Evento da IATA começa neste sábado e debate alta dos combustíveis, conflitos geopolíticos e queda na demanda por viagens
O Rio de Janeiro recebe a partir deste sábado (6) o Evento da IATA, encontro que reunirá representantes de 370 companhias aéreas responsáveis por cerca de 85% do tráfego aéreo mundial. Durante três dias, executivos da indústria discutirão os principais desafios enfrentados pelo setor, em um cenário marcado pela alta dos custos operacionais, instabilidade geopolítica e desaceleração da demanda por viagens.
DA REDAÇÃO com informações da AFP
Promovido pela Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA), o congresso acontece em um momento considerado delicado para a aviação global. Até o fim de fevereiro, o setor mantinha uma trajetória positiva de recuperação pós-pandemia. No entanto, a escalada dos conflitos no Oriente Médio alterou significativamente as perspectivas para as companhias aéreas.
A situação se agravou após os ataques conjuntos de Estados Unidos e Israel ao Irã, desencadeando impactos diretos sobre a cadeia de fornecimento de petróleo e querosene de aviação. Com isso, países do Golfo interromperam exportações desses produtos, enquanto transportadoras da região reduziram drasticamente suas operações.
Combustível caro afeta planejamento das companhias
Os reflexos da alta nos preços do combustível já começam a aparecer nos cronogramas das empresas aéreas. Diversas companhias passaram a revisar seus planos para a temporada de verão no Hemisfério Norte, reduzindo frequências e ajustando rotas para conter custos.
“Os dados dos horários previstos apontam para uma redução da oferta nos próximos meses, o que indica que as companhias aéreas estão se esforçando para equilibrar os elevados custos do combustível e a demanda menor”, afirmou o diretor-geral da IATA, Willie Walsh.
A preocupação é reforçada pelos números mais recentes da entidade. Pela primeira vez desde o fim da pandemia de Covid-19, a demanda global por viagens aéreas registrou retração em abril, com queda de 3,4% na comparação anual, após crescimento de 2,1% observado em março.
Mercado observa desaceleração global
Segundo a consultoria especializada Cirium, os dados coletados desde maio apontam para uma desaceleração mais ampla do mercado aéreo.
“A desaceleração não se limita a uma região específica e agora é visível em outras, como a Europa Ocidental”, destaca a análise da empresa.
Apesar do cenário atual, Willie Walsh havia demonstrado confiança no início de abril quanto à capacidade de adaptação das companhias aéreas.
“Em 2011, 2012 e 2013, os preços do querosene estavam acima de 130 dólares o barril e o setor era lucrativo”, ressaltou.
Atualmente, segundo o índice da IATA, o barril de querosene de aviação gira em torno de 142 dólares, ampliando a pressão sobre as margens de rentabilidade das transportadoras.
Durante o Evento da IATA, a entidade apresentará suas projeções anuais atualizadas para o setor, permitindo avaliar se mantém a visão otimista apresentada nos primeiros meses do ano.
Passagens mais caras e estratégias para manter a rentabilidade
Nos meses de março e abril, a IATA já sinalizava que parte do aumento dos custos poderia ser repassada aos consumidores por meio de tarifas mais elevadas. Desde então, porém, muitas empresas têm evitado comentar publicamente o tema para não impactar a intenção de compra dos passageiros.
“Os preços das passagens de avião estão subindo de forma inexorável, mas as companhias são obrigadas a encontrar um equilíbrio entre o aumento de seus custos e a demanda”, explicou John Grant, analista da consultoria OAG.
A capacidade de absorver o aumento do preço do combustível varia entre as empresas. Companhias com maior disponibilidade de caixa conseguem suportar melhor períodos de menor rentabilidade.
A irlandesa Ryanair, por exemplo, lançou campanhas promocionais ao longo dos últimos meses para estimular a demanda. Já o grupo Air France-KLM adotou uma estratégia inédita para a temporada atual, oferecendo passagens modificáveis sem cobrança de taxas aos clientes da França e dos Países Baixos.
Empresas médias estão entre as mais vulneráveis
Especialistas avaliam que as empresas de médio porte enfrentam riscos maiores diante do atual cenário econômico.
“As companhias de porte médio com reservas de caixa limitadas são as mais expostas” e “não importa se são companhias tradicionais ou de baixo custo”, observou John Grant.
Com os desafios se acumulando e perspectivas ainda incertas para os próximos meses, o Evento da IATA no Rio de Janeiro deverá servir como uma importante plataforma para discutir estratégias capazes de garantir a sustentabilidade e o crescimento da aviação mundial.




