Em Canelones, Uruguai, a Festa e Museu da Chacra transforma a história da produção familiar em uma experiência de memória, gastronomia e resistência cultural. Durante visita, o DIÁRIO conversou com Federico López Romanelli, diretor de Patrimônio do governo de Canelones e coordenador da Fiesta y Museo de la Chacra.
por Paulo Atzingen, de Canelones, Uruguai*
A visita aproximou os jornalistas da Febtur – Federação Brasileira de jornalistas e comunicadores de Turismo à famílias que ainda mantêm práticas, receitas e costumes transmitidos entre gerações. Entre elas estão integrantes da Asociación de Mujeres Rurales del Uruguay (AMRU), entidade que reúne grupos de mulheres rurais de diferentes regiões do país.
Segundo Romanelli, os ranchos apresentados aos visitantes não são cenários criados apenas para a festa. Eles reproduzem ambientes que fazem parte da própria trajetória das mulheres que participam do projeto.
“São casas reais. Essas mulheres, desde pequenas, viveram em ranchos assim. A cozinha era dessa maneira e o que vocês estão provando são receitas e comidas que aprenderam com suas avós e seus avós”, explica.
Para ele, essa autenticidade é essencial para compreender a proposta da Festa da Chacra. “Não são pessoas que se vestiram para o momento. São pessoas que vivem na ruralidade e vivem isso.”


Organizações rurais mantêm viva a cultura das chacras
A Festa da Chacra reúne 22 organizações responsáveis pelos ranchos instalados no espaço. Participam cooperativas, grupos de fomento rural, associações e redes, entre elas a própria AMRU.
Cada organização mobiliza dezenas de participantes, enquanto outras entidades ligadas ao campo ocupam a feira que integra a programação.
Romanelli explica que a comercialização de produtos também tem um propósito cultural. “O que queremos é que eles vendam a identidade da ruralidade por meio da feira. Não que vendam qualquer coisa, mas que essa cultura esteja representada.”
A participação das mulheres ocupa posição importante nesse processo. A mobilização guarda relação também com o Dia Internacional das Mulheres Rurais, celebrado em 15 de outubro.
Em 2022, por exemplo, uma feira de empreendimentos de mulheres rurais foi realizada no Jardim Botânico de Montevidéu nessa data. A AMRU também participou das celebrações promovidas naquele ano em Canelones.
Em 2026, a 9ª edição da Festa da Chacra será realizada nos dias 31 de outubro e 1º de novembro, em San Jacinto, no departamento de Canelones, Uruguai.

Patrimônio rural como forma de resistência
Além da gastronomia e das tradições familiares, a iniciativa procura ampliar o reconhecimento das raízes culturais e dos povos originários presentes na formação uruguaia.
Para Romanelli, a Festa e o Museu da Chacra contribuíram para dar visibilidade à produção familiar e às comunidades ligadas a esse modo de vida.
“Há uma luta para permanecer no campo, para que o sistema produtivo familiar não desapareça”, afirma. Segundo ele, a preocupação também deve ser compreendida sob a perspectiva da preservação patrimonial.
O diretor considera que a agricultura familiar atravessa um momento decisivo, especialmente diante do envelhecimento das gerações que preservam conhecimentos e formas tradicionais de produção.
“Estamos em uma grave crise, em um momento de transição, em que uma geração está desaparecendo. A cultura familiar chacarera aparece, então, como um grito de resistência”, resume.

Festa e Museu da Chacra contam a história de Canelones
À frente da Fiesta y Museo de la Chacra, Federico López Romanelli demonstra uma relação pessoal com o patrimônio que ajuda a preservar. O espaço homenageia produtores e produtoras rurais que tiveram papel fundamental na formação econômica e social de Canelones e do próprio Uruguai.
Segundo ele, atualmente é em Canelones, Uruguai, que a cultura das chacras encontra uma de suas maiores concentrações.
“Esta tradição produtiva remonta às origens de Canelones e do Uruguai, processo no qual a influência portuguesa foi notável”, afirma.
Romanelli usa a própria história familiar para exemplificar a diversidade de origens que formou o país.
“Meu sobrenome, López, remete às minhas raízes nos Açores. Minha família foi estabelecida no Rio Grande do Sul e, posteriormente, trazida ao Uruguai por volta de 1780, entre outras famílias, para fundar a cidade de San Carlos.”
O pesquisador também relata ascendências italiana, crioula e indígena, além de antepassados relacionados aos imigrantes canários que participaram da fundação de Montevidéu no século XVIII.
“O Uruguai é, essencialmente, essa síntese, incluindo profundas raízes indígenas, como as Guarani e Minuanas”, afirma.
A origem indígena da palavra “chacra”
A própria palavra “chacra” ajuda a contar essa história. De origem quéchua, o termo é parte da herança indígena incorporada ao vocabulário e à cultura produtiva da região.
Romanelli lembra que outras palavras de origem indígena, como chala, quincha, totora, tambo e chasque, também permaneceram no cotidiano.
Embora o Uruguai tenha recebido forte influência europeia, ele ressalta que sua cultura guarda marcas profundas dos povos originários.
Para Romanelli, a colonização não significou apenas a exploração de riquezas do continente. Os europeus também encontraram sistemas produtivos desenvolvidos pelos povos locais, incorporando parte desses conhecimentos. Posteriormente, foram introduzidos elementos europeus, como trigo, outros grãos, arado e animais de tração.
Essa combinação ajudou a formar o modelo produtivo que, com transformações ao longo dos séculos, ainda pode ser identificado nas chacras uruguaias.


Gaúcho e chacarero: duas relações diferentes com a terra
Romanelli também chama atenção para uma distinção importante na história rural do Uruguai: a diferença entre o gaúcho e o chacarero.
“O gaúcho, tanto para nós quanto para vocês, é intrinsecamente ligado ao cavalo. É impossível conceber um sem o outro”, explica.
Historicamente, o gaúcho surgiu como personagem nômade, deslocando-se por grandes extensões territoriais sem propriedade fixa. Com o cercamento das terras e a consolidação das grandes propriedades rurais, esse modo de vida perdeu espaço.
“O gaúcho acabou absorvido pelo sistema produtivo das estâncias, tornando-se mão de obra fundamental, o peão das estâncias”, observa Romanelli.
O chacarero possui outra relação com a produção. A chacra é essencialmente uma unidade familiar, na qual os próprios integrantes da família trabalham para garantir a produção e o sustento. A contratação de trabalhadores ocorre principalmente em períodos específicos, como nas safras de frutas.
Romanelli resume essa diferença por meio de dois símbolos do campo: “O chacarero trabalha com o boi, que representa a chacra; o gaúcho trabalha com o cavalo, que representa a estância.”
Entre o boi e o cavalo, a pequena propriedade e a grande estância, permanece um elemento compartilhado entre uruguaios e brasileiros: o mate. Para Romanelli, mesmo servido em cuias de diferentes tamanhos, ele simboliza uma tradição capaz de atravessar fronteiras.
SERVIÇO:
Dias 31 de outubro e 1º de novembro de 2026, será realizada a 9ª edição da Fiesta de la Chacra. Essa celebração da identidade canária tornou-se um clássico da primavera, atraindo dezenas de milhares de visitantes todos os anos.
*Paulo Atzingen é jornalista e fundador do DIÁRIO DO TURISMO




