chama atenção porque a edição de 2026 foi apresentada pela organização como a maior da história da Wine South America, com mais de 400 marcas, cerca de 7 mil compradores e expectativa de movimentar R$ 110 milhões em negócios durante os três dias de evento, de 12 a 14 de maio, em Bento Gonçalves.
Mas talvez seja justamente nesse contraste que esteja a reflexão mais importante.

Segundo uma profissional ligada à organização, a feira cresceu em número de expositores. O que mudou foi o desenho visual do evento. Muitos participantes reduziram o tamanho de seus estandes. Algumas marcas de grande presença em edições anteriores, inclusive vinícolas relevantes da região e empresas com forte impacto visual, não estiveram presentes ou optaram por uma participação mais estratégica.
Assim, a feira pode ter crescido em quantidade, mas transmitido ao visitante uma sensação de menor volume.
Essa diferença entre número e experiência é decisiva. Uma feira de vinho não é percebida apenas pelas estatísticas. Ela é percebida pela energia dos corredores, pela ocupação dos espaços, pelas marcas que funcionam como referência, pela programação paralela e, sobretudo, pela clareza da proposta.

Bento Gonçalves como território do vinho brasileiro
A Wine South America acontece em um território simbólico. Bento Gonçalves, na Serra Gaúcha, carrega a memória da imigração italiana, a paisagem dos vinhedos, a gastronomia de origem, a hospitalidade das famílias produtoras e a construção de uma identidade vitivinícola brasileira que ainda precisa ser mais bem contada ao mundo.
Por isso, a presença internacional, especialmente a italiana, não me parece casual. A Wine South America está ligada à estratégia internacional da Vinitaly e ocupa um espaço particular: não é apenas uma vitrine do vinho brasileiro, mas também uma plataforma de aproximação entre produtores internacionais e o mercado sul-americano.
Segundo a mesma leitura interna da feira, uma parte importante do evento foi dedicada aos vinhos nacionais e outra aos pavilhões internacionais, com presença expressiva da Itália, além de Portugal, Espanha, Argentina e outros países. Essa composição revela uma característica importante: a feira tem vocação híbrida. Ela olha para o Brasil, mas também se abre ao mundo.

Uma feira B2B com presença internacional
A visão de uma vinícola italiana expositora reforça essa leitura. Para o produtor internacional, a Wine South America foi uma boa feira tanto para negócios quanto para degustar vinhos da América do Sul. A percepção sobre os vinhos brasileiros foi positiva, especialmente em relação aos espumantes elaborados pelo método tradicional e a alguns tintos.
Ao mesmo tempo, o expositor observou que, para otimizar os contatos com lojas, restaurantes e bares, seria importante já contar com uma estrutura de importação ativa no Brasil. Ainda assim, destacou a presença de bons importadores e a possibilidade de transformar contatos em clientes.

Do lado brasileiro, a avaliação de uma vinícola expositora também foi positiva. Houve contatos com clientes, ações paralelas nas caves e retorno interessante durante a feira. Alguns visitantes ainda demonstraram dúvidas, outros se mostraram receptivos, e o momento econômico pode ter influenciado parte das decisões comerciais. Mesmo assim, a Wine South America foi vista como uma feira promissora.
Essas percepções mostram que a feira gera movimento, mas também revelam seu principal desafio: transformar encontro em continuidade, degustação em negócio e presença em resultado concreto.

Outro ponto essencial é compreender para quem a feira existe. Segundo uma profissional ligada à organização, a Wine South America é uma feira com gestão empresarial, objetivos comerciais claros e foco declarado no comprador. Não é uma feira pensada para o consumidor final. O esforço está em atrair importadores, distribuidores, compradores de redes, restaurantes, hotéis e profissionais capazes de gerar negócios.
Essa leitura muda a forma de avaliar o evento. Uma feira B2B não precisa cumprir a mesma função de uma feira aberta ao público. Seu êxito depende menos do encantamento do visitante ocasional e mais da qualidade dos encontros comerciais, da presença de compradores relevantes e da capacidade de gerar resultados para os expositores.

O diferencial que São Paulo não pode copiar
Ainda assim, por acontecer em Bento Gonçalves, a Wine South America tem uma oportunidade que poucas feiras possuem: unir eficiência comercial e força de território.
A ProWine São Paulo ocupa outro lugar. Realizada no maior centro financeiro e logístico do país, consolida-se como uma feira ampla, urbana, internacional e fortemente orientada ao mercado. São Paulo oferece acesso, estrutura, hotéis, restaurantes, conexões aéreas e uma dinâmica comercial que facilita a presença de compradores nacionais e internacionais.
Nesse sentido, a ProWine São Paulo pode ocupar na América do Sul um papel semelhante ao que a Wine Paris vem assumindo na Europa: o de uma feira facilmente acessível, conectada ao mercado e inserida em uma cidade com grande capacidade de receber profissionais do mundo todo.

Bento Gonçalves, por outro lado, oferece outro tipo de valor: território, paisagem, vinhedos, gastronomia, memória italiana, espumantes brasileiros e experiência de origem. É uma feira que pode permitir ao comprador não apenas provar vinhos em um estande, mas sair da feira e viver a vinícola, conhecer o entorno, compreender a paisagem e sentir a cultura que dá origem àquele vinho.
É nesse ponto que a Wine South America pode afirmar sua identidade. Ela não precisa competir com São Paulo tentando ser igual. Pode ser a feira do vinho brasileiro no território brasileiro do vinho. Pode ser a ponte natural entre Brasil, Itália e América do Sul. Pode ser uma feira de negócios com alma, onde o comprador não apenas encontra marcas, mas entende o lugar de onde elas vêm.
O futuro das feiras de vinho
O momento atual das feiras de vinho no mundo mostra que nenhuma delas pode se apoiar apenas no histórico. Os orçamentos das vinícolas estão mais seletivos. As empresas escolhem com mais rigor onde investir. E, nesse cenário, sobreviverão melhor as feiras que souberem responder com clareza: por que alguém deve estar aqui, e não em outro lugar?

No caso da Wine South America, a resposta talvez esteja justamente em Bento Gonçalves. No foco no comprador, sim. Na presença internacional, também. Mas, sobretudo, na capacidade de transformar território em diferencial competitivo.
A feira já tem números, compradores e relevância. O próximo passo talvez seja tornar ainda mais visível a sua alma: brasileira, com memória italiana, vocação sul-americana e raízes plantadas no lugar onde o vinho brasileiro aprendeu a contar sua própria história.
Com este artigo, faço uma pausa nas reflexões sobre feiras de vinho até a ProWine São Paulo, onde estarei presente para observar, sentir e analisar o evento ao vivo.




