Pesquisar um voo, verificar a política de viagens de uma empresa e avançar até a reserva já pode acontecer dentro de uma única conversa com um assistente de inteligência artificial. A evolução marca uma nova etapa no uso da tecnologia pelo turismo, que começa a ir além dos chatbots voltados apenas a responder dúvidas ou sugerir destinos.
REDAÇÃO DO DIÁRIO – com assessorias
Os chamados agentes de inteligência artificial podem receber um objetivo, consultar diferentes sistemas e executar etapas de uma tarefa. No turismo, isso significa, por exemplo, buscar disponibilidade, analisar tarifas e verificar se determinada opção atende às regras estabelecidas por uma empresa antes de encaminhar a emissão.
Para Bruno Bazoti, fundador e CEO da Larian AI, empresa de tecnologia voltada ao setor de turismo, o avanço precisa ser analisado principalmente pela capacidade de integração da inteligência artificial com a infraestrutura utilizada pelas empresas.

IA agêntica começa a chegar às reservas de viagens
O conceito por trás dessa transformação é conhecido como IA agêntica, categoria de sistemas capazes de organizar uma sequência de ações para alcançar determinado objetivo.
Em uma viagem corporativa, por exemplo, o usuário pode informar destino, datas e limite de gastos. A partir dessas instruções, o agente pode consultar fontes disponíveis, comparar alternativas, considerar a política da empresa e preparar ou encaminhar uma reserva.
Em operações com maior nível de integração e autorização, a tecnologia também pode auxiliar em mudanças de itinerário e cancelamentos.
“O modelo de inteligência artificial, sozinho, não emite uma passagem. A execução depende de integrações confiáveis, dados atualizados e regras claras sobre o que o agente pode consultar, recomendar ou confirmar. É essa conexão com a operação que transforma uma conversa em uma reserva”, explica Bazoti.
Empresas de viagens já testam tecnologia
A utilização desse tipo de inteligência artificial começa a ganhar espaço principalmente no segmento de viagens corporativas.
Levantamento da Global Business Travel Association (GBTA), entidade internacional dedicada ao setor, apontou que 49% dos profissionais ligados a fornecedores e empresas de gestão de viagens e 33% dos compradores pesquisados já estavam testando inteligência artificial autônoma.
Ao mesmo tempo, aspectos como privacidade, segurança dos dados e integração com os sistemas existentes aparecem entre as preocupações relacionadas à adoção da tecnologia.
Um exemplo recente chegou ao mercado em agosto de 2026. A FCM Travel anunciou uma ferramenta de reserva conversacional com acesso inicial por Microsoft Teams e Slack.
O sistema permite que o viajante faça solicitações utilizando linguagem comum e considera critérios como políticas corporativas e preferências de rota antes de apresentar as alternativas disponíveis.
O que muda para agências e empresas de turismo?
Uma das principais mudanças está na maneira como a jornada de reserva é organizada.
Informações que anteriormente poderiam ficar distribuídas entre mensagens, formulários, sistemas de busca e plataformas de gestão passam a ser reunidas em um único fluxo conversacional.
Para empresas de turismo e companhias especializadas em viagens corporativas, isso pode reduzir erros de preenchimento, agilizar buscas e facilitar o cumprimento das políticas estabelecidas pelos clientes.
A automação, entretanto, não significa necessariamente o desaparecimento do atendimento humano. Viagens complexas, dificuldades envolvendo documentação, irregularidades nos voos e situações que exigem negociação continuam demandando profissionais especializados.
Erros da IA podem ter impacto financeiro
Quanto maior a autonomia concedida ao agente de inteligência artificial, maior também se torna a necessidade de definir mecanismos de controle.
No turismo, preços e condições podem mudar rapidamente. Uma tarifa pode ser alterada em poucos minutos, uma conexão pode deixar de ser adequada ou uma regra referente à bagagem pode ser interpretada incorretamente.
Caso um sistema tenha autorização para concluir operações sem confirmação, uma informação equivocada pode resultar em uma cobrança, emissão ou alteração que o viajante não desejava.
“A empresa precisa definir limites de autorização, manter o histórico das ações e estabelecer em quais momentos a validação humana será obrigatória. Quanto maior o impacto financeiro da decisão, mais importante é garantir rastreabilidade e possibilidade de reversão”, afirma o executivo.
Adoção deve começar por tarefas mais simples
A tendência é que as empresas ampliem o uso dos agentes de IA de maneira gradual. Entre as primeiras funções estão pesquisa de opções, seleção de viagens que estejam dentro da política corporativa e preparação de uma reserva para posterior aprovação.
Antes de conceder maior autonomia aos sistemas, empresas precisam avaliar indicadores como precisão das respostas, velocidade do atendimento e quantidade de intervenções necessárias para corrigir decisões da inteligência artificial.
Na prática, a IA pode reduzir etapas entre o pedido inicial do viajante e a emissão. O desempenho, porém, dependerá não apenas do modelo de inteligência artificial, mas também da qualidade dos dados, das integrações e dos sistemas aos quais ele tiver acesso.
Para o turismo, a transformação abre caminho para uma experiência na qual pesquisar, comparar e reservar pode ocorrer praticamente dentro da mesma conversa, enquanto empresas passam a enfrentar o desafio de equilibrar automação, segurança e supervisão humana.




